Durante a homilia pronunciada na basílica, onde o sol filtrado pelos vitrais brilhava entre as colunas, o pontífice também fez um alerta em favor da paz mundial. "Não podemos acreditar em Jesus e promover a guerra. Não podemos acreditar em Jesus e matar o inocente. Não podemos crer em Jesus e abandonar quem sofre, quem chora, quem foge da miséria", disse. Uma crítica velada ao presidente Donald Trump, que voltaria a atacar o Irã poucas horas depois.
Também na homilia, Robert Prevost — nome de batismo de Leão XIV — fez uma alusão à cruz da Torre de Jesus Cristo. "Esta cruz brilha de dia, refletindo a luz do sol, e brilha de noite, iluminando a cidade como um farol aberto ao Mediterrâneo", afirmou. Dentro da Basílica da Sagrada Família e em sua esplanada, cerca de 9 mil espanhóis e turistas participaram da missa e assistiram ao papa aspergir água benta em direção à Torre de Jesus Cristo, concluída em fevereiro e que alcança os 172,5m de altura.
Com a obra finalizada, a Sagrada Família, ainda inacabada, tornou-se a igreja mais alta do mundo. Depois da bênção à Torre de Jesus Cristo, fogos de artifício transformaram o céu ao redor da basílica em uma profusão de luzes e cores. O espetáculo pirotécnico foi seguido por outro show à parte: drones formaram o rosto de Gaudí ao lado de sua obra prima.
Detentos
"Foi algo memorável", disse à agência France-Presse (AFP) Isabel Magallón, administradora de 60 anos. "Queria estar no ato. Duvidei pela massificação e por tudo, mas estou contente", acrescentou. "Por toda a nossa vida, a Sagrada Família esteve em construção e o fato de agora (o papa) vir é como pôr um ponto final", comentou María José Sedano, uma advogada de 30 anos. Pela manhã, Leão XIV visitou a prisão de Brians, a 40km de Barcelona, onde disse aos detentos que "o passado não condena o futuro". O líder católico recebeu presentes e foi abraçado por um dos presos. Mais tarde, chegou de helicóptero à espetacular Abadia de Montserrat, na montanha de mesmo nome.
Para encerrar a viagem à Espanha, o papa visitará as Ilhas Canárias, nesta quinta-feira. Neste arquipélago no Atlântico, situado em frente à África, via de entrada na Europa para migrantes irregulares, o pontífice insistirá em outra mensagem: a acolhida aos imigrantes.
Renzo, o menino de 6 anos que emocionou o papa
Frente a frente, o líder de 1,4 bilhão de católicos e um menino. A inocência da criança e a profundidade das perguntas dirigidas a Leão XIV emocionaram o papa. Por vezes, o semblante de Robert Prevost deixou estampar a surpresa diante das questões que exigiam respostas complexas, e os olhos do pontífice ficaram marejados. Morador de Barcelona, o argentino Renzo Pons Mendoza, de seis anos, escreveu uma carta para Leão XIV e teve a oportunidade de ler a mensagem, durante visita de Prevost à Igreja de Santo Agostinho.
"Você gosta de futebol? Queria ser papa desde pequeno? Por que papai e mamãe estão preocupados? Por que meu papai tem tantos trabalhos? Por que há pessoas que enfrentam coisas ruins e outras não? De quem é a culpa? Por que tantas pessoas vivem nas ruas? Ninguém as vê? Ninguém as ajuda? Como podemos ajudar, se o mundo é tão grande? Deus quer que haja pobres e ricos? Por que há tantos avós sozinhos se são tão importantes? É preciso perdoar sempre?", questiona a criança na carta, encerrada com "Um forte abraço, Renzo".
À segunda pergunta, Leão XIV deixou escapar uma confissão, que viralizou nos sites de notícias e nas redes sociais. Ele revelou que jamais sonhou em ser papa. "Nem quando jovem, nem quando velho, nunca pensei. Mas, se o Senhor o chama, deve dizer que 'sim'", explicou. E acrescentou: "Certo, nunca pensei em ser papa, mas em entregar minha vida a Deus". Leão XIV respondeu à dúvida sobre os avós com a lembrança de que são eles que cuidam dos netos quando os pais estão no trabalho. "Com ajuda e com dedicação, auxiliam as crianças a conhecerem o amor a Deus e ao próximo", declarou. E fez um pedido: "Tenhamos nossa coração aberto a todos eles; e ainda que não sejam nossos avós, não permitamos que sintam-se sozinhos nem desprotegidos. Se não queremos a solidão para nós, tampouco devemos permiti-la para os outros".
Fã incondicional do atacante argentino Lionel Messi, Renzo escutou do papa sobre o futebol, à véspera do início da Copa do Mundo. "Com os seminaristas, quando estive em Trujillo (Peru), jogava futebol. Na defesa, se quiser saber; não era um grande artilheiro", brincou Leão XIV. Como o Peru não foi classificado para o Mundial, Prevost confidenciou que torcerá para os Estados Unidos. "O futebol também nos ajuda a lembrar algo muito importante: que a vida não é uma corrida para ser vivida de forma solitária. É algo que se joga em equipe, e é preciso aprender a correr juntos", concluiu.
