Tensão no Caribe

Foco dos Estados Unidos é mudar o regime de Cuba, admite Rubio

Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, reforça a intenção de modificar o sistema de governo comunista e anuncia que Havana aceitou ajuda de US$ 100 milhões. Porta-aviões se aproxima da ilha. Suprema Corte vota a favor de empresa americana nacionalizada por Fidel

Cubanos exilados em Miami protestam em apoio ao inidiciamento de Raúl Castro pelo Departamento de Justiça americano  -  (crédito: Chandan Khanna/AFP)
Cubanos exilados em Miami protestam em apoio ao inidiciamento de Raúl Castro pelo Departamento de Justiça americano - (crédito: Chandan Khanna/AFP)

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, admitiu que a Casa Branca está "muito focada" em mudar o sistema comunista de Cuba e revelou que Havana aceitou o pacote de ajuda de US$ 100 milhões oferecido na véspera, pouco antes do indiciamento do ex-presidente Raúl Castro por assassinato e conspiração para matar cidadãos dos EUA. "Seu sistema econômico não funciona. Está quebrado, e não pode ser consertado com o sistema político atual que está em vigor", disse Rubio. "Eles não vão conseguir que a gente se renda nem ganhar tempo. Estamos muito sérios. Estamos muito focados", acrescentou. Enquanto o chefe da diplomacia americana falava a jornalistas em Miami, o porta-aviões USS Nimitz e navios de escolta entravam no Caribe. Rubio advertiu que, apesar de Cuba ter aceitado a oferta de assistência milionária, não está certo de Washington avalizará as condições de Havana. 

A pressão sobre o regime cubano se manteve também no campo judicial. A Suprema Corte dos EUA decidiu a favor de uma empresa portuária de propriedade americana, cuja propriedade na orla do cais foi confiscada em 1960, após a chegada de Fidel Castro ao poder. À época, Fidel nacionalizou a propriedade privada. A decisão da máxima instância do Judiciário americano pode abrir espaço para reivindicações semelhantes por parte de empresas e indivíduos dos Estados Unidos. 

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Professor de governo e especialista em América Latina pela American University (em Washington), William LeoGrande denunciou a hipocrisia do governo Trump. Ele contou ao Correio que Cuba havia declarado que aceitaria a ajuda dos Estados Unidos. "Havana exigiu que Washington não incluísse nenhuma condição além de ser enviada por canais não governamentais. Cuba acolheu ajuda anterior sob as mesmas condições", lembrou. "No entanto, é hipócrita para os EUA cortar todo o petróleo de Cuba, mergulhando o país em uma crise humanitária e, depois, oferecer ajuda", acrescentou. 

LeoGrande não acredita que o regime cubano ceda aos anseios dos EUA e acelere uma mudança de comando. "De forma repetida, os líderes de Cuba têm traçado uma linha vermelha contra a negociação, com Washington, de seu sistema político ou suas lideranças. O regime permanece desafiador. Cuba deseja negociar uma ampla variedade de assuntos econômicos, mas não os elementos básicos de sua soberania nacional", destacou. Por sua vez, Jorge I. Domínguez — professor aposentado de estudos internacionais da Universidade de Harvard — avalia a ajuda de US$ 100 milhões como "uma gota d'água em um oceano de sanções". "Rubio também disse que não existe 'bloqueio do petróleo', quando é exatamente isso o que determinam as decisões da Casa Branca. As sanções impostas à Rússia têm exceções, mas o governo proíbe que Moscou envie petróleo para Cuba", disse ao Correio.

Para Domínguez, a dúvida paira nas reais intenções de Trump. "O que ele realmente deseja? Mudança de regime? Uma nova política econômica? Ele permitirá à Organização Trump construir um hotel e um campo de golfe? Os detalhes mudam dia a dia", ressaltou. O especialista de Harvard acrescentou que Marco Rubio foi mais claro em sua sequência do que o titular da Casa Branca. "Em janeiro, falou em mudança econômica; em março, mudança política. Agora, Cuba representa uma ameaça militar. É por isso que o porta-aviões USS Nimitz, que acaba de concluir exercícios navais com a Marinha brasileira, entrou no Mar do Caribe."

Ex-diretor do Instituto de Investigações Cubanas da Universidade Internacional da Flórida, o antropólogo Jorge Duany afirmou à reportagem que o regime de Cuba tem se negado a implementar reformas significativas como resultado de pressões externas. Ele pontua que a única mudança importante foi a aprovação de regulamentações que permitam aos cubanos residentes fora da ilha investir e possuir empresas em Cuba. Duany ressalta, entretanto, que a liderança cubana insistiu que não negociará assuntos internos com os EUA, incluindo a liberação de presos políticos ou de pessoas em cargos de liderança. "As autoridades de Havana somente estão dispostas a discutir com representantes norte-americanos temas de interesse bilateral, como migração, narcotráfico e compensação por propriedades confiscadas após a revolução", comentou. 

Quanto à decisão da Suprema Corte sobre a reversão da nacionalização de empresas americanas, Duany vê um avanço significativo para requerentes ao abrigo da Lei Helms-Burton, que permite a empresas e cidadãos dos EUA processar por indenizações relativas a propriedades confiscadas pelo governo cubano depois de 1959. "A sentença favorável à Havana Docks Corporation permitiria que ela recebesse milhões de dólares pelo 'tráfego' em seus cais, utilizado por diversas companhias de cruzeiro americanas. Agora, um tribunal federal de apelações terá que revisar o caso e determinar os valores da indenização."

EU ACHO...

Jorge I. Domínguez, professor aposentado de estudos internacionais da Universidade de Harvard
Jorge I. Domínguez, professor aposentado de estudos internacionais da Universidade de Harvard (foto: Harvard University News Office)

"O governo de Cuba parece disposto a mudar seu regime econômico e a cooperar em temas de segurança. Ambos países têm levado muitos anos em uma cooperação contra o narcotráfico. No entanto, o suicídio político não se encontra sobre a mesa de negociação."

Jorge I. Domínguez, professor aposentado de estudos internacionais da Universidade de Harvard

China critica ofensiva contra aliado caribenho

O governo da China reafirmou, nesta quinta-feira (21/5), seu apoio ao regime comunista de Cuba e advertiu os Estados Unidos para que "parem de brandir o porrete das sanções e de ameaçar com o uso da força a cada passo" nas relações com a ilha caribenha. "A China sempre se opôs firmemente às sanções unilaterais ilegais, que carecem de fundamento no direito internacional, e ao abuso dos meios judiciais", disse em Pequim o porta-voz da chancelaria, Guo Jiakun. "A China apoia firmemente Cuba na defesa de sua soberania e dignidade nacionais e se opõe à interferência externa."

O porta-voz reagia ao indiciamento de Raúl Castro, ex-presidente e um dos remanescentes da geração que comandou a revolução comunista de 1959, liderada por Fidel Castro, seu irmão mais velho, morto há 10 anos. Raúl, de 94 anos, é acusado pela Justiça norte-americano pela morte de quatro pessoas, em 1996, quando foram abatidos dois aviões em que davam apoio a cubanos que atravessavam o Estreito da Flórida rumo aos EUA. Na época, ele era o ministro da Defesa de Cuba.

"Trump parece estar preparando uma missão parecida com a da Venezuela, e isso pode ser um complicador no trato com a China", disse ao Correio o professor de relações internacionais Juliano Cortinhas, da UnB. Ele se referia à operação militar que resultou na captura, em Caracas, do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em janeiro. Como o veterano líder cubano, ele é objeto de processo criminal nos EUA — no caso, por narcotráfico.

"Não acho que Pequim vá adotar uma reação muito forte. Certamente, vão criticar e se posicionar, mas não acho que isso possa ter um efeito prático nas relações bilaterais", pondera Cortinhas. "A crítica do governo chinês ao indiciamento de Raúl Castro é uma reação pró-forma, diplomática", avalia Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPN. "Não acho que tenha potencial para descarrilar as relações, até porque a China, mais para a frente, pode usar o exemplo de Cuba para tentar ocupar Taiwan", arrisca. (SILVIO QUEIROZ)

 

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postado em 22/05/2026 05:50
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