Seja você lulista ou bolsonarista, há uma boa chance de que você tenha imaginado o grupo do lado oposto do espectro político mais radical do que ele realmente é.
Pesquisadores observaram essa distorção ao perguntar a milhares de brasileiros, no auge da eleição de 2022, o que eles imaginavam que seus adversários políticos pensavam.
Naquele momento, os bolsonaristas estimavam que mais de oito em cada dez lulistas (81%) eram a favor de legalizar o aborto no primeiro trimestre de gestação. O número real era bem menor: 46%.
Os lulistas cometiam o mesmo equívoco em relação aos bolsonaristas. Imaginavam que só 27% deles apoiavam cotas para alunos de baixa renda nas universidades, quando o apoio real beirava 80%.
Os números vêm de um estudo sobre polarização política no Brasil publicado nesta sexta-feira (5/6) na revista Nature Communications.
A pesquisa foi liderada por Anna Petherick, da Universidade de Oxford, em parceria com a FGV-Ebape (Rio), e tem como coautores Guilherme Ramos, Rodrigo Furst, Rafael Goldszmidt e Eduardo Andrade.
O levantamento ouviu de 2 mil a 3 mil brasileiros em cinco rodadas, entre abril de 2022 e janeiro de 2023, antes, durante e depois das eleições.
Nas quatro últimas, acompanhou sempre as mesmas pessoas, o que permitiu medir como o sentimento de cada uma mudava ao longo do tempo.
"As pessoas são muito mais precisas ao estimar as opiniões do próprio grupo do que as do outro grupo. E isso faz sentido, porque você provavelmente convive mais com elas, conversa mais com elas", diz Petherick, em entrevista à BBC News Brasil.
"Mas o interessante é que a forma como elas entendem mal o outro grupo é exagerando aquilo de que não gostam, muitas vezes em torno de questões morais."
A polarização afetiva
Esse abismo entre o que um grupo imagina do outro e o que o opositor de fato pensa alimenta o que os pesquisadores chamam de polarização afetiva. Ela mede a antipatia entre quem pensa diferente. O estudo sugere que essa polarização pode ser amenizada com algo simples: a informação.
"A polarização ideológica é sobre o quanto você discorda do que o outro pensa. A afetiva é o abismo no sentimento, no gostar ou não gostar", diz Petherick.
"Se você discorda fortemente de alguém, provavelmente não vai querer jantar uma pizza com essa pessoa, né?"
Desde os anos 1990, na maior parte do mundo, a polarização ideológica ficou mais ou menos no mesmo patamar, segundo os pesquisadores. Ou seja, as pessoas não passaram a discordar muito mais sobre questões-chave. O que cresceu foi a antipatia pelo lado oposto, tendência que preocupa os autores do estudo.
"A antipatia está ligada à intolerância. Fica mais difícil ter um debate fundamentado, chegar a um meio-termo, unir-se para resolver problemas que dependem de toda a sociedade", afirma Petherick.
No cenário mais extremo, o fenômeno aparece associado à violência política, segundo a pesquisadora.
Para medir o quanto as pessoas gostavam ou não umas das outras, o estudo pedia uma nota de 0 a 100 para cada grupo. Em 2022, antes da eleição, a distância era grande. Em média, os entrevistados davam 72 pontos ao próprio grupo e apenas 17 ao rival.
Por que isso acontece, Anna Petherick admite, é "uma pergunta profundamente filosófica". Ela cita estudos de outros países que apontam uma pista cultural.
"Em uma cultura individualista, o sentimento de que o seu grupo tem que estar certo e o outro errado é mais forte do que numa cultura coletivista, em que você se vê como parte do todo."
Para ela, as redes sociais também amplificam o sentimento: "Hoje, qualquer um publica na hora, para o mundo inteiro, sem a pressão de checar. A gente já tende a exagerar quando fala de quem não gosta. Aí outra pessoa lê, acredita e ainda exagera mais quando repassa. As redes não são a única causa, mas não ajudam".
Por que estudar esse fenômeno no Brasil?
Quase tudo o que se sabe sobre polarização afetiva vem dos Estados Unidos, onde os campos políticos são nítidos - com dois partidos dominando as disputas eleitorais. O interesse por estudar o jogo político brasileiro surgiu pela sua complexidade.
"Nos Estados Unidos é simples: tem os democratas e os republicanos. No Brasil, você tem os petistas e os antipetistas, os lulistas e os bolsonaristas, e esses grupos não se encaixam exatamente uns nos outros", diz Petherick.
"Aí tem gente que só se define contra alguma coisa, não a favor de nada. Quem é o seu grupo, se você é só 'anti' alguém? Você não tem um time. Você tem só aquilo que não é."
Muito antes do estudo, Petherick já desconfiava de que o sentimento pesava mais que os fatos na política brasileira.
A intuição surgiu há mais de dez anos, no doutorado, quando pesquisava corrupção no país e percebeu que suas estatísticas não davam conta do que ouvia em campo.
"As pessoas usavam a palavra 'corrupção' para dizer que não gostavam de alguém. Nem sempre tinha a ver com uma prova concreta. Era quase como labaredas de raiva. Era o sentimento empurrando o comportamento político, mais do que os detalhes técnicos", avalia.
Qual é a solução para a polarização?
O coração do estudo é um experimento que funciona como o teste do início desta reportagem.
A partir da segunda rodada, parte dos entrevistados teve que estimar quantos lulistas e bolsonaristas, em cada dez, apoiavam uma política polêmica. Quase sempre erravam, imaginando o outro grupo mais extremo do que ele era.
Em seguida, recebiam os números verdadeiros, tirados da própria pesquisa. Só então avaliavam de novo o grupo adversário.
Quando a pessoa via que a caricatura não batia com a realidade, a rejeição ao outro lado caía. O efeito foi mais forte foi em relação ao aborto. Desmatamento na Amazônia e cotas sociais e raciais também reduziram a rejeição, só que menos.
As pessoas passaram a ver de forma mais positiva o adversário, mas continuaram avaliando o próprio grupo do mesmo jeito. Ninguém precisou abrir mão do que pensava para tolerar mais o outro.
"A ideia não é mexer no que as pessoas acreditam sobre as políticas. É reduzir o quanto elas não gostam umas das outras, para conseguirem conversar sobre o que acreditam de um jeito mais sensato", diz Petherick.
A saída que o estudo sugere é que o brasileiro cheque o que o outro lado pensa, em vez de supor.
Petherick, que já foi jornalista, faz o apelo também a quem trabalha com informação.
"Mesmo quando as pessoas têm certeza do que o outro grupo acredita, elas frequentemente estão muito erradas."
O que mais o estudo mostrou
A pesquisa aproveitou o calendário de 2022 para testar se outros eventos, além da eleição, mexiam com a antipatia política.
A quarta rodada de entrevistas caiu em plena Copa do Mundo. Os pesquisadores a dividiram em oito momentos, aplicados antes e depois de cada jogo do Brasil.
A aposta era que um símbolo de identidade nacional pudesse aproximar os grupos, como já se observou com Olimpíadas em outros países. Porém, não foi o que aconteceu. A vitória ou derrota da seleção no Mundial não mudou nada na rivalidade entre lulistas e bolsonaristas.
A correção de percepção rendeu ainda um efeito que ia além do previsto. Ao descobrir os números reais sobre aborto e desmatamento, os lulistas não só passaram a tolerar mais o outro lado. Eles também recuaram um pouco no próprio apoio a essas pautas. Ou seja, mostrar como o outro lado pensa pode aproximar também as opiniões e levar parte do público para o centro.
O estudo tem limites, que os próprios autores reconhecem. Eles não mediram efeitos de longo prazo, por exemplo. Não dá para saber se a redução da antipatia dura dias, semanas ou se evapora pouco depois.
As eleições de 2026
Petherick aposta que o roteiro das eleições de 2022 se repete neste ano. "Uma eleição apertada entre dois times já estabelecidos e bastante entrincheirados aponta para o mesmo aumento de polarização afetiva de novo."
O que a deixa otimista é o que veio depois do último pleito. A derrota de Jair Bolsonaro (PL) foi seguida de semanas de tensão: apoiadores do ex-presidente bloquearam estradas pelo país e montaram acampamentos em quartéis, e, em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eles invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília.
Mesmo assim, a polarização afetiva caiu nos meses seguintes em ambos os grupos. A última rodada da pesquisa foi a campo cerca de três semanas após os ataques, e registrou a queda.
"Pelo que eu lia no noticiário na época, não achei que fosse acontecer", diz Petherick.
A eleição deste ano caminha para o confronto que Petherick descreve. Lula aparece à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas estimativas de intenção de voto para o primeiro e o segundo turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
Lula ultrapassou Flávio no segundo turno em maio, após a revelação da ligação entre o filho de Jair Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a segunda-feira (01/06), a estimativa de intenção de votos no petista no segundo turno está agora em torno de 46%, enquanto Flávio Bolsonaro tem 41%.
No fim, a pesquisadora insiste que o que decide se uma eleição é saudável ou não é a informação que chega ao eleitor.
"O que mais importa é as pessoas entenderem com clareza quais são as opções e o que cada uma significa para a vida delas. Da forma mais honesta possível, sem serem enganadas pelas redes ou pelos próprios vieses."
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