O Irã decidiu reabrir o Estreito de Ormuz, via marítima responsável pelo escoamento de 20% da produção de petróleo mundial. "Em linha com o cessar-fogo no Líbano, a passagem para todos os navios comerciais pelo Estreito de Ormuz é declarada completamente aberta pelo período restante do cessar-fogo, na rota coordenada anunciada pela Organização de Portos e Marítima da República Islâmica do Irã", declarou o ministro das Relações Exteriores iraniano, Seyed Abbas Araghchi. O anúncio de Teerã fez com que os preços do petróleo fechassem em forte queda. O preço do barril de Brent do Mar do Norte para entrega em junho recuou 9,07%, chegando a US$ 90,38. O barril de West Texas Intermediate, seu equivalente americano, despencou 11,45% e fechou a US$ 83,85.
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O presidente dos EUA, Donald Trump, usou a própria plataforma Truth Social para celebrar a decisão. "O Irã concordou em nunca mais fechar o Estreito de Ormuz. Ele não será mais usado como uma arma contra o mundo", escreveu o republicano, que citou um "grande e brilhante dia para o mundo". De acordo com o titular da Casa Branca, com a ajuda dos EUA, o Irã "removeu ou está removendo todas as minas marítimas".
Trump alertou que o bloqueio imposto pelas forças de Washington aos portos iranianos e, por consequência, ao Estreito de Ormuz, seguirá vigente. "O bloqueio naval será mantido em pleno vigor e efeito no que diz respeito ao Irã — e apenas ao Irã — até o momento em que nossa transação com o Irã estiver 100% concluída", afirmou. De acordo com ele, o diálogo com o regime iraniano deve caminhar "muito rapidamente". "A maioria dos pontos foi negociada", assegurou.
Fragilidade
O iraniano-americano Trita Parsi, analista do think tank Quincy Institute for Responsible Statecraft, disse ao Correio que "Trump não impôs um bloqueio real, e os iranianos não abriram, realmente, o estreito". "Em âmbito interno, a interrupção de navegação no estreito, por parte dos EUA, seria o máximo de pressão sem necessidade de uma ofensiva terrestre. Politicamente, isso expõe uma fraqueza: se Trump teve uma vitória decisiva, não precisava lançar mão de um instrumento coercitivo arriscado."
Na manhã desta sexta-feira (17/4), o presidente americano assegurou que "Israel não mais bombardeará o Líbano". "Eles estão proibidos de fazê-lo pelos EUA", avisou. Também disse que Washington "receberá todo o 'pó' nuclear gerado" pelos bombardeiros B2 — uma referência ao urânio enriquecido sepultado pelos ataques dos Estados Unidos em 2025. A julgar pela reação do Irã, esse anúncio de Trump não faz parte das tratativas que teriam sido acordadas pelos dois países. "O urânio enriquecido do Irã não vai ser transferido para lugar nenhum", garantiu Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, em entrevista a uma emissora de televisão estatal. "Uma transferência do urânio enriquecido do Irã para os Estados Unidos nunca foi cogitada."
Em entrevista à agência de notícias France-Presse, o americano foi enfático, ao comentar o diálogo entre Teerã e Washington. "Estamos muito perto de chegar a um acordo. Não há pontos conflituosos."
Especialista em segurança nacional e cientista político da Universidade de Notre Dame, Eugene Gholz lembrou ao Correio que o Irã anunciou outras vezes que Ormuz estava aberto. "Eles querem dizer que a passagem está livre para qualquer navio que siga os procedimentos do Irã. A diferença, agora, é que Teerã não mencionou a cobrança de pedágio. Isso, provavelmente, porque uma condição anterior — cessar-fogo no Líbano — foi atendida", avaliou.
Segundo Gholz, o Irã, agora, mostra interesse em "recompensar" o mundo. "Creio que o Irã se mostrará, por um tempo, muito mais flexível em permitir que navios deixem o Golfo Pérsico com facilidade", disse. O estudioso admitiu que o custo para economia mundial de um bloqueio efetivo do estreito seria substancial. "Até o momento, ele tem sido especulativo. Não há escassez real de petróleo devido aos estoques substanciais que não foram utilizados. Para causar uma escassez real de petróleo, o estreito teria que ficar fechado por alguns meses. Isso poderia acontecer e seria muito ruim para a economia. Muito ruim mesmo."
Libaneses começam a voltar para suas casas
Pouco depois do anúncio do cessar-fogo de 10 dias entre Israel e Líbano, milhares de libaneses começaram a retornar para suas casas, no sul do país, em meio à incerteza do que encontrariam. Centenas de carros aguardavam para atravessar a PonteAl-Qasmiya, sobre o Rio Litani, que sofria reparos depois de ser destruída em um ataque aéreo, na quinta-feira (16/4). Desde o começo da guerra entre Israel e Líbano, pelo menos 2.294 pessoas morreram nos bombardeios israelenses — incluindo 274 mulheres e 177 crianças. As estatísticas foram divulgadas pelo Ministério da Saúde libanês. O presidente do Parlamento do Líbano, Nabih Berri, pediu aos deslocados pela guerra para que adiem a volta para o lar."Instamos a todos a terem paciência e a adiarem o seu regresso às suas cidades e aldeias até que a situação e os acontecimentos se tornem mais claros, em conformidade com o acordo de cessar-fogo", declarou Berri. Mais de 1 milhão de libaneses foram expulsos de suas casas.
