América Latina

Governo Trump aplica pressão total sobre regime de Cuba

EUA anunciam sanções financeiras contra o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, e familiares do líder revolucionário Raúl Castro. Entidades ligadas ao regime e à economia da ilha socialista também são alvos de retaliações

Primeiro, o bloqueio energético e a proibição a petroleiros de atracarem em Cuba. Depois, uma ordem executiva em que Donald Trump exigia de empresas estrangeiras a ruptura com o conglomerado econômico-militar Gaesa, controlado pela família Castro. Agora, os Estados Unidos impuseram sanções contra lideranças e entidades cubanas ligadas ao regime socialista. O Departamento do Tesouro sancionou o presidente Miguel Díaz-Canel; a sua esposa, Lis Cuesta Peraza; e membros da família do líder histórico revolucionário Raúl Castro: o filho Alejandro Castro Espín e o neto Raúl Alejandro Castro. Manuel Anido Cuesta, filho de Lis Cuesta e enteado de Díaz-Canel, também foi alvo de medidas aplicadas por Washington. Por sua vez, Marco Rubio, secretário de Estado americano, anunciou retaliações a cinco entidades de Cuba: o Ministério das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (Minfar), o Instituto Cubano de Amizade com os Povos (Icap), a Amistur Cuba S.A., os Comitês para a Defesa da Revolução (CDR) e a Mineradora La Victoria S.A. Os anúncios do governo dos Estados Unidos intensificam a pressão sobre o regime socialista e agravam a crise econômica e humanitária na ilha caribenha, que enfrenta um embargo dos EUA há 64 anos. 

"Durante décadas, Cuba tem sido a capital mundial para o terrorismo da esquerda radical. O regime em Havana recrutou, treinou e apoiou movimentos marxistas e terceiro-mundistas em todo o nosso hemisfério e além. Hoje, estamos visando a rede que viabiliza e financia as operações subversivas e radicais de Cuba", declarou Rubio. O chefe da diplomacia de Washington advertiu que qualquer indivíduo que prestar serviço aos agentes sancionados corre o risco de sofrer sanções. "O governo Trump não tolerará mais regimes marxistas radicais em nosso hemisfério que buscam ameaçar a segurança nacional dos EUA e realizar operações de influência para exportar sua 'revolução' venenosa e maligna para o nosso país e para o mundo todo", avisou Rubio. 

Adalberto Roque/AFP - O presidente Miguel Díaz-Canel (E) e o coronel Raúl Guillermo, neto de Raúl Castro, em funeral de 32 soldados cubanos mortos na incursão à Venezuela

Além das sanções econômicas, o governo Trump anunciou, em 20 de maio, o indiciamento formal de Raúl Castro em um caso envolvendo a derrubada de dois aviões de pequeno porte em 1996. Ex-diretor do Instituto de Investigações Cubanas da Universidade Internacional da Flórida, o antropólogo Jorge Duany afirmou ao Correio que as sanções a Miguel Díaz-Canel e a membros de sua família e do clã Castro inserem-se na política de "máxima pressão" da Casa Branca na atual gestão republicana. "As novas sanções restringem viagens internacionais das pessoas afetadas, limitam seu acesso ao sistema financeiro estadunidense e congelam seus ativos sob jurisdição dos EUA", explicou.

Apesar de reconhecer que as medidas terão um efeito simbólico, e que funcionários cubanos e familiares raramente possuem bens nos EUA, Duany as vê como o aumento do isolamento financeiro do regime caribenho e o potencial de dificultar as relações comerciais de Cuba com outras nações. O especialista entende que as novas sanções fazem parte de uma intensa campanha dos Estados Unidos para asfixiar economicamente Havana. "Somadas a outras restrições dirigidas ao aparato militar da ilha, as medidas do Departamento do Tesouro pretendem penalizar a liderança cubana e forçar mudanças políticas e econômicas. Segundo o Departamento de Estado americano, as restrições visam terminar a campanha de décadas de guerra política, ideológica e institucional contra os EUA", acrescentou Duany. Ele disse ser prematuro avaliar os efeitos das sanções aplicadas a lideranças e a organizações do Estado cubano. 

Estudioso sobre Cuba, Paolo Spadoni — professor do Departamento de Ciências Sociais da Augusta University (em Augusta, no estado americano da Geórgia) — considera as novas sanções importantes. "Elas sinalizam quais dirigentes cubanos não serão aceitos pelos Estados Unidos em uma hipotética transição política em Cuba. Em termos práticos, são menos significativas que as impostas ao conglomerado econômico-militar Gaesa", disse à reportagem. Ele lembrou que as medidas aplicadas à Gaesa surtem forte impacto na economia da ilha socialista, com o afastamento de investidores estrangeiros. "Algumas das cadeias hoteleiras que operam em Cuba, como a espanhola Meliá Hotels International e a canadense Blue Diamond, têm sido afetadas por essas sanções."

Colômbia desiste da Constituinte

Depois da derrota no primeiro turno das eleições presidenciais, o governo de Gustavo Petro desistiu de impulsionar uma Assembleia Nacional Constituinte e de promover reformar sociais e na luta contra a corrupção. Petro defendia a edição na Carta Magna como forma de impedir que os congressistas bloqueassem suas propostas de reforma socioeconômica. A oposição suspeitava de uma manobra do presidente esquerdista de tentar modificar a Constituição para buscar a reeleição. 

"A decisão eleitoral refletida nas últimas eleições (...) não permite a convocação da Constituinte", escreveu Petro, o primeiro presidente de esquerda da história do país, na rede social X. Durante as eleições do último domingo, o senador Iván Cepeda, candidato do oficialismo, foi surpreendido pelo ultradireitista Abelardo de la Espriella, que venceu no primeiro turno e disputará a nova rodada eleitoral em 21 de junho. 

"A decisão de Petro está ligada a interesses políticos e, pontualmente, eleitorais. O presidente sempre teve, dentro de suas bandeiras principais, a modificação da Constituição. De acordo com Petro, para instaurar reformas sociais que defende e tenta implementar", explicou ao Correio Andrés Macías Tolosa, professor da Faculdade de Finanças, Governo e Relações Internacionais da Universidad Externado de Colombia. 

Segundo Tolosa, ante os resultados do primeiro turno, a decisão de desistir da Constituinte tornou-se basicamente eleitoral. "Não me parece uma decisão associada a uma mudança ideológica do presidente", observou. "A equipe de campanha de Cepeda, candidato de Petro, aposta em uma posição menos radical, a fim de atrair votos do 'centro'." O especialista colombiano não acredita na necessidade de emendas à Consituição. "Nossa Carta Magna é jovem e tem em enorme potencial. Certamente, foi manchada por manipulação política e pela exploração de certas brechas para beneficiar determinados poderes políticos, mas não precisa ser reformulada. Ela pode ser ajustada por meio de reformas específicas", defendeu Tolosa. (RC)

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