
O governo do Catar tenta impedir a todo custo uma escalada do conflito entre Irã e Estados Unidos que pode ter consequências negativas para toda a região. Doha enviou a Teerã uma delegação de mediadores para reuniões com autoridades iranianas. Ao mesmo tempo, dialoga com Washington. No início da tarde desta sexta-feira (10/7), o presidente dos EUA, Donald Trump, voltou a advertir que o cessar-fogo fracassou. "A República Islâmica do Irã pediu-nos para continuar as 'conversas'. Nós concordamos, mas os EUA declararam a eles, em termos inequívocos, que o cessar-fogo acabou!", escreveu o republicano em sua plataforma Truth Social.
- Leia mais: Cessar-fogo entre EUA e Irã desmorona com espiral de ataques
- Leia mais: Irã diz que ataques dos EUA interromperam reabertura do Estreito de Ormuz
- Leia mais: Análise: Trump não tem opção melhor do que negociar com o Irã
- Leia também: Vai começar de novo? EUA e Irã retomam ataques e elevam tensão
A afirmação do titular da Casa Branca foi contestada pela chancelaria iraniana. "Nós não solicitamos negociações com os Estados Unidos, mas aceitamos uma viagem dos mediadores do Catar a Teerã", afirmou à televisão estatal um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã. Nesta sexta-feira, houve o primeiro dia de visitação ao túmulo ao aiatolá Ali Khamenei, morto em um ataque aéreo israelo-americano em Teerã. Muitas pessoas não conseguiram conter as lágrimas, enquanto fotografavam a sepultura, coberta de pétalas de rosas e cercada por flores.
Forças americanas e iranianas retomaram os ataques na terça-feira (7/7), com os bombardeios mais intensos desde 17 de junho, quando os dois governos assinaram um memorando de entendimento que ratificava o cessar-fogo de abril e abria caminho para uma trégua duradoura. A TV Al-Jazeera divulgou que o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, viajará neste sábado a Omã para debater a situação no Estreito de Ormuz — o canal por onde passam 25% do petróleo mundial.
Enquanto os esforços diplomáticos se intensificavam, Washington impunha novas sanções ao regime de Teerã. Dessa vez, o alvo do Departamento do Tesouro é o facilitador financeiro iraniano Ali Ansari, um banqueiro que supervisiona uma extensa rede global de ativos que beneficiam o novo guia supremo, Mojtaba Khamenei, recluso desde fevereiro.
Professor emérito do Departamento de Relações Internacionais da Escola de Ciência Política da Universidade de Haifa, Uri Bar-Joseph explicou ao Correio que o cessar-fogo entre EUA e Irã não colapsou por completo porque as condições que levaram ao fim da guerra não mudaram fundamentalmente. "Em essência, trata-se de um clássico jogo de blefe, em que ambos os lados operam sob significativas restrições à sua liberdade de ação", disse. "Trump está sob considerável pressão para retomar as hostilidades devido aos custos econômicos e políticos, bem como à proximidade das eleições de meio de mandato."
Margem de manobra
Segundo o especialista israelense, a última coisa que os republicanos precisam é de outro aumento nos preços dos combustíveis. "Os iranianos estão posicionados sobre o Estreito de Ormuz e tentam capitalizar os ganhos obtidos com o acordo de cessar-fogo. No entanto, sua margem de manobra também é limitada por sua fragilidade econômica, e eles permanecem altamente vulneráveis a ataques dos EUA — não apenas contra alvos militares, mas também contra infraestrutura estratégica", afirmou Bar-Joseph.
Por sua vez, Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York e especialista em Oriente Médio, descarta o desmoronamento do cessar-fogo. "Nem os Estados Unidos nem o Irã querem prosseguir com uma guerra em larga escala. Trump tem pela frente as eleições legislativas. A inflação está disparando, e o presidente teme um desastre para o Partido Republicano", admitiu ao Correio. Em relação ao Irã, Ben-Meir vê uma economia em ruínas, mas entende que o regime islâmico quer marcar posição. "É por isso que retaliaram, mas também gostariam de encerrar as hostilidades, pois isso seria vantajoso para eles. Eu diria que nem o Irã nem os Estados Unidos querem retomar as hostilidades, e acredito que encontrarão uma maneira de encerrar essa troca de ataques nos próximos dias, se não antes."
Bar-Joseph ressaltou que nenhum dos lados tem interesse em um conflito renovado. "Os Estados do Golfo acolheriam com satisfação um esforço militar capaz de provocar o colapso do regime iraniano — embora o as consequências disso sejam incertas. Ao mesmo tempo, reconhecem que o regime é resiliente e não pode ser derrubado apenas por pressão externa."
PALAVRA DE ESPECIALISTA
Sem estratégia clara
"Trump não tem uma estratégia clara sobre como encerrar a guerra com o Irã e firmar um acordo de paz duradouro entre Teerã e Washington que inclua uma fórmula consensual em relação ao programa nuclear iraniano.
As duas coisas que Trump deseja são: evitar que a guerra se alastre mais — pois a continuidade do conflito seria desastrosa para ele e o Partido Republicano nas eleições de meio de mandato — e reabrir o Estreito de Ormuz. Seu mediador focará nesses dois pontos.
Da perspectiva iraniana, eles não querem uma guerra em larga escala e estão ansiosos por um acordo com os EUA; no entanto, sentem que estão em vantagem e não estão dispostos a fazer grandes concessões, a menos que garantam várias de suas demandas: a remoção das sanções, o descongelamento de bilhões em ativos iranianos e algum controle sobre as rotas de navegação do Estreito de Ormuz."
Alon Ben-Meir é professor de relações internacionais da Universidade de Nova York
EU ACHO...
"É provável que Trump tenha sido levado a usar maior força nos últimos dias em grande parte devido às críticas nos Estados Unidos de que teria cedido demais ao Irã. Também é possível que as conversas na cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Ancara, tenham reforçado essa visão. Ele também pode ter sido influenciado pelos apelos iranianos por seu assassinato. Além disso, a inteligência americana pode avaliar que, apesar da retórica agressiva do Irã, o país não possui recursos militares suficientes e, portanto, seria forçado a recuar, pelo menos em certa medida, no Estreito de Ormuz. No entanto, ele não está prestes a iniciar uma nova guerra."
Uri Bar-Joseph, professor emérito do Departamento de Relações Internacionais da Escola de Ciência Política da Universidade de Haifa
Saiba Mais

Webstories
Política
Diversão e Arte