TRAGÉDIA NA VENEZUELA

Porto vira necrotério improvisado para vítimas de terromotos na Venezuela

Com necrotérios lotados, autoridades usam porto para empilhar caixões, identificar mortos e liberar corpos de vítimas

Seis dias após os fortes terremotos que atingiram a Venezuela, o porto de La Guaira, no litoral próximo a Caracas, passou a concentrar uma das faces mais dramáticas da tragédia. O local, um dos mais importantes do país, foi adaptado para receber os corpos retirados dos escombros diante da incapacidade dos necrotérios da região de absorver o volume de vítimas.

No espaço improvisado, médicos legistas trabalham entre sacos mortuários dispostos no chão e caixões de madeira já ocupados por vítimas. Próximo à tenda onde ocorrem os procedimentos periciais, segundo reportaram jornalistas da Agence-France Presse (AFP), centenas de urnas funerárias aguardam uso, enquanto montes de entulho ainda cercam a área.

Os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5, registrados na quarta-feira (24/6) com poucos segundos de diferença  atingiram principalmente o estado de La Guaira, vizinho a Caracas. O balanço oficial mais recente contabiliza 1.719 mortos, mas o número segue em crescimento.

O coordenador-geral de Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Venezuela, Andreas Spaett, que esteve pela segunda vez na região na sexta-feira (27/6), descreveu, em material cedido ao Correio, o cenário encontrado pelas equipes humanitárias.

"Ao chegar [em La Guaira] a imagem era a de uma zona de guerra. Já vi muitos contextos ao longo da minha carreira em MSF, e mesmo assim esta situação me pareceu impressionante: destruição, deslocamento, famílias que perderam tudo", disse.

Nos primeiros dias após os tremores, hospitais da região receberam simultaneamente feridos e mortos. Com a rápida saturação dos necrotérios, as autoridades passaram a concentrar no porto os trabalhos de identificação das vítimas, emissão de certidões de óbito e liberação dos corpos para sepultamento ou cremação.

Hospitais começam a receber mais mortos do que feridos

Segundo Andreas Spaett, a diminuição da procura por atendimento médico observada nos últimos dias não representa uma melhora da situação, mas uma mudança no perfil das vítimas que chegam às unidades de saúde.

"O Hospital José María Vargas, um dos maiores da cidade, registrava uma grande afluência de pacientes, embora menor que no dia anterior, quando encontramos longas filas de pessoas esperando atendimento. O fato de a demanda ter diminuído é uma boa notícia para o hospital, mas um sinal preocupante em termos gerais: significa que a maioria dos feridos já foi atendida e começam a chegar os mortos."

O coordenador também destacou a pressão enfrentada pelo Hospital Domingo Luciani, referência no atendimento infantil.

"Um dos casos mais impactantes foi no Hospital Domingo Luciani, que atende principalmente crianças. Naquela manhã, deram entrada entre 10 e 15 pacientes por hora. Ao longo do dia, esse número chegou a 40 ou 50 pessoas."

Famílias aguardam para identificar vítimas

Enquanto os trabalhos de resgate continuam, parentes das vítimas permanecem em longas filas no porto de La Guaira para tentar localizar familiares desaparecidos. Muitos chegam carregando flores e aguardam durante horas até serem chamados para o reconhecimento dos corpos.

"Minha família está aí, me disseram que estão aí minha irmã e os filhos dela, e também os filhos do meu irmão, que sobreviveu", contou Wilker Molalla, de 25 anos, à AFP. Das 11 pessoas que moravam na mesma casa, apenas ele e o irmão sobreviveram porque estavam trabalhando no momento dos tremores.

Além da demora, moradores criticam a escassez de pessoal para atender à demanda e afirmam que, em diversos pontos da cidade, as buscas entre os escombros continuam sendo realizadas principalmente pelos próprios moradores.

Reconhecimento dos corpos

As perícias são realizadas em estruturas provisórias instaladas no porto, onde também são emitidas as certidões de óbito. Um caminhão especializado recolhe amostras necessárias para os exames forenses.

Após dois dias de buscas, o cozinheiro Antony Marcano conseguiu encontrar a filha entre as vítimas.

"Eu vim ontem e caminhei por tudo, caminhei por tudo, caminhei por tudo e não encontrei minha filha", expressou Antony Marcano, um cozinheiro de 41 anos, à agência francesa.

"Hoje vim com mais calma e, graças a Deus, a encontrei, a identifiquei", acrescentou. "Reconheci pelo anel que eu dei a ela."

ONU envia bolsas mortuárias

Embora o governo venezuelano não divulgue um número oficial de desaparecidos, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que cerca de 50 mil pessoas ainda não tenham sido localizadas. Para auxiliar na resposta à crise, a entidade anunciou o envio de 10 mil bolsas mortuárias ao país.

Funerárias privadas também passaram a oferecer gratuitamente serviços de transporte e cremação das vítimas. Os veículos permanecem estacionados nas proximidades do porto para atender às famílias.

Entre elas está Darwin Silva, de 37 anos, que levou pessoalmente o corpo da mãe ao local para concluir os procedimentos legais.

"Já foi reconhecida, já me deram a certidão de óbito", afirmou. Segundo ele, a mulher foi encontrada sob uma viga durante a noite, após moradores utilizarem um gerador para iluminar a área.

Conjuntos habitacionais sofreram grandes danos

Os terremotos também provocaram graves danos em conjuntos habitacionais erguidos por programas do governo venezuelano.

Em Hugo Chávez I, na cidade de Catia La Mar, milhares de apartamentos foram evacuados devido ao risco de desabamento.

Terremotos foram sentidos no Brasil

Os terremotos ocorreram na noite de quarta-feira (24/6) e, conforme o governo da Venezuela, foram sucedidos por pelo menos 20 tremores secundários nas horas seguintes. Além do território venezuelano, os abalos puderam ser percebidos em municípios da região Norte do Brasil.

Separados por menos de um minuto, os dois sismos causaram danos severos em Caracas e em outras localidades do país, derrubando prédios, casas e outras construções.

Com informações da AFP.

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