
Uma semana depois de dominar as manchetes internacionais com a recepção a Donald Trump, uma visita marcada pela pompa e pela afirmação da China como um dos polos centrais na ordem internacional multipolar, o presidente Xi Jinping prepara novamente o tapete vermelho para receber o colega da Rússia. Vladimir Putin desembarca em Pequim, na terça-feira (19/5), determinado a reafirmar os laços firmados nos últimos anos, e reafirmados na antessala da invasão russa à Ucrânia, em fevereiro de 2022.
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"A Rússia está ligada à China por laços mais profundos e fortes do que as tradicionais alianças políticas e militares", disse à imprensa o chanceler Sergei Lavrov, comentando os impactos da reunião entre Xi e Trump, que dominou o noticiário internacional na última semana. "É um novo tipo de relação que estabiliza a política e a economia mundial mais do que qualquer outro fator", completou. O chanceler russo falou à imprensa na capital da Índia, Nova Délhi, onde encontrou os colegas do Brics, como parte dos preparativos para a cúpula anual do bloco emergente, em junho.
Lavrov, tido entre os diplomatas mais capacitados da atualidade, não deixou de comentar os resultados da reunião de cúpula entre os chefes de Estado e governo das duas potências com as quais a Rússia procura contracenar na condução dos assuntos internacionais — com destaque para as guerras em andamento no Oriente Médio e na Ucrânia, esta com com participação direta da Rússia. "Se os acordos alcançados ou a serem alcançados por Pequim e Washington forem do interesse de nossos amigos chineses, só podemos ficar satisfeitos", declarou, antes de deixar a capital indiana.
Estratégia
O regime comunista de Pequim, como de hábito no trato dos temas centrais de política externa, guardava a habitual discrição. O Kremlin, por sua vez, adiantou que Putin leva na bagagem duas ordens de interesses. "Os dois presidentes conversarão sobre os principais temas internacionais e regionais e assinarão uma declaração conjunta", informou, em comunicado. Putin, diz o texto, busca com o colega chinês "reforçar ainda mais a relação global e a cooperação estratégica". A agenda prevê um encontro com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, dedicado à cooperação econômica e ao comércio.
A abordagem da China para a recepção a Putin guarda semelhanças — em nenhuma medida meras coincidências — com a concepção que norteou a condução da visita de Donald Trump. Assim como fez na última semana, a experimentada diplomacia chinesa dará sequência ao movimento pelo qual sai da habitual discrição, em certa medida, para assumir uma posição central no tabuleiro geopolítico.
"O sinal mais importante a ser lido, na linguagem chinesa, é a introdução de um novo lema: estabilidade estratégica construtiva", disse ao Correio, Lizzi Lee, que integra o Centro de Análises sobre a China no think tank norte-americano Asia Society. "Pequim está, efetivamente, propondo aos parceiros um novo sistema operativo para as relações entre as grandes potências."
Parte dessa abordagem, no que diz respeito à Rússia, é a cuidadosa intervenção de Pequim no conflito da Ucrânia. A despeito da aliança estratégica com o Kremlin, selada às vésperas da invasão russa ao país vizinho, em 2022, Xi tem procurado se apresentar como um interlocutor capaz de aproximar as partes para uma solução diplomática. A China pede negociações de paz e o respeito à integridade territorial de todos os países, mas nunca condenou a Rússia. Apesar disso, apresentou, em parceria com o Brasil, uma proposta para que os governos de Moscou e Kiev se sentem à mesa para negociar os termos de um acordo de paz definitivo.
Saiba Mais
Taiwan reafirma a independência
O governo de Taiwan insistiu no sábado (16/5) em que constitui "uma nação democrática, soberana e independente", em resposta a uma declaração feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pouco antes de encerrar a visita de dois dias à China, que considera a ilha "parte inalienável" do país. Desde os anos 1970, Washington reconhece a República Popular como única representante legítima da China, embora tenha compromisso com a defesa de Taiwan contra uma ofensiva militar para submetê-la ao controle de Pequim. Antes de voltar para Washington, Trump se opôs publicamente a qualquer declaração separatista e negou apoio militar à iniciativa: "Não quero que alguém declare a independência, supondo que vamos percorrer 15 mil km para ir à guerra".

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