Encontro de cúpula

Trump "rifa" Taiwan

De partida para casa, ao fim de uma visita histórica a Pequim, presidente dos EUA atende a uma aspiração do regime chinês e manifesta oposição à independência da ilha governada por dissidentes. Xi Jinping estuda convite para ir a Washington em setembro

 Câmeras de segurança diante do retrato de Mao Tsé-tung, fundador da China comunista, no centro político de Pequim: relação com os EUA em novo patamar -  (crédito: Brendan Smialowski/AFP)
Câmeras de segurança diante do retrato de Mao Tsé-tung, fundador da China comunista, no centro político de Pequim: relação com os EUA em novo patamar - (crédito: Brendan Smialowski/AFP)

Donald Trump encerrou a visita de Estado de dois dias à China, preparada pelos anfitriões com a pompa de um acontecimento histórico, com uma declaração à altura da ocasião — e das aspirações mais profundas de Pequim, no âmbito das relações bilaterais. Antes de partir de volta para Washington, na sexta-feira (15/5), e depois de ter ouvido uma advertência pública sobre o tema por parte do anfitrião, Xi Jinping, o presidente dos Estados Unidos deu um importante passo à frente na controversa questão de Taiwan, que mantém governo autônomo, mas é considerada pelo regime comunista parte inseparável do país.

Presidente chinês visitará EUA no 2º semestre após convite de Trump

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Como terminou o encontro entre Trump e Xi Jinping na China, mais simbólico do que prático

Em encontro com Trump, Xi afina o tom da relação entre EUA e China

"Não quero que alguém declare a independência, supondo que vamos percorrer 15 mil km para ir à guerra", disse Trump à emissora norte-americana Fox News. "Não queremos que alguém pense: vamos proclamar a independência porque os EUA nos apoiam", insistiu. Até então, a postura de Estado em Washington se mantinha no limite de reconhecer a existência de "uma só China" e não manifestar respaldo a aspirações de secessão. Pela primeira vez, um presidente dos EUA desautoriza, pública e categoricamente, qualquer gesto concreto em direção à separação da ilha, governada por dissidentes desde a vitória comunista na guerra civil, em outubro de 1949.

"Quero que Taiwan esfrie a cabeça. Quero que a China esfrie a cabeça", aconselhou Trump. Na véspera, em discurso no jantar de gala oferecido ao visitante, o presidente chinês tinha feito a advertência pública mais eloquente da República Popular, hoje reconhecida mundialmente como o principal contraponto à hegemonia política e econômica dos EUA, sobre a delicada questão da "província rebelde" — como é classificada pelo regime comunista. "Taiwan é o tema mais importante entre nós", afirmou Xi. "Se for mal conduzido, as duas nações podem te um choque, ou mesmo um conflito."

Bom para ambos

Em uma avaliação inicial, a primeira visita de um presidente dos EUA à China desde que o próprio Trump desembarcou em Pequim, em 2017, no primeiro mandato na Casa Branca, termina com saldo positivo para as duas partes. "Trump teve as imagens que queria, e os chineses ficaram satisfeitos em fornecê-las. Na minha opinião, tratava-se mais de reforçar a dinâmica entre os dois países do que de obter resultados específicos", observou Jacob Stokes, especialista do think tank Center for a New American Security.

Acompanhado de uma comitiva empresarial liderada pelos executivos-chefes das principais empresas de tecnologia norte-americanas, o presidente apostava na conclusão ao menos de protocolos de intenções para a abertura do mercado chinês — e, na mão inversa, para investimentos destinados a abrir empregos industriais nos EUA. Embarcou de volta sem resultados concretos na bagagem, mas deixou encaminhado o convite para que Xi para visite Washington em setembro, o que selaria a estabilização das relações entre as duas maiores economias do mundo, estremecidas no ano passado com a guerra de tarifas comerciais iniciada por Trump.

"O saldo da visita é positivo para ambos e positivo para o mundo, como um todo", pondera o professor de relações internacionais Juliano Cortinhas, da UnB. "Não há como haver prosperidade internacional sem uma relação boa entre EUA e China: O equilíbrio da economia mundial depende disso", argumenta, em entrevista ao Correio. "São as maiores economias do mundo, e é bom para todos que haja estabilidade nessa relação. E me parece que a China entende isso melhor que os EUA." O professor enxerga por essa perspectiva a questão de Taiwan. "Ela se encaixa nessa dinâmica, ou seja: eu (China) tenho o poder suficiente, econômico, político e até mesmo militar, para impor o meu controle sobre Taiwan, e ninguém pode mexer nisso. É uma linha riscada no chão."

"Acordos fantásticos"

Mesmo sem ter feito qualquer anúncio, o presidente dos EUA citou, na entrevista à Fox News, "acordos comerciais fantásticos" que teriam sido negociados, e afirmou que a China se comprometeu a comprar "200 grandes" aviões da Boeing. O trato incluiria "uma promessa de 750 aviões, o que será, com folga, o maior pedido da história, se fizerem um bom trabalho".

Em outro ponto sensível para Washington, Trump retorna sem um compromisso público e explícito de Pequim: o de pressionar o regime islâmico do Irã, um aliado estratégico, a reabrir o Estreito de Ormuz. A via marítima, estratégica para as exportações de petróleo do Golfo Pérsico — inclusive para a própria China —, está sob bloqueio iraniano desde que EUA e Israel bombardearam a República Islâmica, em 28 de fevereiro. A guerra, embora "congelada" por um cessar-fogo em vigor desde 8 de abril, avança pelo terceiro mês sem sinal de solução à vista.

Trump assegura que ouviu do anfitrião a promessa de que não ajudará o Irã militarmente, embora não tenha sido divulgada nenhuma declaração formal sobre o tema. Mas, na entrevista de despedida, mencionou uma oferta de apoio: "Ele gostaria de ver o Estreito de Ormuz aberto, e disse: 'Se eu puder ser de qualquer utilidade, gostaria de ajudar'."

A China sabe melhor o que quer

A relação entre EUA e China é pragmática. Trump tentou ideologizar, a partir das tarifas e da pressão sobre a China, de tentar trazer investimentos e a produção de volta para o país, por meio das barreiras, mas para a maioria dos mercados isso não foi possível, porque as cadeias produtivas estão todas voltadas para a China. Com isso, ele gerou uma pressão inflacionária muito grande.

Veio a queda na popularidade e ele está sentindo a pressão: tem a eleição legislativa de meio de mandato, em novembro, e ele foi forçado a voltar atrás. Por isso, tem adotado novamente uma posição mais pragmática, que tem sido a tradição dos EUA desde que a China começou a ascender no cenário internacional. 

Essa vai ser uma coisa cada vez mais natural, até porque a China tem uma política que olha para o longo prazo e tem condições macroeconômicas, tem um tamanho que vai colocá-la na posição de maior potência econômica.

Isso não significa que a China vá tomar o lugar que os EUA vêm ocupando desde 1945, de reguladores da ordem internacional. A China diz, ao contrário, que não tem essa intenção e não vai tentar exportar o seu regime, a sua cultura, o seu modelo político-econômico, como fizeram os EUA, ao longo das últimas décadas.

Esse é um cenário em que o sistema internacional está vendo um declínio relativo dos EUA, mas ainda não está claro como vai ser esse novo mundo, essa nova ordem. Isso gera uma situação de instabilidade política, econômica: não se sabe para onde se está indo, apesar de estar claro que estamos em uma transição hegemônica.

Todas essas dúvidas fazem que que o Xi tenha uma clareza maior do que o Trump sobre o papel que os chineses querem jogar. Nos EUA, há muita dúvida sobre esse papel. 

Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da UnB

  • Google Discover Icon
postado em 16/05/2026 05:50
x