
Pensador universal da complexidade e referência em humanismo. Com essas palavras, a Multiversidad Mundo Real Edgar Morin, instituição baseada no México, informou a morte do sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, aos 104 anos. Intelectuais brasileiros que trabalharam com Morin lamentaram o falecimento. "Sua partida representa uma profunda perda para a educação, a filosofia, as ciências sociais e as comunidades acadêmicas, que encontraram em sua obra uma guia para compreender a incerteza, religar os saberes e assumir a complexidade da condição humana", afirma comunicado divulgado pela Multiversidad Mundo Real Edgar Morin.
A nota acrescenta que a proposta do pensamento complexo de Morin possibilitou reconhecer a relação indissolúvel entre indivíduo, sociedade, espécie, natureza e cultura. "A partir de sua visão, a educação não somente transmite conhecimentos, mas ajuda a formar consciência, sensibilidade, responsabilidade e sentido de pertencimento a uma comunidade mais ampla", explica. Ainda segundo a instituição mexicana, a morte de Morin deixa um "vazio no pensamento universal". "Seu legado permanece como uma força viva para quem busca compreender o mundo a partir de uma visão integradora", acrescenta.
Um dos mais renomados intelectuais da esquerda francesa durante o século 19 e pioneiro da teoria da comunicação, uma das bases dos cursos de jornalismo, Morin publicou quase 100 livros. A última obra foi publicada em 2024, aos 102 anos — um romance de inspiração autobiográfica escrito em 1946 e que retomou para finalmente torná-lo público. Em 2021, chegou a lançar dois livros: uma coletânea de ensaios e uma obra de memórias intitulada Lições de um século de vida.
Doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP), pedagoga, especialista em transdisciplinaridade e pensamento complexo e pós-doutora orientada pelo próprio Edgar Morin, na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS, em Paris), a brasileira Izabel Petraglia conviveu com o filósofo francês por três décadas. Diretora e cofundadora do Centro de Estudos e Pesquisas Edgar Morin no Brasil, ela contou ao Correio que o filósofo foi "amigo, mestre de uma vida toda e presidente de honra da instituição". "Morin deixou um legado incomensurável para as diversas áreas do conhecimento. Um dos maiores filósofos da atualidade, atravessou os séculos 20 e 21 formando gerações comprometidas com a importância da reforma do pensamento para o estabelecimento de uma política de civilização para o planeta", explicou.
"Autor de uma epistemologia da complexidade, seu pensamento busca a relação dos diversos saberes. Ao longo de seus quase 105 anos, que completaria em 8 de julho, Morin escreveu quase uma centena de livros e manifestou-se sobre todos os assuntos: a antropologia, a guerra, conflitos geopolíticos", disse Petraglia. Ela lembrou que Morin participou de pesquisas empíricas em sociologia e participou do Partido Comunista por 10 anos, como membro voluntário da Resistência Francesa. "Ele viveu na clandestinidade e mudou de nome, de Naoum para Morin, por conta da perseguição nazista. Do partido político, ele foi para a sociologia do cinema e escreveu sobre a cultura de massas no século 20, sobre as estrelas de cinema de Hollywood e fez um filme — Crônicas de um verão — premiado em Cannes. Um gênio, em tudo o que fez. Autodidata, estudou direito e geografia, mas também biologia, física e filosofia", disse.
Em entrevista ao Correio, o mexicano José Gustavo Casas Álvarez — doutor em antropologia social e diretor acadêmico da Multiversidad Mundo Real Edgar Morin — explicou que o maior legado do filósofo francês estará em um lugar "profundamente afetivo". "No que diz respeito ao seu trabalho sociológico e filosófico, com os volumes de O método ele estabelece as bases para o Pensamento Complexo. Por meio dele, confronta a comunidade científica e acadêmica, ao questionar as consequências da instrumentalização acrítica do conhecimento científico e suas derivações tecnológicas para o propósito urgente de reprodução do capital, apesar das evidências das consequências adversas disso", explicou. "Da mesma forma, estabelece fundamentos e desafios para a continuidade de uma compreensão científica e humanística da nossa trajetória entre os séculos 20 e 21, mas com estruturas criticamente fundamentadas, intelectualmente concretas e necessárias: ciência com consciência, sete saberes para a educação do futuro, pensamento, entre outros."
Petraglia também ressaltou que, nos seis volumes de O método, Morin refletiu sobre a natureza, a vida, o conhecimento, a cultura, a humanidade e a ética. "A partir dos anos 2000, dedicou-se à comunicação, entendendo-a como uma brecha de transformação da humanidade, um oásis de resistência e metamorfose. Ele preferia a palavra 'metamorfose' à 'transformação', por entender que a metamorfose é mais essencial de um pensamento redutor em direção a um pensamento completo. Fruto de sua epistemologia, o pensamento complexo acolhe as incertezas e as contradições da vida e da ciência, promovendo uma racionalidade aberta." A brasileira entende que Morin foi um ser "prosaico" e "proético". "Ele amava a música, a poesia, a literatura, um bom vinho e as alegrias da vida. Amava o Brasil", assegurou.
Segundo Casas, os intelectuais de todo mundo têm a missão de apreciar o impacto da obra de Morin. "O seu reconhecimento na Europa é evidente, por meio da Unesco, do Ministério da Educação da França, de editoras e da imprensa escrita. Nas Américas, ainda precisamos avaliar seu impacto; contudo, posso atestar como sua obra passou de ser inicialmente recebida com ceticismo e desprezo a ser considerada e reavaliada", observou. O estudioso citou que, em 2023, uma Universidade Popular foi criada com seu nome, na França; no México, a Multiversidade Edgar Morin do Mundo Real existe desde 2004; no Brasil, há instituições em diversos níveis dedicadas a ele; e na Bolívia, Equador, Peru, Guatemala, Colômbia, Argentina e Chile, educadores e acadêmicos formaram-se em sua obra intelectual. "Sei que existem centenas de seguidores profundamente comprometidos em revisitar sua trajetória e seus livros, e em lhes dar novos rumos, um diálogo vital e um espírito de debate, mesmo correndo o risco de destruir o que ele propôs, assim como ele sugeriu para o conhecimento que vale a pena explorar e abraçar", concluiu.
Em 2013, o cearense Jhoalerson Dias participou de uma aula magna com Morin sobre a transdisciplinaridade, na escola do Serviço Social do Comércio (Sesc), na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. "Foi em um auditório. Ele ministrou a aula em francês, com tradução simultânea. Morin ficou hospedado por umas duas semanas na escola. A gente saía dos dormitórios, onde morávamos, e o víamos andando de bicicleta", lembra o repórter multimídia, com carinho. "Como eu estava no ensino médio, eu não tinha noção do tamanho do Edgar Morin. Mais tarde, na faculdade, onde estudei audiovisual e comunicação, entendi mais quem ele era e passei a dar mais valor na experiência do passado." Jhoalerson passou três anos na escola da Sesc e recorda que Morin esteve duas vezes no local, durante esse período.

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