Canadá

"Vendedor de venenos" admite 14 crimes e pode ter matado 1.209

Kenneth Law, um cozinheiro canadense de 60 anos, comercializou kits com substâncias letais para 1.209 pessoas em 41 países. Familiares de vítimas criticam retirada das acusações de homicídio em primeiro grau. Réu responderá por suicídio assistido

Leonardo Bedoya com a filha Jeshennia, que se matou aos 18 anos, após receber o kit de Law -  (crédito: Arquivo pessoal )
Leonardo Bedoya com a filha Jeshennia, que se matou aos 18 anos, após receber o kit de Law - (crédito: Arquivo pessoal )

O cozinheiro canadense Kenneth Law, 60 anos, admitiu culpa em 14 crimes de assistência ao suicídio ocorridos entre 2021 e 2023 na província de Ontário. Com a confissão, a promotoria deve solicitar ao tribunal a retirada das acusações de homicídio. Law vendeu 1.209 pacotes com kits de substâncias letais para pessoas de 41 países. Cada pacote custava, em média, US$ 80 (cerca de R$ 404). Uma investigação da emissora CBC News associou pelo menos 147 mortes a Law — em Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, Suíça, Irlanda, Nova Zelândia, Alemanha e Itália. A expectativa é de que Kenneth Law seja condenado a 14 anos de prisão em cada acusação de suicídio assistido. 

Segundo a agência de notícias France-Presse, Law sondava clientes de forma proativa, em um fórum de discussão sobre o suicídio, onde usava o apelido "Greenberg". Quando os usuários mencionavam o nitrito de sódio — um conservante para carnes —  como um possível meio para o suicídio, ele os encaminhava para um de seus sites na internet, onde a substância em pó estava disponível em concentrações letais.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Law também orientava seus "clientes" sobre como usar o nitrito de sódio para o suicídio. O jornal The Guardian informou que ele trabalhava na cozinha de um hotel de Toronto. Na tentativa de evitar ser descoberto pelas autoridades policiais, o "vendedor de venenos" oferecia outros produtos, incluindo molho quente, para criar a ilusão de que agia como atacadista de produtos alimentícios industriais. 

Uma das vítimas do "vendedor de venenos", Jeshennia Bedoya tirou a própria vida em 10 de setembro de 2022, depois de receber o kit na cidade de Aurora (Canadá), onde morava com os familiares. "Minha filha morreu dez dias depois de meu aniversário. Eu a encontrei morta, em seu quarto. Fiquei uma meia hora com ela. Foi muito doloroso ver minha única filha indo embora", desabafou ao Correio o colombiano Leonardo Bedoya, 43 anos, pai de Jeshennia. Meses depois do suicídio, a família da garota recebeu uma visita da polícia canadense e de um detetiva britânico, e foi informada de que o caso tinha ligação com Kenneth Law. 

Leonardo Bedoya com a filha Jeshennia, que se matou aos 18 anos, após receber o kit de Law
Leonardo Bedoya com a filha Jeshennia, que se matou aos 18 anos, após receber o kit de Law (foto: Arquivo pessoal )

Bedoya criticou a decisão da Justiça de não acolher as acusações de homicídio em primeiro grau. "Na condição de pai, vejo esse anúncio como algo muito doloroso para nós, familiares. Esse senhor merece passar o resto da vida na prisão, pois é culpado por 1.200 mortes em todo o mundo. Encontrar a minha filha como encontrei é algo que me marca por toda a minha vida. É algo muito difícil de engolir. Ainda chego em casa e não sei o que aconteceu", disse.  

María López, 43, mãe de Jeshennia, gravou ao Correio um depoimento em vídeo diante de um alta em memória da filha. "Jeshennia era minha amiga, minha confidente, era tudo. Compartilhávamos nossos momentos, brincávamos uma com a outra. Ela era uma boa estudante, atleta. Jeshennia me ajudava em tudo, me escutava. Viver sem ela é como se grande parte do meu coração tivesse sido arrancado", afirmou. 

Thomas, filho de David Parfett, tinha 22 anos quando se matou em 2021. "Se Kenneth Law não tivesse dado instruções detalhadas sobre a forma de se suicidar, meu filho provavelmente estaria com vida, portanto para mim é um assassinato", declarou à agência France-Presse. Ele defende uma legislação mais rigorosa contra fóruns online que incentivam suicídios ou mutilações e lamentou o fato de as autoridades canadenses perderem a chance estabelecer a gravidade da conduta de Law. 

  • Google Discover Icon
postado em 30/05/2026 05:50
x