Dois dias depois dos maiores terremotos a atingirem a Venezuela em um século, os gritos de socorro ainda ecoavam, na sexta-feira (26/6), sob as pilhas de escombros no estado de La Guaira, a 40km de Caracas. A catástrofe ganhou proporções históricas: Tom Fletcher, chefe de ajuda humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU), estima em 50 mil o número de desaparecidos. "Trata-se de uma operação de resgate extremamente complexa", admitiu. Uma plataforma criada na internet para concentrar informações sobre os abalos de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter que sacudiram o país às 18h04 pelo horário local de quarta-feira (19h04 em Brasília) contabilizava 52 mil desaparecidos.
Socorristas de vários países, acompanhados de cães farejadores e equipamentos, começaram a chegar a Caracas. O Brasil enviou um avião KC-390 com 12t de equipamento, bombeiros, equipes da Defesa Civil e técnicos em telecomunicações. As autoridades decidiram militarizar La Guaira, onde centenas de prédios foram reduzidos a pó. As entradas e saídas da região, afetada por saques, passaram a ser controladas pelas forças de segurança.
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Até às 23h desta sexta-feira (26), o número oficial de mortos era de 920. A presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi hostilizada por moradores ao visitar um bairro de classe alta de Caracas, onde um prédio desabou. "Fora, fora!", gritavam familiares de pessoas presas sob os escombros, segundo uma jornalista da agência France-Presse que estava no local. "Já basta de fazer campanha política em uma tragédia como a que estamos vivendo", gritaram do outro lado da área isolada do edifício, ao mesmo tempo em que acusavam que "o governo não está fazendo nada pelo povo".
Aos poucos, os dramas por trás das perdas humanas e dos desabrigados vão ganhando forma. Ferida no braço esquerdo, no pé e na cabeça, depois de ficar soterrada, Victoria Rodríguez, 22 anos, relatou ao Correio um cenário dantesco. Em Caraballeda, também no estado de La Guaira, Gabriela Ramírez abraçou o filho e os sobrinhos, ao tentarem fugir de casa, naquele fim de tarde de quarta-feira. "Se vamos morrer, que morramos todos juntos", disse-lhes. Assim que a terra começou a sacudir, ela gritou para o filho: "Corra, corra que tudo está tremendo".
Quando alcançaram o portão de estacionamento que dá acesso à rua, houve o outro terremoto, 35 segundos depois. "Caímos no chão, as paredes começaram a desabar. Então, nos levantamos e continuamos a fugir. Meus sobrinhos vieram atrás de nós. Foi quando vimos o prédio da esquina cair. Uma onda de poeira envolveu nossa família", contou ao Correio. No início da tarde desta sexta-feira, Gabriela foi informada por socorristas que os cães farejadores encontraram o corpo de outro sobrinho. Javier Rodríguez Plasencia, 38 anos, era solteiro e trabalhava em sua fábrica de sorvete, na mesma cidade, quando a construção ruiu. O padrasto dele, sócio na empresa, também morreu.
Morador de Los Palos Grandes, no município de Chacao, o engenheiro civil José Andrés Díaz, 33, regressou ontem ao que restou de sua casa. "Fui tirar coisas essenciais, como roupas e comida. Na verdade, não tenho mais onde me abrigar. A coisa foi muito forte. Parte da fachada do meu prédio caiu e o imóvel está à espera de uma revisão estrutural para saber se pode ser habitado ou não", relatou ao Correio. Ele disse não ter condições de ajudar nos trabalhos de resgate. "Eu não saberia como lidar se encontrasse um ente querido, isso me supera. Então, tento ajudar de outras maneiras. Cada um pode oferecer algo. Precisamos nos apoiar e somar."
Impotência e revolta
Na cidade de La Guaira, a AFP testemunhou uma mãe usando as próprias mãos para escavar os escombros, na tentativa de retirar o filho. "São muitas pedras e, com as mãos, não dá", disse, impotente, Amparo del Giudice, enquanto gritava e chorava, ao denunciar a ausência de equipes de resgate. Na mesma localidade, Marlon Ochoa, sobrevivente do desmoronamento de um prédio, também externava sua angústia. "Estamos revoltados, precisamos de ajuda. Há pessoas vivas. Faltam mãos e ferramentas", denunciou. "Estou procurando minha mãe, minha esposa e meu filho."
Em Lima, a 4,3 mil quilômetros de Caracas, a venezuelana Gigliola Blanco Oropeza, 34 anos, estava desesperada. "Não deixem meus pais sozinhos", implorou à reportagem. O prédio do conjunto habitacional onde Gerardo Blanco e Lourdes Oropeza vivem, em Grande Catia La Mar, também em La Guaira, desabou com o casal dentro. "Meu irmão está lá, sozinho, tentando retirá-los dos escombros. Soube que ele conseguiu salvar o cãozinho de estimação dos meus pais. Por isso, mantenho a fé", desabafou. Ela recebeu uma fotografia com a suposta indicação do local onde eles estariam, sob o imóvel. Gigliova viu-se obrigada a migrar para o Peru em 2018 para tratar o diabetes tipo 1. Na Venezuela, não tinha acesso à insulina. O último contato com a mãe ocorreu às 16h de quarta-feira, duas horas antes da tragédia.
ELES PERDERAM TUDO...
"O estado de La Guaira está totalmente devastado. Os prédios caíram e os que ficaram de pé estão destruídos. Não ficou nada habitável. O que pedimos é que nos ajudem. Sabemos que há gente com vida, pois ainda podemos escutar vozes sob os escombros. Também precisamos de alimentos, de medicamentos e de água potável. É urgente também a ordem. Soube que há saques em Caraballeda."
Gabriela Ramírez, 56 anos, assessora imobiliária, moradora de Caraballeda (em La Guaira)
"A região onde vivo, em Palo Grande (Chacao), foi extremamente afetada, por ser uma das zonas mais sísmicas de Caracas. Minha casa não existe mais. Um prédio de 25 andares desabou por completo. É uma tragédia sem precedentes. Graças a Deus, não perdi nenhum familiar ou conhecido."
José Andrés Díaz, 33 anos, morador de Los Palos Grandes (em Chacao)
"O prédio onde eu moro não é mais habitável. Estamos dormindo nas casas de familiares e nas praças. Meu lar foi totalmente destruído pelo terremoto."
Verónica Pisani, 46 anos, moradora de Los Palos Grandes (em Chacao)
DEPOIMENTO
"Parte da cidade não existe mais"
"Eu e meu marido vivíamos... vivemos em Catia La Mar, no estado de La Guaira. Uma parte da cidade não existe mais. As casas estão completamente destruídas. Não há nada... Não sobrou absolutamente nada. Foi tudo muito horrível. Três edifícios caíram ao mesmo tempo no momento em que saíamos de casa. A nossa residência ficou completamente destruída, foi partida ao meio. Meu marido e eu estávamos perto da porta principal. Houve um blecaute, a casa começou a se mover e saímos correndo. Uma parede desabou sobre nós. Foi um momento horrível. Ficamos presos sob os escombros, mas conseguimos sair sozinhos. Não conseguíamos enxergar nada, havia muita terra. Sentimos desespero por não saber como estava a nossa família, a rua e a situação dos botijões de gás das casas.
A quantidade de mortos e de desaparecidos aqui é impressionante. Nós estamos agora em uma área aberta. Há pessoas gritando e pedindo ajuda, sob os escombros das casas. Nós podemos escutá-los. Eu sofri um trauma no braço esquerdo, arranhões, um corte no pé. Não pude ser atendida no hospital, porque todos estão atendendo emergências muito mais prioritárias do que a minha."
Victoria Ramírez, 22 anos, moradora de Catia La Mar, no estado de La Guaira, a 40km de Caracas
