América do Sul

Professores e alunos de universidades ampliam pressão sobre Milei

Mais de 1,5 milhão de argentinos, segundo organizadores, saem às ruas de Buenos Aires e das principais cidades para exigir o fim do sucateamento da universidade pública e dos cortes orçamentários. Governo denuncia ato político da oposição

Em mais um ato de pressão contra a política implementada pelo presidente Javier Milei, professores universitários, estudantes e sindicalistas tomaram as principais ruas do coração de Buenos Aires para denunciar o sucateamento da universidade pública na Argentina e os cortes orçamentários. Os protestos estenderam-se para outras partes do país e mobilizaram, segundo organizadores, cerca de 1,5 milhão de pessoas. O governo de Milei acusou um "ato da oposição" e um movimento "completamente político". A marcha coincide com um escândalo de corrupção envolvendo Manuel Adorni — chefe de gabinete de Milei, ele é acusado de enriquecimento ilícito. Na segunda-feira (11/5), o Executivo publicou mudanças no orçamento, com cortes nos setores da educação e da saúde, em nome da austeridade fiscal. Ao fim da manifestação de ontem, foi lido um documento com um pedido para que a Corte Suprema intervenha e "não permita que o governo siga descumprindo com a Lei de Financiamento Universitário". 

A psicóloga Ileana Celotto, subsecretária da Associação dos Grêmios Docentes da Universidad de Buenos Aires (UBA) e uma das principais organizadoras da marcha, afirmou ao Correio que a principal demanda dos protestos de ontem foi exigir que o Milei faça valer a Lei de Financiamento Universitário. "O texto foi votado e ratificado cinco vezes pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Além disso, houve duas decisões da Justiça que obrigam sua aplicação. Há 201 dias o governo não aplica essa lei", explicou.

Ela acusou Milei de levar a um "esvaziamento brutal" da universidade pública. "O orçamento previsto pelo governo modifica muito as possibilidades de funcionamento da instituição de ensino superior pública. No caso da UBA, temos um instituto especializado no tratamento de pacientes com câncer. Dos 18 centros cirúrgicos, apenas seis ou sete estão funcionado. O restante está desativado, pois é necessário um orçamento para fazer os repartos, e esse dinheiro não existe", acrescentou a subsecretária. 

Ainda segundo Celotto, mais de 10 mil professores e funcionários de universidades públicas pediram demissão durante o governo atual. "No caso do Nacional Buenos Aires, um colégio pré-universitário da UBA, 130 docentes se demitiram. Em outro colégio similar, o Carlos Pellegrini, foram 93", relatou. A organizadora da marcha entende que a aplicação da Lei de Financiamento Universitário implicaria um aumento de mais de 50% nos salários dos professores e nas bolsas estudantis. 

Bahía Blanca, a 650km de Buenos Aires, foi uma das cidades que participaram do movimento de protestos por todo o país. Coordenador da marcha local, o professor e dirigente sindical Juan Cappa —  secretário adjunto da Associação de Docentes da Universidad Nacional del Sur  —  disse ao Correio que eram esperados mais de um milhão de manifestantes em todo o país. "Desde a ascensão de Milei ao poder, os salários dos professores e funcionários da universidades caíram cerca de 40%, enquanto as bolsas estudantis despencaram 75% em valor e 50% na quantidade. Estamos saindo às ruas, também, contra os cortes orçamentários nas áreas da ciência e da educação", explicou. 

Demandas

A expectativa de Cappa era de que a manifestação de ontem canalizaria outro conjunto de demandas acumuladas da classe trabalhadora ao governo de Milei. "Haverá protestos contra a falha do governo em implementar a lei emergencial para pessoas com deficiência, por reivindicações pelo aumento de aposentadorias e pela defesa do sistema de saúde. Também atos contra as políticas de Milei que atacam o meio ambiente, corroem os direitos trabalhistas e implementam políticas recessivas que levaram ao fechamento de mais de 20 mil empresas no último período", enumerou Cappa. "Somam-se a isso inúmeros casos de corrupção dentro do governo. Por todos esses motivos, a marcha universitária será um canal de expressão contra o governo Milei e uma reivindicação por melhorias para toda a população."

Líder do movimento Polo Obrero e responsável pela organização de piquetes em Buenos Aires, Eduardo Belliboni, 67 anos, falou ao Correio durante a marcha, na capital. De acordo com ele, os manifestantes tomavam mais de 15 quarteirões da Avenida Mayo, do Congresso até a Casa Rosada. A via é uma das mais largas da Argentina. "Uma enorme multidão de trabalhadores do setor de educação no protesto. O governo reprimiu a manifestação de aposentados. Mas, quando centenas de milhares de pessoas saem às ruas, o governo se guarda e não tem possibilidade de reprimir um protesto assim", disse.

EU ACHO...

Arquivo pessoal - Ileana Celotto, subsecretária da Associação dos Grêmios Docentes da Universidad de Buenos Aires (UBA) e organizadora da marcha

"A universidade pública na Argentina está deteriorando. Sem bolsas, os estudantes abandonam o curso. Há um índice elevado de evasão nas instituições de ensino superior. Defendemos a universidade para que qualquer filho de uma família trabalhadora possa entrar e estudar. Mas a situação dessas famílias é muito ruim. A universidade está em sucateamento por falta de orçamento."

Ileana Celotto, subsecretária da Associação dos Grêmios Docentes da Universidad de Buenos Aires (UBA) e organizadora da marcha

Arquivo pessoal - Eduardo Belliboni, líder do movimento Polo Obrero e responsável pela organização de piquetes em Buenos Aires

"O governo de Javier Milei destrata a universidade pública, assim como a saúde pública e tudo aquilo que seja para ajudar os trabalhadores e os que menos têm. O governo é inimigo do povo e dos trabalhadores. Temos que fazer com que seu mandato dure o menor tempo possíveol. Por isso, temos como palavra de ordem 'Fuera, mi rey!' (Fora, Milei)."

Eduardo Belliboni, líder do movimento Polo Obrero e responsável pela organização de piquetes em Buenos Aires

Trump promete libertar presos venezuelanos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que "todos" os presos políticos venezuelanos serão libertados e voltou a elogiar o "grande trabalho" da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. "Vamos tirar todos eles" das prisões, declarou o republicano à imprensa antes de embarcar para a China. O governo de Delcy Rodríguez assegura que a recente lei de anistia beneficiou mais de 8 mil pessoas, número questionado por familiares e organizações de defesa dos direitos humanos. "Delcy está fazendo um grande trabalho", assegurou o republicano, que ordenou a captura e a saída do país do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, em janeiro.

"O povo da Venezuela está contente com o que aconteceu. Não podem nem acreditar. Estão dançando nas ruas", afirmou Trump. Em entrevista recente, o presidente americano tinha voltado a lançar a ideia de que a Venezuela se tornasse o 51º estado da União, uma sugestão que causou irritação no governo venezuelano, disposto a manter o poder. "Temos a Exxon, temos a Chevron, temos todas as grandes companhias (de petróleo) no país, e a Venezuela agora está ganhando mais dinheiro do que ganhou nos últimos 25 anos", acrescentou Trump.

A saída de Maduro provocou uma enxurrada de mudanças políticas e econômicas na Venezuela, graças, em boa parte, à suspensão das sanções ao seu petróleo por parte do Departamento do Tesouro americano. A liberação econômica na Venezuela deve se seguir, segundo os planos Washington, de uma transição política que resulte em eleições livres e transparentes.

Caracas mostra-se ambivalente sobre os próximos passos políticos do regime chavista, no poder há 25 anos. A anistia devia ser uma passagem significativa nesta transição vigiada por Washington, mas foi afetada pela lentidão em soltar os presos e pela quantidade real de libertados. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos advertiu, na semana passada, que o número de pessoas em liberdade plena chega a 186, enquanto outras 554 deixaram a prisão, mas sob medidas cautelares. 

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