Oriente Médio

Evitam a guerra, relutam na paz

Estados Unidos e Irã trocam escaramuças e ameaças, enquanto prosseguem as negociações truncadas para um acordo que encerre o conflito. Passados quase dois meses desde os primeiros ataques americanos, analistas avaliam os riscos e oportunidades de cada um no impasse

Iraniano agita a bandeira da República Islâmica em praça de Teerã, diante de outdoor que ironiza o presidente norte-americano -  (crédito: Atta Kenare/AFP)
Iraniano agita a bandeira da República Islâmica em praça de Teerã, diante de outdoor que ironiza o presidente norte-americano - (crédito: Atta Kenare/AFP)

As notícias de uma saraivada de bombardeios contra bases de mísseis e lanchas rápidas na região de Bandar Abbas, no litoral sul do Irã, chegou a alimentar receios de que o cessar-fogo em vigor desde 8 de abril pudesse descarrilar, na ausência de progresso palpável nas negociações para uma paz definitiva. O Comando Central (CentCom) dos Estados Unidos, responsável pelas operações militares no Oriente Médio, justificou a ação como medida de "autodefesa". A Guarda Revolucionária iraniana apontou uma "violação grosseira" da trégua e invocou o "direito de resposta" aos ataques. Paralelamente, no entanto, negociadores de Teerã seguiam discutindo os termos de um acordo, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sustentou que as partes se debruçam "na redação final".

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"O exército terrorista dos EUA, que continua suas ações ilegais e injustificadas desde o cessar-fogo, cometeu uma grave violação (do acordo) nas últimas 48 horas", diz um comunicado do Ministério das Relações Exteriores de Teerã. "A República Islâmica", prossegue o texto, "não deixará nenhum ato hostil sem resposta e não hesitará em se defender". O porta-voz do CentCom, o capitão Tim Hawkins, alegou que as forças dos EUA fizeram "ações de autodefesa" e "continuarão a proteger nossas tropas, com moderação, durante o cessar-fogo".

Nenhuma das partes, porém, sequer mencionou a possibilidade de considerar vencida a trégua e retomar os combates iniciados em 28 de fevereiro, com bombardeios maciços dos EUA e de Israel contra alvos no Irã. Pelo lado norte-americano, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou, durante visita à Índia, que um acordo segue possível. Mencionou negociações "sobre a redação específica do documento", e ponderou que "isso levará alguns dias". Embora venha insistindo na necessidade de mais tempo para que se ajustem os termos, o governo iraniano enviou diplomatas ao Catar para trocar informações e impressões sobre a continuidade do processo. 

Paz em risco

Passado um mês e meio de um cessar-fogo que se mantém, a despeito de incidentes pontuais, analistas veem riscos no caminho para uma paz duradoura no prolongamento das conversações e na repetição das escaramuças. "Ambas as partes parecem preferir, no fim das contas, o fim das hostilidades", diz Mona Yacoubian, diretora do programa para Oriente Médio no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), baseado em Washington. "Mas a lógica de curto prazo, marcada por ataques e retaliações, poderia facilmente superar os esforços diplomáticos." Mark Cancian, também do CSIS, acredita que a resposta escolhida por Teerã determinará os rumos do conflito: "Eles podem fazer declarações raivosas e continuar negociando, como podem, também, suspender o diálogo".

O professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, aponta como principal obstáculo, da perspectiva dos EUA, a dificuldade de obter um acordo satisfatório — em particular, para sua promessa de garantir que o Irã não possa obter armas nucleares. "Trump retirou os EUA de um arranjo que era considerado razoavelmente bom, principalmente quanto ao programa nuclear", disse ao Correio, em menção ao acerto fechado em 2015 com Barack Obama, e rompido pelo atual presidente no primeiro mandato, em 2018. Da perspectiva de Teerã, as razões para o impasse à mesa são simétricas e opostas, segundo o estudioso. "Sabendo da situação de Trump, eles estão esticando a corda. Primeiro, para prejudicá-lo nas eleições legislativas de novembro. E, por mais que estejam ganhando a guerra, precisam ter uma carta na mão, até para negociações futuras."

É no interesse de longo prazo da China, que se movimenta discretamente nos bastidores das negociações, principalmente apoiada no aliado Paquistão e nas relações estreitas que cultiva com Irã e Estados Unidos, que Rudzit aposta para um empurrão definitivo na direção da paz. "Acho difícil uma retomada da guerra, porque Trump não tem apoio interno para isso, teria pela frente repercussões muito negativas, no Congresso e até mesmo entre os republicanos", pondera. "Mas no momento em que a crise do Estreito de Ormuz estiver próxima de levar a economia global a uma recessão profundíssima, Pequim vai forçar Teerã a chegar a um acordo." 

 

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postado em 27/05/2026 05:50
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