Oriente Médio

Após funeral de Khamenei, transição de liderança no Irã traz incógnitas

Depois de sepultar o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo morto no primeiro dia da guerra, o regime islâmico se recompõe sob novo comando e a incógnita quanto ao peso efetivo e à orientação a ser imprimida pelo filho e sucessor

Cumpridos os rituais fúnebres para o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo morto no primeiro dia de bombardeios americanos e israelenses, e em meio a uma sequência de ataques recíprocos que colocam em risco o cessar-fogo assinado em junho, o regime islâmico do Irã avança na transição de comando. Aliados e adversários, observadores do cenário e — naturalmente — as forças políticas internas e os cidadãos examinam cada palavra e cada ato do novo guia, Mojtaba Khamenei, filho do antecessor, em busca de sinais que indiquem o que esperar nesse novo capítulo da história da República, que se aproxima de completar meio século.

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As expectativas se justificam pela ampla mudança forçada com a morte de um número expressivo de lideranças nos quatro meses de guerra, em especial nos altos comandos militares. "A poeira ainda está assentando, depois dessa transição abrupta, e parece haver pontos de tensão entre alguns líderes civis e integrantes do comando da Guarda Revolucionária, que assumiram a liderança na condução da guerra e, como resultado disso, enraizaram sua influência", disse, em entrevista ao Correio, Jason Campbell, especialista em assuntos de segurança e defesa no think tank norte-americano Instituto do Oriente Médio (MEI, em inglês). "Mas a nova liderança que vem se consolidando parece mais afinada que a anterior com a linha dura do regime."

Alan Eyre, diplomata especializado em Irã que participou das negociações para o acordo nuclear fechado com Teerã em 2015, no governo de Barack Obama, é mais conclusivo. "A morte de Ali Khamenei e outros dirigentes do regime produziu a ascensão de uma liderança mais radical, antiocidental e combativa", afirmou à reportagem. "É uma liderança mais militarizada, mais anti-EUA e menos avessa aos riscos", observa. "Portanto, podemos esperar mais tensões com os EUA e Israel."

Assim como o estudioso do MEI, Eyre está convencido de que "quem está governando de fato o Irã é o comando da Guarda Revolucionária, e isso deve continuar mesmo depois que acabar a guerra". Jason Campbell concorda que a força militar de elite "sai desse processo com sua influência elevada, e informes sugerem que, nesta altura, os setores mais duros se opõem a negociações: preferem causar mais danos aos EUA e seus parceiros na região".

Incógnita

A variável que desponta como chave para solucionar a equação que descreve o novo equilíbrio de poderes é o novo líder supremo, titular de uma posição política singular no sistema de poderes original que caracteriza a República Islâmica (leia mais abaixo). Embora colocado no centro das decisões, ele era praticamente desconhecido do público externo até ser escolhido para suceder o pai, segundo os procedimentos constitucionais. "Por ora, não é um líder forte. O comando real e cotidiano é uma empreitada coletiva de 10 a 15 indivíduos, entre militares e civis", explica Alan Eyre. "Mojtaba ainda não fez uma aparição pública desde que foi escolhido", concorda Campbell. "O que se informa sobre ele limita-se ao que o regime permite."

Alex Vatanka, também do MEI e estudioso da política interna iraniana e suas relações com os EUA, ressalta que Mojtaba foi, nos últimos 20 anos, "um dos personagens menos visíveis e mais poderosos" do regime: interagiu com a Guarda Revolucionária, com os serviços de inteligência e com o gabinete do líder, "mas manteve o próprio nome de fora de praticamente tudo", o que Vatanka vê como um trunfo, mas igualmente uma armadilha, na nova etapa. "Enquanto o pai era vivo, ele exerceu influência sem exposição a cobrança", diz. "Infelizmente, para ele, o posto de líder inverte isso: não é capaz de empalmar o carisma do aiatolá Khomeini, líder da revolução de 1979, nem a autoridade do pai, que se construiu através de uma vida inteira enfrentando crises."

A ausência do sucessor entre as multidões que acompanharam os funerais do líder assassinado — em três cidades iranianas e duas no Iraque — é uma pista para os enigmas interiores que a nova cúpula da República Islâmica terá de decifrar. "Isso pode ter razões na cautela, na mística do clero ou no jogo de cena", pondera Vatanka. "Mas, politicamente, expôs o problema que a cerimônia foi planejada para ocultar: que ele carece da legitimidade do pai". O especialista lembra que "um cargo pode ser transferido em uma tarde; a autoridade, não". Para ele, o cortejo de Khamenei foi "uma tentativa de transformar luto em legitimidade, mas o lugar vago, onde deveria estar o herdeiro, deixa a transição visivelmente inconclusa".

Dilema nuclear

Muitas das atenções externas se voltam, agora, para o rumo que a nova liderança poderá imprimir ao dilema existencial sobre o programa nuclear, apontado pelos EUA, por Israel e por potências europeias como o ponto crítico nas relações com o Irã, embora o regime islâmico reitere a proibição — imposta por fatwa (decreto religioso) de Ali Khamenei — de o país obter a bomba atômica. "A fatwa morreu como ele", afirma Alan Eyre, embora não veja nisso um elemento de importância prática. "O que impediu o Irã de desenvolver armas nucleares não foi alguma proscrição de ordem religiosa, mas as realidades estratégicas, e a nova liderança pode, perfeitamente, decidir por construir a bomba de maneira a fortalecer a capacidade iraniana de dissuasão estratégica."

Jason Campbell, do MEI, entende que, "com o poder de pressão de que o Irã dispõe agora, não parece que isso seja do interesse do regime, pois poderia resultar em maior coesão externa em uma resposta a tal ameaça". O estudioso admite, porém, que a orientação pode mudar, em especial considerando a influência crescente da linha-dura no centro do poder e as disputas entre as correntes políticas internas.

O dilema nuclear é visto por Alex Vatanka na perspectiva das definições mais amplas que se colocam diante da República Islâmica na reta final para o cinquentenário. "A questão, nesses funerais, não era sepultar Khamenei, mas ensaiar como o Estado pretende exercer seus poderes sem ele", analisa. "Trata-se de uma mudança na fonte de legitimidade, pois a revolução de 1979 é patrimônio gasto. A maioria dos iranianos, hoje, nasceu depois dela, e muitos não têm lembrança alguma de Khomeini", observa.

"Khomeini governou pelo carisma e pela estatura religiosa — as instituições eram extensões de sua vontade. Khamenei não tinha uma coisa nem outra: passou 37 anos construindo substitutivos para a autoridade que lhe faltava", compara o estudioso do MEI. "Mas há algo que o regime jamais deixará transparecer: trata-se do filho sucedendo o pai, uma sucessão hereditária, em uma república fundada na rejeição da monarquia. Agora, o aparato que Khamenei construiu para encarnar essa rejeição está sendo invocado para apagar sua contradição mais gritante."

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Ameaças cruzadas

Sob o impacto da nova série de ataques mútuos, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, jurou vingar a morte do pai, Ali Khamenei, assassinado nos primeiros bombardeios dos Estados Unidos e de Israel. A declaração, escrita, foi sua primeira desde os funerais do antecessor, e fala em "vingar o sangue puro de todos os mártires das duas guerras" — referência à ofensiva americano-israelense de 2025. "Essa vingança é a vontade de nossa nação e deve ser cumprida, inevitavelmente", promete o texto. Em resposta, o presidente dos EUA, Donald Trump, que se apresenta como "o número um" em uma lista de alvos que atribui ao regime de Teerã, renovou a determinação de "destruir completamente" a República Islâmica, caso tente assassiná-lo. "Temos mil mísseis prontos para lançamento, caso cumpram a ameaça de assassinar o presidente em exercício dos EUA — no caso, eu", escreveu Trump em sua plataforma, a Truth Social.

Um sistema político original

Classificada habitualmente apenas como "uma teocracia", a República Islâmica do Irã se constitui em um sistema político e de governo complexo, que desafia definições amparadas exclusivamente na experiência clássica da organização do Estado como conhecida no Ocidente. A par com a primazia da liderança religiosa, consagrada na Constituição aprovada em referendo com 90% de votos favoráveis — e uma taxa de comparecimento dos eleitores em patamar semelhante —, o regime islâmico combina de maneira absolutamente original elementos das repúblicas modernas com um componente essencial do islã desde seus primórdios: a fusão de uma ordem legal fundada no direito com princípios espirituais.

A figura mais distintiva e única dessa estrutura é a do líder ou guia supremo. O paralelo talvez mais didático para compreender seu lugar no sistema seria o do Poder Moderador, autoconcedido pelo imperador Pedro I na Constituição de 1824 — a primeira do Brasil independente. Assim como o monarca luso-brasileiro, o líder do Irã islâmico está colocado acima dos três poderes clássicos dos regimes republicanos desde a Revolução Francesa: executivo, legislativo e judiciário. Mas nem mesmo o carismático aiatolá Khomeini ocupou o posto com base no direito divino, ao contrário dos reis da Idade Média e da Antiguidade, sobretudo os faraós do Egito, tidos como deuses encarnados.

O conceito-chave da estrutura de poder iraniana está expresso no princípio formulado no idioma persa como 'velayat-e faqih', que pode ser traduzido como "primazia do jurisconsulto". O faqih é um doutor da lei islâmica considerado como seu intérprete mais fiel e sintonizado com a realidade presente. Não é escolhido por linha dinástica: é eleito (e pode ser destituído) pela Assembleia dos Sábios, um colégio de 86 clérigos eleitos por voto direto e universal para mandatos de oito anos.

São as atribuições do guia supremo que o colocam em posição superior. É da sua competência formular e determinar a política externa e de defesa e decidir sobre guerra e paz. Está em seu alcance destituir o presidente da República, chefe do Executivo. Cabe ao líder, também, nomear o Conselho dos Guardiões, composto por 12 religiosos com poder supervisor sobre decisões do Legislativo e, inclusive, a última palavra sobre os candidatos a postos eletivos. Sua intervenção tem sido vista como determinante para o predomínio conquistado, nas últimas duas décadas, pelos setores do regime e do clero ditos "conservadores" sobre os "reformistas" ou "progressistas". (SQ)