
Vencidas as 72 horas depois do duplo terremoto — de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter — que devastou parte da Região Metropolitana de Caracas, as chances de encontrar sobreviventes reduziram-se consideravelmente. Familiares e amigos de vítimas denunciam a lentidão do resgate e a falta de máquinas pesadas para a remoção dos escombros. Os trabalhos dos socorristas também precisam ser suspensos por alguns minutos a cada réplica — até sexta-feira (26/6), mais de 300 tremores secundários tinham sido registrados na Venezuela. Nas redes sociais, multiplicam-se as súplicas por informações sobre desaparecidos, os quais a ONU estima chegarem a 50 mil.
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Em meio ao caos e ao desespero, o salvamento de um recém-nascido acendeu uma chama de esperança e foi considerado um milagre. Até o fechamento desta edição, o número de mortos no pior tremor a afetar a Venezuela em 100 anos chegava a 1.430, entre eles, dois brasileiros. Os prejuízos podem chegar a US$ 6,7 bilhões (R$ 34,6 bilhões), o equivalente a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) do país petrolífero afetado por grave crise econômica.
Equipes de resgate de México, El Salvador, Brasil, Estados Unidos e França desembarcaram em Caracas. Um quarto avião da Força Aérea Brasileira (FAB) deve decolar, hoje, de Guarulhos (SP) com 35 bombeiros de São Paulo e de Minas Gerais.
Em Caracas, os dramas humanos se multiplicam. Luisana Andrea Uzcátegui, presidente da organização de futebol Proyección Venezuela e treinadora, contou ao Correio que ainda tem esperança de que as equipes de resgate salvem o jogador e atleta Lucas Gámez, de apenas oito anos.
"A ajuda chegou ao Edifício Miramar, na cidade de Caraballeda, no estado de Guaira, 36 horas depois que o prédio de 10 andares desabou. Lucas está sepultado com mais de 20 pessoas. Cada minuto que passa tem sido um verdadeiro calvário para nós. Os gritos de Lucas se apagam e voltam, como se fossem um sopro de esperança. Toda a nação tem buscado manter a fé Precisamos resgatar o Lucas", desabafou a técnica de futebol. Desde a última quarta-feira, Marco Gámez e Bianca Martínez, pais de Lucas, fazem uma vigília diante da pilha de concreto, dia e noite, à espera do filho.
Sem ferramentas
Segundo Luisana, milhares de pessoas seguem enterradas nos escombros. "Ninguém imagina a real magnitude do que aconteceu aqui. Mais de 100 prédios colapsaram com moradores dentro. Necessitamos que chegue cada vez mais ajuda. Essa crise não acabará nos próximos três dias. Há milhares de mortos e milhares de pessoas sob os escombros. Não há ferramentas que nos permitam retirar nossos familiares dali", lamentou.
Moradora em Houston (Texas), a venezuelana Valentina Flores vive a angústia de não poder retirar os corpos da mãe, Xiomara, e do irmão Jesús. "No dia do terremoto, o prédio onde minha família vivia desabou. Meu pai e meu irmão Diego foram resgatados depois de oito horas. Há muitos escombros sobre eles. A remoção dos corpos não foi possível, porque não existe maquinário pesado suficiente", explicou ao Correio. "Todas as famílias do prédio estão na mesma situação." Ela disse que, quando a terra tremeu e o edifício colapsou, os quatro se abraçaram. "Minha mãe morreu esmagada, meu irmão sofreu um ferimento na cabeça e ficou agonizando. Meu pai e meu irmão os viram falecer." Ela considerou a situação catastrófica e afirmou que os vizinhos têm usado as próprias mãos para tentar encontrar sobreviventes. "Não há ajuda suficiente. A presença da polícia e dos bombeiros não tem bastado."
"O verdadeiro desastre, o inferno na Terra, encontra-se na costa de La Guaira. Muitos edifícios desabaram. A ajuda não está coordenada nem é tão profissional. Com a chegada das equipes de socorristas dos Estados Unidos e de El Salvador, as coisas começam a acelerar. Estamos na expectativa de uma organização eficiente", disse ao Correio o produtor audiovisual Jeremias Loscher, 44 anos, morador da capital venezuelana. "Além da morte e da destruição, muitas pessoas se perguntam onde viverão." Às 18h04 de quarta-feira pelo horário local (19h04 em Brasília), ele dirigia até uma sorveteria quando foi surpreendido pelo terremoto. Com um iPhone 15 Pro em mãos, registrou o desabamento de prédios.
Em Los Palos Grandes, no município de Chacao, o voluntário Edwin Borges somava esforços para salvar soterrados. "Até agora, conseguimos tirar 26 pessoas com vida", disse ao Correio, por telefone, em meio ao som de perfuradoras. "A esperança é a última que se perde." Com o estado de La Guaira militarizado, milhares de voluntários fazem fila, diante da sala de espetáculos do governo da Venezuela, para pedir autorização de entrada na região mais atingida pela tragédia. "É preciso tirar uma autorização para salvar vidas, imagine só", reclamou o socorrista Carlos Itriago, de 27 anos.
TRÊS PERGUNTAS PARA...
TOM FLETCHER, chefe de ajuda humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU)
Quais os principais desafios enfrentados pela comunidade internacional nos esforços humanitários e de resgate na Venezuela?
O primeiro desafio é brutalmente simples: encontrar e resgatar o maior número de sobreviventes que pudermos, o mais rápido que pudermos. Esta é uma zona de terremoto grande e complexa. Há danos imensos a estradas, aeroportos e edifícios. Socorristas locais corajosos estão na linha de frente, mas logo atrás deles está uma mobilização internacional extraordinária: 52 equipes, incluindo 44 times de busca e resgate de vários países, mais de 2.200 socorristas e 140 cães. A coordenação é imperativa para termos as equipes certas, com o equipamento certo, nos lugares certos. Ao mesmo tempo, precisamos pensar sobre a próxima fase: fornecer comida, água, medicamentos, abrigo e apoio psicossocial a uma população em choque.
O senhor estimou em 50 mil os desaparecidos. Acredita que esse número ainda é credível?
O número continua sendo aterrorizantemente verossímil. Isso não significa que todas as pessoas estejam sob os escombros, mas revela a dimensão do medo e da angústia que as famílias enfrentam neste momento. Temos 1.430 mortos e mais de 3.360 feridos. Esses números mudarão, e nossa tarefa é manter o total de mortos o mais baixo possível, dentro do que é humanamente viável. Cada minuto conta. As equipes de busca e de resgate conseguem ouvir vozes sob os escombros. Precisamos manter o foco absoluto em salvar vidas e dar resposta às famílias.
De que modo a ONU coordena ajuda aos desabrigados?
Estamos trabalhando em estreita coordenação com as autoridades nacionais, por meio do nosso Coordenador Residente e Humanitário da ONU e da equipe no país. Dezoito especialistas em emergências — incluindo profissionais da minha agência, o OCHA — foram mobilizados para apoiar a coordenação humanitária em campo, bem como a gestão de informações, a logística, as comunicações e a coordenação de busca e salvamento. Nossos parceiros de ONGs e do setor privado estão atuando conosco, ampliando rapidamente suas operações para oferecer apoio direto onde a necessidade é mais urgente: abrigo, água, alimentos, medicamentos e proteção. (RC)
Milagre emociona o país traumatizado
Aconteceu na noite de quinta-feira (25/6), 32 horas depois do duplo terremoto que devastou Caracas e região. Quando Juan David Trujillo Patiño, de apenas 18 dias, foi retirado dos escombros e ganhou os braços do pai, Gerson Trujillo, os socorristas perceberam que estavam diante de um milagre. Com o filho nos braços, Gerson não segurou as lágrimas e ergueu o rosto para o céu. A cena, em meio aos destroços do Edifício Vista Mar, na Urbanización Playa Grande, no estado de La Guaira, foi registrada em vídeo por Merly Andreina Quintero, amiga da família do recém-nascido.
Em entrevista ao Correio, ela contou que, na manhã de quinta-feira, começou a circular a informação de que Diana Patiño e seu bebê, de 18 dias, estavam sob os escombros. "Voluntários e os irmãos de Diana iniciaram o processo de extração dos destroços, com paus, e a ajuda da Defesa Civil e dos bombeiros. Por volta das 23 horas, conseguiram resgatar o recém-nascido. Duas horas depois, salvaram a mãe da criança", disse.
Diana relatou a Andreina que estava no oitavo andar do prédio, quando foi empurrada pela força do terremoto para a sacada e caiu na piscina. "Ela caiu em cima de um móvel, que serviu de suporte para ela e para o bebê. Diana trazia uma Bíblia junto ao peito. Quase toda a casa caiu por cima deles, mas criou-se uma espécie de bolsão de ar. Isso foi o que os ajudou a sobreviver', afirmou a amiga da família.
Gerson comandou os esforços de resgate da mulher e do filho, acompanhado dos irmãos. "A mãe de Juan David chegou ao hospital em quadro estável. Agora, estão buscando estabilizar a desidratação do bebê. Durante o resgate, a reação dos socorristas foi muito emotiva, pois eram os irmãos e o marido de Diana, além de colaboradores da igreja que frequentavam."
Para Andreina, o destino de Diana e do filho, Juan David, foi selado por um milagre, assim como outros resgates que têm ocorrido na Venezuela nos últimos quatro dias. "As pessoas aguentam por meio de sua fé", declarou.
Conforto
Em outro resgate, um menino enterrado até o pescoço nos escombros recebeu o conforto dos socorristas, que conversaram o tempo todo com a criança. "Tome água, papai. Está desidratado. Feche os olhos. Dói, papai?", pergunta um socorrista. "Não me dói nada. Por que caiu um helicóptero aqui?", reage o garoto, sem compreender o que tinha acontecido. O homem pergunta se ele quer voar de helicóptero e afirma que a aeronave chegou. A resposta: "Sim, eu quero, mas está tudo destruído". O homem que tenta salvá-lo o convida a ajudar outras pessoas. O vídeo viralizou nas redes sociais. (RC)

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