REINO UNIDO

Lei contra cigarro no Reino Unido mira em jovens e repercute tema no Brasil

Medida proíbe venda para nascidos a partir de 2009 e surge em meio ao aumento de fumantes e ao avanço dos cigarros eletrônicos entre jovens no Brasil

O Reino Unido aprovou uma das leis mais rígidas do mundo contra o cigarro. A nova regra proíbe a venda de produtos de tabaco e dispositivos eletrônicos para pessoas nascidas a partir de 2009. A legislação estabelece um aumento progressivo da idade mínima para compra, com o objetivo de formar a primeira geração livre do fumo. A proposta busca criar uma geração que nunca terá acesso legal ao fumo.

A medida segue orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que aponta o tabagismo como uma das principais causas evitáveis de morte. Segundo a entidade, o cigarro está ligado a mais de 8 milhões de mortes por ano, incluindo cerca de 1,3 milhão de não fumantes expostos ao fumo passivo.

O avanço da legislação acontece em um momento de alerta em países que vinham reduzindo o número de fumantes, como o Brasil. Dados do Vigitel mostram que, depois de um período de estabilidade, o índice voltou a crescer. Em 2024, 11,6% da população adulta declarou fumar, contra 9,3% em 2023. Esse aumento representa uma alta de 25% em relação ao ano anterior, após anos de queda e estagnação desde 2019.

Um dos fatores que preocupam é o aumento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar indica que a experimentação desses produtos entre adolescentes de 13 a 17 anos subiu de 16,8% para 29,6%. Entre adultos, o uso desses dispositivos se manteve estável desde 2019, mas entre adolescentes o crescimento foi expressivo.

No Brasil, esses dispositivos são proibidos desde 2009 por decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Em 2024, o órgão revisou a regra e decidiu manter a proibição, ampliando as restrições para fabricação, distribuição, armazenamento e transporte.

Para especialistas, a ideia de que os cigarros eletrônicos fazem menos mal pode incentivar o início do consumo. A oncologista Gabrielle Scattolin afirma que o impacto do tabagismo continua alto. “O tabagismo é o principal fator de risco para o câncer de pulmão, que segue entre os mais comuns e letais no mundo. A maioria dos casos está ligada ao consumo de cigarro”, explica.

Segundo a médica, muitas pessoas ainda acreditam que o consumo em menor quantidade não traz grandes consequências, o que não é verdade. “Não existe nível seguro de consumo. Mesmo quem fuma pouco ou por pouco tempo já está exposto a riscos importantes”.

Ela também alerta para os dispositivos eletrônicos, que têm ganhado espaço principalmente entre os mais jovens. “Os dispositivos eletrônicos não são inofensivos. Eles liberam nicotina e outras substâncias que podem causar inflamação no pulmão e dependência. Entre os jovens, muitas vezes funcionam como porta de entrada para o cigarro tradicional”, diz.

Dados do Instituto Nacional de Câncer divulgados em 2026 reforçam a gravidade do cenário no Brasil. O câncer de pulmão está entre os tipos mais incidentes e letais, em grande parte devido ao diagnóstico tardio e à forte associação com o tabagismo.

O Reino Unido realiza uma mudança histórica ao tratar o tabagismo como questão estrutural de saúde pública. Especialistas defendem que a combinação de restrição de acesso, informação qualificada e fiscalização é o caminho mais eficaz para reduzir os impactos humanos e econômicos dessa epidemia.

*Estagiária sob supervisão de Paulo Leite

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