O operador de máquinas Robson Gonçalves de Oliveira, de 36 anos, viveu em Boston uma cena que, em segundos, mudou o desfecho da própria prova e a vida de um outro corredor. A poucos metros da linha de chegada da maratona, na última terça-feira (21/4), ele viu um atleta em colapso no meio do percurso, desacelerou e decidiu parar para ajudar. O gesto o fez perder a chance de bater seu recorde pessoal, mas lhe rendeu uma história que atravessou a linha de chegada com muito mais peso.
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Morador de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, Robson trabalha em uma indústria metalúrgica do setor de caminhões e corre maratonas desde 2019. A rotina, no entanto, não o afastou do sonho de completar mais uma prova em Boston com marca abaixo de 2h43. Ele conta que treinou durante sete meses para a edição deste ano e vinha em ritmo forte quando tomou a decisão.
A cena aconteceu quando faltavam cerca de 800m ou 900m para a chegada. Robson já enxergava a chegada e sabia que precisava manter um ritmo próximo de quatro minutos por quilômetro para alcançar a melhor marca da carreira.
Foi então que viu o corredor em dificuldade, tentando se levantar enquanto os demais passavam. A reação, segundo ele, foi imediata. “Eu fui tocado por Deus naquele momento e foi algo genuíno. Não fiz para viralizar, para aparecer”, disse. “Quando você sente a dificuldade do outro, você tenta se colocar naquele local, naquela situação.”
“Eu falei: Deus, eu não tenho forças para conseguir levantá-lo sozinho e carregar ele até o final, mas que alguém pare. Que eu seja o segundo atleta a parar e nós três vamos juntos até o final”, relatou. “Dois são mais fortes que um.”
Um primeiro corredor parou, mas Robson percebeu que não seria suficiente. “Eu vi que ele estava tendo dificuldade para conseguir levantar o atleta que estava em colapso, e aí sim eu tive mais certeza que precisava ajudar”, contou. “Não tinha condição. Nem ele, nem eu sozinho conseguiríamos levá-lo até o final.”
A ajuda foi decisiva para que o corredor fosse conduzido até a chegada. Robson, porém, pagou o preço físico da decisão. Depois de cruzar a linha, desabou no chão, exausto. Ele foi levado de cadeira de rodas ao atendimento médico, onde passou por ecocardiograma, eletrocardiograma e exames de sangue. O diagnóstico, disse, foi de fadiga muscular.
“Depois que cruzou a linha de chegada, eu desabei no chão. Não por desmaio ou por algo cardíaco. Eu estava consciente, mas as pernas já não aguentavam mais ficar em pé”, explicou. “Graças a Deus, foi só muscular mesmo.”
Empatia
Essa, aliás, não foi a primeira vez que ele interrompeu a própria performance para ajudar outro atleta. Robson contou que já havia feito algo semelhante em outras provas, inclusive na Maratona do Rio, no ano passado, quando atuava como pacemaker e ajudou um corredor que também havia entrado em colapso.
“Eu acho que a maioria das pessoas é boa. Mas, às vezes, a pessoa está tão focada no próprio objetivo que não percebe alguém em dificuldade”, afirmou. “Eu sou muito grato a Deus por ter passado ali naquele momento e por poder ter tido força de conseguir ajudá-lo.”
Ao ser chamado de herói, Robson rejeita o rótulo. Para ele, a atitude reflete mais um valor pessoal e religioso do que qualquer gesto extraordinário. “Eu me senti uma pessoa comum, um trabalhador que gosta do esporte. As pessoas estão me rotulando como herói, mas para mim o herói é Jesus Cristo”, disse. “A gente tem que dar todo o crédito a Ele nesses momentos em que Deus tira força de onde a gente não tem.”
O corredor britânico que recebeu ajuda também foi lembrado por Robson, que disse ter feito questão de incentivá-lo até a linha final. Mesmo sem falar bem inglês, conseguiu dizer o essencial: “Não corra. Apenas ande.”
“Ele foi muito forte porque não desistiu de completar a maratona”, afirmou. “Eu só falei: você está apoiado aqui, você não vai cair de novo.”
Em meio à emoção, Robson diz que o episódio virou também uma lição para os filhos. Em casa, a cena foi acompanhada pela família, e a filha mais nova, de 5 anos, teria se emocionado ao ver o vídeo.
“Esse é o exemplo que eu quero passar para os meus filhos”, disse, emocionado. “Estou muito grato por ter vivido isso.”
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