Oriente Médio em convulsão

Cessar-fogo entre EUA e Irã desmorona com espiral de ataques

Estados Unidos voltam a bombardear o Irã, que retalia e lança mísseis contra interesses norte-americanos no Kuwait, Bahrein, Catar e Jordânia. Teerã denuncia crimes de guerra. Escalada coincide com o enterro do guia supremo

Pela terceira noite consecutiva, os Estados Unidos bombardearam o sul do Irã, pouco depois de milhões de iranianos tomarem as ruas de Mashhad para o enterro do aiatolá Ali Khamenei. Teerã reagiu com o lançamento de mísseis contra interesses americanos no Kuwait, no Bahrein e no Catar. A Jordânia, por sua vez, afirmou ter interceptado projéteis disparados em direção à Base Aérea de Muwaffaq Salti, no norte do país. "Se as Forças Armadas dos EUA repetirem a agressão, outras bases americanas na região não serão poupadas de fogo pesado", anunciou a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), espinha dorsal do regime islâmico.

A imprensa de Teerã também noticiou um bombardeio a uma base militar perto de Bushehr (centro-sul), sede da única usina nuclear em funcionamento do Irã, e ataque à cidade de Konarak (sudeste). A conexão ferroviária entre a capital e Mashhad, perto da fronteira com o Turcomenistão, foi interrompida depois de uma ofensiva aérea dos Estados Unidos. Em resposta, o Irã denunciou um "crime de guerra flagrante". 

A escalada é a mais grave desde 17 de junho, quando Washington e Teerã assinaram um memorando de entendimento que ampliava o cessar-fogo e preparava terreno para uma trégua duradoura. Na noite desta quinta-feira (9/7), o presidente americano, Donald Trump, telefonou para o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, para informá-lo sobre os "últimos movimentos" dos EUA no Golfo Pérsico. Mais cedo, Israel Katz, ministro da Defesa de Netanyahu, avisou que seu país está pronto para retomar a campanha militar contra o Irã "pela terceira vez, se necessário". "Se tivermos que fazer isso de novo, faremos, e com ainda mais força", prometeu.

Estreito de Ormuz

A mais recente espiral de ataques foi desencadeada por bombardeios atribuídos ao Irã contra pelo menos três embarcações no Estreito de Ormuz, estratégico corredor marítimo por onde transitam 25% do petróleo produzido no mundo. Badriyeh, dona de casa iraniana de 44 anos, moradora da cidade portuária de Bandar Abbas, relatou à agência France-Presse que o barulho das explosões foi "muito intenso" nas noites de terça e de quarta-feira. "À noite foi pior e as janelas de várias casas foram quebradas", contou.

US Central Command - Imagem divulgada pelo Comando Central dos EUA mostra ataque aéreo no território iraniano

O tráfego no Estreito desacelerou notavelmente desde quarta-feira. Nesta quinta-feira, somente seis petroleiros cruzaram o canal, enquanto, na véspera, 21 fizeram a travessia. "Os operadores esperam para ver como a situação entre os Estados Unidos e o Irã evolui", resumem os analistas da Briefing.com, empresa de projeção do mercado.

Alvos militares

Nos ataques desta quinta-feira, fontes ligadas ao Pentágono informaram que os EUA destruíram cerca de 90 alvos militares iranianos, incluindo sistemas de defesa aérea e depósitos de mísseis e de drones. Por sua vez, o Irã anunciou ter atacado com aeronaves não tripuladas um sistema interceptador de mísseis Patriot no Kuwait, um mecanismo de alerta antecipado no Catar e depósitos de combustível no Bahrein. De acordo com Teerã, as ofensivas inserem-se em uma campanha contra bases dos EUA no Golfo. Um alto funcionário da Defesa de Washington garantiu que as dezenas de mísseis e de drones lançados pelo Irã não provocaram danos ou ferimentos "significativos" ao pessoal americano.

Funeral de Khamenei com pedidos de vingança

"Todo mundo aqui quer vingança", afirmou à agência France-Presse (AFP) um iraniano que, assim como milhares de compatriotas, viajou até Mashhad para o enterro do líder supremo Ali Khamenei em sua cidade natal. Um avião civil escoltado por um caça levou o caixão até o aeroporto da cidade, no nordeste do Irã. Sob um calor sufocante, a multidão o aguardava para a etapa final de um funeral que foi tratado pelas autoridades como uma demonstração de força e de unidade nacional. Muitas mulheres de todas as idades se reuniram ao longo da avenida que leva ao santuário do imã Reza, o local mais sagrado do islamismo xiita no Irã.

Khamenei, que morreu aos 86 anos em um bombardeio conjunto de Israel e dos EUA, em 28 de fevereiro, foi sepultado no complexo islâmico decorado com mosaicos de cerâmica multicoloridos e coroado por uma cúpula e um minarete dourados. Mojtaba Khamenei, filho e sucessor de Ali Khamenei, não compareceu ao enterro do pai, alimentando os rumores sobre sua condição de saúde. Também não foi divulgada nenhuma declaração em seu nome desde o início das cerimônias, no sábado passado, em Teerã. A inteligência dos EUA suspeita que Mojtaba tenha ficado desfigurado após o ataque aéreo. 

O funeral do homem que comandou a República Islâmica durante 37 anos ocorreu em um clima explosivo, após uma onda de ataques que tem como pano de fundo a questão da cobrança ou não de pedágios, por parte do Irã, pelo trânsito de navios no Estreito de Ormuz. Diante de um hotel chamado Miami, em Mashhad, uma enorme faixa exibia uma caricatura do presidente americano Donald Trump com uma recompensa oferecida por sua cabeça. Em outro prédio da cidade, outra faixa com a ameaça: "Nós mataremos Trump".  

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