Encontro em Pequim

Depois de Trump, a vez de Putin: Xi Jinping encontra presidente da Rússia

Xi Jinping recebe o presidente da Rússia, passados quatro dias da visita do colega norte-americano, Donald Trump. Na agenda, a reafirmação de uma parceria construída como contraponto à hegemonia político-militar dos Estados Unidos

Putin (C) é recebido no aeroporto pelo chanceler Wang Yi:
Putin (C) é recebido no aeroporto pelo chanceler Wang Yi: "aliança sem limites" sob teste em meio às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio - (crédito: Vladimir Smirnov/Pool/AFP)

Apenas quatro dias depois de se despedir de Donald Trump, em Pequim, o presidente da China, Xi Jinping, recebe por dois dias o colega da Rússia, Vladimir Putin, que chegou na terça-feira (19/5) disposto a "fortalecer ainda mais" a parceria estratégica entre os dois países e "trocar opiniões sobre questões cruciais de âmbito regional e internacional", segundo informou o Kremlin. No centro da agenda, além da cooperação econômica, em especial no terreno energético, as guerras em curso no Oriente Médio e na Ucrânia, que Putin invadiu em fevereiro de 2022 — e, desde então, visitou a capital chinesa anualmente.

China e Rússia juntas: o que realmente mantém os dois países unidos

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Vladimir Putin visita Xi Jinping com Irã na agenda

"Putin busca tanto tanto reforçar o laço geopolítico e estratégico com a China quanto mostrar que não está isolado, internacionalmente", disse ao Correio Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da UnB. "Desde que assumiu o poder, em 2000, ele já teve 25 encontros com os líderes chineses." Não por acaso, os presidentes das duas potências do Brics tratam-se como "velhos amigos". Tampouco foi casual que Xi tenha citado Putin nominalmente quando conduzia Trump, na semana passada, pelos jardins de Zhongnanhai, reservado complexo onde raríssimos visitantes são admitidos — o presidente russo foi o exemplo escolhido pelo anfitrião para ilustrar a dimensão do privilégio.

"O que se espera é que Xi informe Putin sobre os resultados da cúpula com Trump e os próximos passos das relações entre China e EUA", concorda Lyle Morris, pesquisadora sênior sobre política externa chinesa no think tank norte-americano Asia Society. "À parte disso, as guerras na Ucrânia e no Irã devem dominar as conversações", avalia. "Putin depende muito do apoio chinês à economia da Rússia, como um salva-vidas para sustentar a guerra na Ucrânia. E gostaria muito de ouvir sobre os próximos passos da China no Oriente Médio."

Em mensagem em vídeo endereçada "ao povo chinês", o visitante afirmou que as relações bilaterais atingiram "um nível verdadeiramente sem precedentes", e exaltou o crescimento continuado das trocas comerciais. "Sem nos aliarmos contra ninguém, buscamos a paz e a prosperidade universal", acrescentou, sem mencionar nenhum terceiro país.

"A China não recebe Putin como se estivesse recebendo os EUA", observa o professor da UnB. "O que ela vê é como pode manter a Rússia mais perto, sem estremecer os laços com os EUA." Na análise de Roberto Menezes, as relações entre Pequim e Washington "ficam mais no campo da disputa estratégica, em especial no campo da tecnologia, e também da disputa pela influência no mundo". Embora Xi trate Putin "com toda a deferência e respeito", o estudioso vê "uma assimetria muito grande" entre os dois, ainda que sejam sócios no Brics. "É a ideia de que está em construção, em marcha uma outra ordem internacional, ou seja, a criação de regras, de instituições, para compartilhar a prosperidade, como dizem os chineses."

Petróleo na pauta

A guerra iniciada por EUA e Israel contr o Irã, e mais especialmente a crise no Estreito de Ormuz, acentuam uma relação de dependência mútua entre Pequim e Moscou, no terreno econômico. "A China mira, sobretudo, na energia, porque produz metade do petróleo de que precisa. A outra metade — e cada vez ela precisa de mais — tem que importar de diversas fontes", explica Menezes. Praticamente impedida de exportar para a Europa, por causa da invasão à Ucrânia, a Rússia tem na vizinha asiática "o principal aliado, que acabou a socorrendo". As sanções impostas pelos EUA e pelos europeus praticamente estrangularam as exportações russas. 

Os dois países discutem há quase 10 anos a construção do oleoduto Força da Sibéria 2, projeto de alto custo que, por isso mesmo, continua em discussão sobre as pranchetas dos especialistas de ambos os lados. "Agora, com o fechamento do Estreito de Ormuz, a segurança energética chinesa passa por novas fontes de suprimento estáveis, como a Rússia, que detém as maiores reservas do mundo", lembra o professor da UnB. Ele vê a possibilidade de que o projeto avance nessa visita, talvez com um anúncio sobre o começo da construção do oleoduto. "O fato é que, hoje, a economia russa depende quase exclusivamente das relações com o governo chinês."

Duas perguntas para

Lyle Morris, pesquisadora sênior sobre política externa da China na Asia Society

O que se pode esperar das conversas entre Xi e Putin?

Putin gostaria muito de ouvir sobre os próximos passos da China no Oriente Médio. Muita gente espera que Xi reforce sua diplomacia junto ao Irã, e Trump, em sua visita a Pequim, sinalizou claramente que espera da China um papel central, inclusive na ajuda para reabrir o Estreito de Ormuz. Rússia e China são dois atores de peso no Oriente Médio, ao lado dos EUA, e devem coordenar suas políticas, caso Pequim decida jogar um papel mais relevante. 


Que significado tem a chegada do presidente russo apenas dias depois da partida de Trump?

Não é coincidência que seja Putin o primeiro visitante de Estado estrangeiro depois de Trump.
Xi vê suas relações com Putin, e as da China com a Rússia, como as mais importantes, afora as relações com os EUA. Ele se encontrou com Putin mais vezes do que com qualquer outro líder. É muito simbólico que tenha decidido recebê-lo novamente tão em seguida do encontro com o presidente dos EUA.

  • Google Discover Icon
postado em 20/05/2026 05:50
x