
As tensões no Estreito de Ormuz escalaram e colocam em xeque a trégua por tempo indeterminado anunciada por Donald Trump. Depois de anunciar que os Estados Unidos escoltarão embarcações para fora do canal marítimo bloqueado pelo regime iraniano, o presidente republicano ameaçou "varrer o Irã da face da Terra" caso ataque navios americanos. O Comando Central dos EUA afirmou ter destruído seis navios iranianos e interceptado mísseis e drones que teriam sido lançados por Teerã contra embarcações da Marinha e contra barcos comerciais. "A alegação dos EUA de que afundaram vários navios de guerra do Irã é falsa", assegurou um comandante militar iraniano citado pela emissora de televisão estatal.
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A Marinha do Irã admitiu que fez "disparos de advertência" contra navios americanos que teriam entrado no Estreito de Ormuz — canal estratégico para o comércio mundial, por onde passa um quinto do petróleo mundial. Por sua vez, os Emirados Árabes Unidos acusaram o Irã de ter lançado quatro drones, 12 mísseis balísticos e três mísseis de cruzeiro contra seu território. Se confirmado, foi o primeiro ataque de Teerã desde o início da trégua, em 8 de abril.
Em sua plataforma Truth Social, Trump admitiu que o Irã fez "alguns disparos" contra nações não relacionadas à movimentação de navios (no Estreito de Ormuz), incluindo um cargueiro sul-coreano. O titular da Casa Branca disse que somente o navio asiático sofreu danos. "Talvez seja hora de a Coreia do Sul vir e se unir à missão! Abatemos sete pequenas embarcações ou, como eles gostam de chamá-las, lanchas 'rápidas'. Além do navio sul-coreano, até o momento não houve danos em nenhuma embarcação que tenha atravessado o Estreito", garantiu o presidente americano.
Capitão aposentado da Marinha dos EUA e pesquisador do instituto Rand Corporation (em Arlington, Virgínia), Brad Martin lembrou ao Correio que ambos os lados deixaram claro que usarão a força para controlar o estreito, tanto para facilitar quanto para impedir a circulação. "O cessar-fogo ainda não foi encerrado, mas é frágil. Um ponto importante é que os navios mercantes podem optar por não transitar pelo estreito, independentemente do que qualquer um dos lados diga sobre o controle", afirmou.
De acordo com Martin, os Estados Unidos têm "considerável capacidade de impedir que o Irã exporte petróleo para gerar receita". "Teerã mantém a capacidade de tornar o trânsito de qualquer navio mercante arriscado e caro. "Enquanto os expedidores não considerarem o risco aceitável, o impasse persistirá. Uma escalada do conflito pode ocorrer se o Irã atacar embarcações e os EUA responderem, mas, por enquanto, encontrar empresas de transporte marítimo comercial dispostas a correr o risco de um ataque é provavelmente o maior obstáculo", explicou.
Para Eugene Gholz, especialista em segurança nacional e cientista político da Universidade de Notre Dame, a guerra "nunca parou". "Houve um cessar-fogo temporário e parcial, que se aplicava somente aos bombardeios e a ataques com mísseis a alvos em terra. Ambos os lados mantiveram o bloqueio durante todo o período, e um bloqueio é um ato de guerra", disse ao Correio. "O Irã ameaçou atacar qualquer navio que passasse pelo estreito sem permissão. Como a maioria das embarcações não tentou passar, o Irã não precisou realizar nenhum ataque desde o começo de abril. Por sua vez, os Estados Unidos ameaçaram atacar qualquer navio que servisse aos portos iranianos e, de fato, tiveram que atacar ou abordar vários navios para impor seu bloqueio."
Gholz explicou que os EUA mudaram o status quo, nos últimos dias, ao anunciarem que "guiariam" navios através do Estreito de Ormuz. "Não é de surpreender que o Irã tentaria enviar uma mensagem de que não aprovaria tais passagens. É difícil precisar quais foram os ataques reais do Irã, pois recebemos relatos diferentes de diversas fontes. Mas parece que o Irã disparou contra um ou dois navios e também contra alguns alvos terrestres nos Emirados Árabes Unidos. Os Estados Unidos provavelmente responderam a pelo menos alguns desses ataques", comentou.
O estudioso da Universidade de Notre Dame advertiu que a nova escaramuça pressiona o cessar-fogo parcial. "As coisas podem voltar a ser como eram na semana passada, ou talvez haja uma escalada ainda maior. Ou talvez os Estados Unidos continuem a guiar os navios para fora do estreito de uma forma que demonstre que o Irã não pode impedi-los. A última possibilidade me parece a mais provável, se as forças armadas e as empresas de navegação dos Estados Unidos conseguirem manter a calma", observou Gholz.
PALAVRA DE ESPECIALISTA
Chance para um acordo
"Parece-me que os Estados Unidos e o Irã poderiam sempre ter controlado as tensões, porque os Estados Unidos não tinham nenhum motivo urgente para atacar o Irã. Os que os EUA tinham era uma oportunidade tática para matar o líder iraniano, apresentada a eles por informações extremamente precisas da inteligência israelense. Washington aproveitou a oportunidade com os ataques em 28 de fevereiro para lançar a guerra.
Não tenho certeza de qual era o objetivo estratégico do ataque; os Estados Unidos têm sido inconsistentes ao anunciar seus objetivos estratégicos. Isso pode, na verdade, dar aos Estados Unidos e ao Irã alguma flexibilidade neste momento para reivindicarem a 'vitória' na guerra e, portanto, concordarem com um acordo. Cada um pode ter sua própria narrativa sobre o resultado da guerra. Não importa muito que as narrativas sejam inconsistentes.
Duvido que os Estados Unidos tenham muitos outros motivos para atacar o Irã, exceto a necessidade de retomar o tráfego marítimo; caso contrário, é óbvio que o ataque americano criou um problema em vez de resolvê-lo. O Irã pode alegar ter resistido a um ataque americano e mantido seu regime clerical. Quando o aiatolá Ruhollah Khomeini teve que encerrar a Guerra Irã-Iraque em 1988, ele falou sobre beber de um cálice envenenado. Desta vez, o Irã provavelmente não precisa mencionar o consumo de veneno. Talvez isso possa simplesmente terminar, se ambos os lados quiserem. Mas talvez não queiram. É difícil saber o que eles querem."
EUGENE GHOLZ, especialista em segurança nacional e cientista político da Universidade de Notre Dame (em Indiana, EUA)
EU ACHO...
"O Irã não precisa atacar todas as embarcações nem lançar um grande número de minas. A ameaça pode ser suficiente para impedir que os navios mercantes tentem transitar pelo Estreito de Ormuz. Por outro lado, o Irã enfrenta uma situação econômica crítica e, eventualmente, terá que tomar medidas para que o bloqueio dos Estados Unidos seja suspenso."
Brad Martin, capitão aposentado da Marinha dos EUA e pesquisador do instituto Rand Corporation (em Arlington, Virgínia)
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