américa do sul

Violência e polarização assombram transição na Colômbia

A menos de uma semana da posse do ultradireitista Abelardo de la Espriella, caminhão-bomba ilustra os desafios do novo presidente. Fortalecida no Congresso, a esquerda afia os dentes para resistir

Policiais examinam o local de explosão, em Cúcuta, na fronteira da Venezuela: guerrilha tensiona a saída do primeiro governo da esquerda -  (crédito: Schneyder Mendoza/AFP)
Policiais examinam o local de explosão, em Cúcuta, na fronteira da Venezuela: guerrilha tensiona a saída do primeiro governo da esquerda - (crédito: Schneyder Mendoza/AFP)

Amenos de uma semana da posse do presidente eleito da Colômbia, a explosão de um caminhão-bomba em Cúcuta, capital de Departamento (estado) no nordeste do país, perto da fronteira com a Venezuela, ilustra os desafios colocados diante de Abelardo de la Espriella. Estreante na política institucional, o empresário se lançou à disputa pela Casa de Nariño com um programa afinado com o ideário que fez o sucesso da extrema-direita na América do Sul, nos últimos anos — do Peru ao Chile, passando por Bolívia e Argentina. Como nos países vizinhos, a eleição presidencial na Colômbia foi decidida no fio da navalha: o vencedor se impôs por menos de 1% dos votos válidos. Venceu o senador Iván Cepeda, candidato escolhido e trabalhado por Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e primeiro político de esquerda a governar o país em 200 anos de vida independente.

Segurança pública foi, como nos vizinhos, o foco central da campanha vitoriosa. Mas, em particular, o país se vê às voltas com questões mal resolvidas do processo de paz concluído há quase uma década com as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia (Farc), ao fim de meio século de uma guerra civil não declarada. O atentado de Cúcuta, com saldo de uma dezena de feridos, foi atribuído pelas autoridades aos remanescentes do Exército de Libertação Nacional (ELN), que resistiu às iniciativas de paz com o governo Petro.

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Não por acaso, De la Espriella faz do combate à violência — política e criminal — seu carro-chefe. Igualmente por isso, escolheu inicialmente para a cerimônia de posse, nesta sexta-feira, não a sede do Congresso, em Bogotá, mas uma base militar no conflagrado Departamento de Cauca, no centro-sul. Lá, onde as Farc nasceram, em 1964, se concentram os dissidentes que se recusaram a depor armas. Petro, um dos artífices do desarmamento do Movimento 19 de Abril (M-19), guerrilha de esquerda nacionalista, em 1991, vetou a proposta.

Ausência

Como as bancadas de seu partido, o Pacto Histórico, decidiu que não assistirá à cerimônia, por fim marcada para a Universidade de Cali — terceira cidade do país e capital do Vale do Cauca, outro departamento com forte presença das chamadas dissidências das Farc.

"A ausência (da oposição) confirma uma polarização que ultrapassa a disputa eleitoral e alcança os próprios ritos institucionais", disse o professor de relações internacionais Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM. "Como a vitória de Espriella foi por menos de um ponto percentual, o novo governo nasce diante de uma oposição numerosa, mobilizada e pouco disposta à cooperação", explica. "Isso não significa ruptura democrática imediata, mas sinaliza para um ambiente de governabilidade muito limitada, algo que parece ser um um novo padrão na América Latina."

Diego Vera, titular da mesma cadeira na Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá, não considera "surpreendente" a decisão de Petro e de seu partido. "Falam em manter um gabinete paralelo e declarar-se em desobediência civil quando entenderem que as políticas do governo forem na contramão da Constituição e das reformas sociais, as que já aprovaram e as que devem tramitar ainda", avalia. O estudioso colombiano, porém, vê nuances entre a postura de Petro e a do seu candidato à sucessão, o senador Iván Cepeda, que se configura como o líder natural da oposição a De la Espriella.

"Agora, de volta ao Senado, Cepeda deve se declarar em oposição ao governo e estimular sua base parlamentar a rejeitar as contrarreformas", analisa Vera, em entrevista à reportagem. "Vai insistir, como Petro, em levar às ruas, com protestos, aquilo que não conseguirem avançar no Congresso." O candidato derrotado, que aos 63 anos acumula uma sólida trajetória à frente da perseguida esquerda civil colombiana, "já não aposta mais na ideia de impugnar as eleições, mas de manter ativas as bases sociais e deslegitimar o novo governo".

"Cepeda deverá assumir uma oposição firme, porém predominantemente institucional e pacífica", afirma o professor da ESPM. "Diferentemente de Petro, ele reconheceu explicitamente a derrota, o que lhe confere maior legitimidade para liderar a resistência parlamentar." Segundo Roberto Uebel, agora como figura de proa da esquerda colombiana, Cepeda deve adotar como estratégia "combinar a atuação no Congresso, a defesa das reformas sociais, a proteção do acordo de paz (com as Farc) e mobilizações contra eventuais medidas consideradas autoritárias".

Foco na segurança

Os primeiros movimentos do novo governo deverão concentrar-se na segurança pública, no fortalecimento das Forças Armadas, no combate aos grupos armados e na revisão da política de "paz total". Paralelamente, são esperadas medidas de desregulamentação, redução de impostos e incentivo à mineração e ao setor energético. O principal foco de tensão será o futuro das organizações vinculadas ao Acordo de Paz.

A política externa deverá assumir orientação mais ideológica, conservadora e alinhada aos Estados Unidos, distanciando-se dos governos de esquerda e dos mecanismos de integração regional. Com o Brasil, contudo, uma ruptura seria improvável: comércio, fronteira, Amazônia e segurança exigem uma agenda pragmática. A relação poderá ser politicamente fria, mas funcional nos temas bilaterais fundamentais, algo muito parecido com o que temos com a Bolívia hoje.

Gustavo Petro, provavelmente, manterá uma contestação política e simbólica bastante contundente, inclusive liderando mobilizações após deixar o governo. Entretanto, já indicou que entregará o poder conforme determina a Constituição. Assim, não parece haver espaço institucional para impedir a posse, especialmente porque observadores internacionais validaram o processo eleitoral e não identificaram evidências de fraude.

Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM

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postado em 03/08/2026 05:00
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