Uma invenção total da mídia iraniana. Foi dessa maneira que a Casa Branca classificou o rascunho do acordo de cessar-fogo publicado pela imprensa de Teerã. "Esse relato da mídia controlada pelo Irã não é verdadeiro, e o memorando de entendimento que eles 'divulgaram' é uma completa invenção. Ninguém deve acreditar no que a mídia estatal iraniana está divulgando. Fatos importam", reagiu a Presidência dos Estados Unidos no perfil intitulado Rapid Response 47 na rede social X — uma conta de resposta rápida mantida pela Casa Branca para desmentir fake news. O suposto esboço do acordo prevê o restabelecimento da navegação comercial no Estreito de Ormuz, dentro de 30 dias, nos mesmos níveis anteriores à guerra. Em contrapartida, os Estados Unidos encerrariam o bloqueio naval e retirariam da região as suas forças bélicas, incluindo porta-aviões e navios. O presidente Donald Trump limitou-se a externar sua insatisfação com o acordo e acusou o Irã de protelar o pacto de cessar-fogo.
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"O Irã está empenhado, querem muito chegar a um acordo. Até agora, não conseguimos. Ainda não estamos satisfeitos com isso, mas estaremos. (...) Ou isso, ou simplesmente teremos que terminar o trabalho", disse o republicano, durante reunião com o gabinete. "Eles pensaram que iam me fazer esperar, sabe, 'vamos aguentar firme, ele tem as eleições de meio de mandato'. Não me importam as eleições de meio de mandato", acrescentou.
Marco Rubio, secretário de Estado americano, participou da reunião de gabinete e admitiu "certos avanços" nas negociações com o Irã. No entanto, evitou dar detalhes. "Veremos nas próximas horas e dias se é possível avançar", afirmou o chefe da diplomacia de Washington. Sem responder diretamente à mídia iraniana sobre o suposto rascunho do acordo, Trump prometeu que "ninguém", incluindo o Irã, controlará o Estreito de Ormuz. O republicano rejeitou as informações de que Teerã e o sultanato de Omã poderiam estabelecer um sistema de pedágio para o tráfego marítimo.
Mais uma vez, Trump garantiu que o regime iraniano não é mais o mesmo. "Não tínhamos a intenção de promover uma mudança de regime, mas… estamos lidando com um grupo de pessoas completamente diferente daquele com quem estávamos no início", declarou. "Na verdade, acho que eles são mais inteligentes. Um regime caiu, outro regime caiu, e estamos lidando com o terceiro." Apesar da retórica de Trump, a Guarda Revolucionária Islâmica parece manter sua influência nos processos decisórios do Irã.
Vice-chefe político da Marinha da Guarda Revolucionária, Mohamad Akbarzadeh avaliou que "a possibilidade de guerra é baixa devido à fragilidade do inimigo". Ele alertou que "as Forças Armadas estão em alerta, com os carregadores cheios". "Não duvidem de que transformaremos a área de Chabahar até Mahshahr em um cemitério para os agressores", acrescentou, ao mencionar cidades em cada extremo da vasta costa sul do Irã.
Para Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, o Irã tenta utilizar uma estratégia de comunicação com o objetivo de mostrar capacidade de negociação com os Estados Unidos. "Washington tem feito concessões. Desde terça-feira, com os ataques americanos ao sul do Irã, acho pouco provável que Trump aceite alguns pontos, como a restauração do Estreito de Ormuz e a retirada de tropas do Golfo Pérsico", disse ao Correio.
A especialista acredita que ambos os lados tentarão ganhar tempo para melhorar as margens de negociação. "A situação voltou ao nível de indecisão e incerteza de outro momento. Trump quer mostrar aos países do Golfo a capacidade de manter o controle americano na região. Também busca preservar a tensão em nível alto e deixar o canal de negociação em aberto", comentou Holzhacker. "O objetivo é seguir estrangulando o regime iraniano."
Por sua vez, Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vê a questão do programa nuclear como central. "Enquanto o Irã não destruir o urânio enriquecido ou não transferir esse material para outro país, as negociações ficarão travadas. As opções de Trump ficam cada vez mais reduzidas", explicou à reportagem. "À medida que o Irã não cede no ponto principal, não há possibilidade de o processo caminhar. A declaração de Trump de que não se importa com as eleições de meio de mandato, mas com a destruição das capacidades nucleares iranianas, dá uma sinalização disso".
Líbano
No outro front, Israel realizou mais de 120 bombardeios ao sul do Líbano somente nesta terça-feira. O Exército israelense advertiu que tratará como "zona de combate" toda a área do território libanês ao sul do Rio Zahrani — uma faixa de que se estende por 40 quilômetros a partir da fronteira entre os dois países. Porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF) em árabe, o coronel Avichay Adraee enviou uma mensagem pelas redes sociais em que pediu a todos os moradores que se retirassem para a margem norte do Zahrani. A medida incluiria 300 cidades e vilarejos. Desde o início da guerra, os bombardeios israelenses mataram 3.213 libaneses, de acordo com o Ministério da Saúde do país.
