
Um incidente inédito no Mar Vermelho, na terça-feira (4/8), voltou a acender o alerta para a crescente expansão da guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, há cinco meses, com potencial para dificultar ainda mais as negociações indiretas entre Washington e Teerã sobre a normalização do tráfego naval pelo Estreito de Ormuz, vital para o fluxo de petróleo. Pela primeira vez desde o início do conflito, um navio mercante foi afundado no Mar Vermelho — outra via marítima estratégica —, ao que tudo por um ataque da milícia xiita houthi, que tem apoio logístico e técnico iraniano.
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O cargueiro, de bandeira indiana, foi a pique depois de atingido por uma embarcação ligeira carregada de explosivos, um recurso clássico das forças de Teerã, no Golfo Pérsico. Os tripulantes, 13 indianos e um iemenita, foram retirados a salvo. "Os guardas costeiros da província do Mar Vermelho resgataram a tripulação de um cargueiro indiano atacado na costa de Hodeida", disse um comunicado do governo iemenita, que tem controle limitado sobre o litoral do Mar Vermelho. As autoridades responsabilizaram prontamente "os terroristas houthis", predominantes na área.
Outro ataque reivindicado pela milícia pró-iraniana, que forçou o fechamento temporário do aeroporto saudita de Najran, ressaltou os riscos de que se abra uma nova frente na guerra marítima, até aqui concentrada na crise de Ormuz. Durante o dia, os EUA acenaram com a conclusão de um acordo com Teerã "nos próximos dias ou mesmo horas". O presidente Donald Trump, que chegou a anunciar a suspensão de um "ataque maciço" planejado contra o Irã, voltou a advertir que se trataria da "última chance" para a diplomacia, mas o governo do aliado Catar indicou que um esboço do acordo já estaria circulando entre as partes envolvidas na negociação.
Guerra regional
O incidente no Mar Vermelho diz respeito ao Estreito de Bab al-Mandab, passagem entre o Mar da Arábia e o Mar Vermelho, de onde os navios cruzam para o Mediterrâneo pelo Canal de Suez. Os houthis, que enfrentam um governo rival aliado à Arábia Saudita, ameaçam repetidamente fechar a via, e desde o fim de julho declararam bloqueio naval aos portos sauditas da região. Entre especialistas e observadores, uma nova escalada coloca em discussão o potencial de entrelaçamento entre os focos do conflito, com envolvimento crescente da monarquia de Riad.
"O conflito já se expandiu", sustenta o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. Em entrevista ao Correio, ele cita a participação saudita em ações dos EUA contra milícias pró-Teerã no Iraque, bem como a iniciativa, recém-lançada por Riad, de formar uma coalizão marítima multinacional para o Mar Vermelho. "A regionalização já aconteceu: estamos passando de ter fatos táticos separados para uma estruturação do conflito em nível estratégico", argumenta.
Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB, pondera que a monarquia saudita "está trabalhando principalmente na frente diplomática, para tentar colocar fim à guerra entre EUA e Irã". Na sua avalição, o afundamento do cargueiro indiano "não parece ter o poder de arrastá-la para o conflito com o Irã ou para ampliar os ataques aos houthis". Menezes lembra que o Mar Vermelho é foco de "um conflito que ocorre já há alguns anos na região", e que a região "é mais um alvo dos houthis" — o Irã, observa, "está concentrado em Ormuz e não tem interesse em fechar também o Mar Vermelho".
Os estudiosos divergem quanto à capacidade real dos houthis para impedir o tráfego naval entre Suez e o Bab al-Mandab. "Eles têm essa capacidade, porque estão recebendo equipamento e assessores iranianos, e o afundamento do navio indiano é o indicador mais forte disso", diz o professor da ESPM, lembrando que o fluxo de apoio de Teerã para os rebeldes iemenitas vem sendo apontado pelos governos norte-americano e israelense. O titular do Irel/UnB questiona o poderio militar da milícia xiita do Iêmen, mas admite que "a atuação deles acaba aumentando a insegurança e os custos de seguros para a navegação".
A capacidade bélica de Washington para atuar diretamente em uma nova frente de combates é outra variável de uma equação que se mostra mais desafiadora a cada movimento na guerra. "Os EUA atuaram nessa região, em outros momentos", lembra Menezes. "Se considerarem que os aliados locais não têm capacidade para manter o Bab al-Mandab aberto, sem dúvida entrariam em reforço às operações." Para Rudzit, o esforço empenhado até aqui na frente iraniana compromete uma intervenção norte-americana no Mar Vermelho. "Nesse momento, com a capacidade militar que já mantêm na região, eles não têm condições de deslocar um porta-aviões e outras capacidades para combater os houthis", afirma. "Possivelmente, teriam ainda de receber algum auxílio de Israel."
Saiba Mais
Alerta para Jerusalém
A Jordânia sedia hoje uma reunião de emergência entre ministros do Exterior dos membros da Liga Árabe e de países muçulmanos (como Turquia, Paquistão, Indonésia e Malásia) para discutir o que classifica como "ameaça iminente" de uma incursão de Israel para assumir o controle da Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém. O terceiro lugar mais sagrado para o islã está formalmente sob custódia do reino, mas fica no setor oriental (árabe) da cidade, que o Estado judeu ocupa desde a guerra de 1967 e anexou — sem reconhecimento internacional.
Na convocação do encontro, a chancelaria de Amã adverte que uma ofensiva contra o santuário, erguido sobre as ruínas do Terceiro Tempo judaico, pode "deflagrar um conflito destinado a reverberar em todo o mundo islâmico".
O chanceler jordaniano, Ayman Safadi, ressaltou a preocupação com a repetição de incidentes na Esplamada das Mesquitas com extremistas judeus que contam, em maior ou menor grau, com a complacência ou mesmo o apoio aberto dos setores mais à direita no governo do premiê Benjamin Netanyahu. Em 23 de julho, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, liderou 2 mil deles em uma invasão do santuário muçulmano, onde fizeram orações — prática que o status internacional reserva à comunidade islâmica.
"Isso é algo de que a comunidade internacional inteira precisa saber: Jerusalém é um barril de pólvora", insistiu Safadi.
A urgência para o encontro foi requerida pelo chanceler jordaniano com as atenções dirigidas para setembro, quando serão celebrados os feriados mais importantes do calendário judaico — Rosh Hashaná (Ano-Novo) e Yom Kippur (Dia do Perdão). Neste ano, eles vão coincidir com a reta final para as eleições legislativas em Israel, com o governo de Netanyahu sob ameaça real de perder a maioria parlamentar.

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