Defesa

Drones mudaram para sempre a dinâmica das guerras

Com tecnologias cada vez mais sofisticadas, drones ampliam as baixas inimigas e evidenciam o conflito assimétrico ao destruírem equipamentos militares multimilionários, como caças e cargueiros. Especialistas avaliam o impacto no front

Cena 1: Ucrânia. Ferido, o soldado russo caminha, sozinho, pela linha de frente. O drone se aproxima por trás, silenciosamente. Quando o militar percebe, é atingido por um disparo e morre. Em outra situação, ao ser surpreendido pelo aparelho letal, o combatente se antecipa e abrevia a própria vida com um tiro. Cena 2: Rússia. A grande velocidade, uma aeronave não tripulada, carregada de explosivos, mergulha contra um prédio residencial de Moscou. Cena 3: Irã. Um enxame de drones suicidas Shahed mergulha em direção a bases dos Estados Unidos no Oriente Médio, destruindo aeronaves, hangares e alojamentos de militares. As guerras ganharam um novo inimigo — sem rosto, barato, letal e eficiente.  

De acordo com o jornalista britânico David Hambling, autor de Swarm troopers, how small drones will conquer the world (Tropas de enxame: como pequenos drones conquistarão o mundo), o uso de drones na Urcrânia tem suplantado progressivamente o de outras armas. "Cerca de 80% das baixas são causadas por esses aparelhos. Em outras palavras, eles provocam quatro vezes mais danos do que todas as outras armas juntas", afirmou ao Correio. Ele lembrou que, no geral, os drones são sistemas pequenos e de baixo custo, que se mostram muito mais eficazes do que sistemas tradicionais, como tanques, artilharia e aviões de caça. 

Iryna Rybakova/AFP - Soldado do mesmo batalhão prepara a decolagem de aparelho

Hambling explicou que os tipos de drones usados nos fronts incluem quadricópteros para reconhecimento de terreno e lançamento de granadas; drones de corridas FPVs transformados em mísseis guiados; e armas de alcance — como Hornet, Darts, Molniya  —, que se assemelham a pequenas aeronaves a hélice, com alcance de 100km ou mais. "Esses equipamentos transformaram o campo de batalha e criaram uma 'zona cinzenta', na qual nada pode se mover sem ser detectado e atacado por drones. Tanques blindados são destruídos muito antes mesmo de atingirem as linhas inimigas", comentou. "No topo, temos drones como o (iraniano) Shahed, uma aeronave triangular, com dois metros de envergadura, que carrega ogiva de 50 a 10kg por mais de mil quilômetros. A Rússia lança mais de 5 mil por mês." 

Irib/AFP - Imagem de vídeo exibe drone lançado contra alvos americanos na base de Al-Kharj, na Arábia Saudita

Gil Barndollar, pesquisador não residente da Defense Priorities Foundation (Fundação Prioridades da Defesa), em Washington, alerta que é preciso cautela ao proclamar uma espécie de "revolução dos drones". "Esses aparelhos tornaram-se uma arma de combate muito importante, mas até que uma autonomia verdadeira seja alcançada, os drones continuarão sendo parte significativa do quebra-cabeça maior das armas combinadas", afirmou ao Correio. Ele cita o baixo custo como o diferencial. "Os drones fornecem uma força aérea acessível, algo que não existia." 

Ainda segundo Barndollar, as aeronaves não tripuladas minimizam baixas humanas no lado de quem as utiliza. "Um exemplo é a Ucrânia. Mas, os drones não são um meio eficiente para matar — é preciso uma equipe de três a quatro homens para posicionar um drone sobre o alvo. Esses homens costumam ficar um pouco mais atrás e mais seguros do que os soldados de infantaria, mas ainda correm muito perigo."

X/Reprodução - Soldado russo é detectado por drone e morto, na linha de frente, na Ucrânia: cenas rotineiras

Assimetria

Hambling afirmou que um caça a jato pode custar US$ 100 milhões ou mais. Em contrapartida, os drones são, essencialmente, um smartphone com asas, utilizando a mesma câmera, processador, sistema de navegação e comunicação. "Existe uma enorme assimetria de custos. Embora possa ser necessário usar 10 ou mais drones de US$ 500 para destruir um tanque de US$ 10 milhões", a balança ainda pende muito para o lado dos drones", disse.

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