
Horas antes de tomar posse, o presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, enviou uma mensagem ao país por meio da rede social X. "Agora, só me resta trabalhar sem descanso, servir à nação e hornar a confiança depositada pelo povo em mim, como o fizeram Cincinnato, Ciro e o rei Davi quando assumiram o dever de conduzir seu povo", escreveu, citando, respectivamente, um estadista da Roma Antiga, um conquistador persa e um soberano do Reino Unificado de Israel. O ultradireitista de 48 anos que adotou o apelido de "El Tigre" governará até 7 de agosto de 2030 de olho na Colômbia, mas, também, de braços abertos aos Estados Unidos.
Alçado à Casa de Nariño — a sede do Executivo, em Bogotá — com a ajuda de Donald Trump, De la Espriella promete uma versão 2.0 do Plano Colômbia, impulsionado por Andrés Pastrana e por Bill Clinton, em 2000, e levado às últimas consequências por Álvaro Uribe (2002-2010), muito aplaudido na posse.
Pouco depois das 12h30 pelo horário local (14h30 em Brasília), o presidente Gustavo Petro deixou a Casa de Nariño sob honras militares e fez um discurso aos colombianos. "O mandato popular é respeitado, e isso se aplica aos 11,5 milhões de eleitores que decidiram votar em mim como maioria nacional", declarou. De la Espriella prestou juramento às 16h30 (hora local) e ficou visivelmente emocionado ao receber a faixa presidencial, em Cáli, das mãos de Honorio Enríquez, presidente do Senado. O novo presidente cerrou os punhos e apontou para o público presidente no evento.
Em seu discurso, De la Espriella saudou a nação: "Bem-vindos a encerrar um longo capítulo de resignação nacional". "Desde Cáli, envio uma mensagem firme ao povo colombiano: começou o tempo da recuperação da ordem, da autoridade e da liberdade", avisou.
De la Espriella pregou o respeito à democracia "em todas as circunstâncias" — um recado a Petro. "O governo do 'Tigre' respeitará todas as regras da democracia", prometeu. O presidente lembrou que, durante o governo de Álvaro Uribe, o governo "enfrentou com firmeza o terrorismo". "Reafirmo minha intenção de derrotar, sem trégua, o narcotráfico e todas as organizações criminosas que ameaçam a liberdade", destacou. O ultraconservador garantiu que o combate ao cultivo de coca será prioridade.
Reunião
Antes da cerimônia de juramentação do governo que sucede o do ex-guerrilheiro, ministros de De la Espriella reuniram-se com uma delegação dos Estados Unidos liderada pelo procurador-geral interino, Tood Blanche. Também marcaram presença autoridades dos Departamentos de Estado, de Guerra e de Justiça, além do DEA, a agência de repressão a drogas de Washington.
O jornal The New York Times divulgou que, após uma viagem de integrantes do novo governo colombiano à capital americana, no mês passado, uma autoridade do governo Trump anunciou uma parceria militar baseada em uma "aliança histórica em vários níveis". O próprio De la Espriella escolheu a cidade de Medellín como um "hub" do "Escudo das Américas", uma frente regional de combate ao narcotráfico.
Em entrevista ao Correio, Gimena Sánchez-Garzoli — diretora para os Andes do WOLA (Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos) — afirmou que De la Espriella espera dos Estados Unidos um aumento significativo na assistência em matéria de segurança a níveis similares aos registrados durante o Plano Colômbia e o Plano Patriota. "Esse finaciamento deve ser aprovado pelo Congresso americano, e duvido muito de vontade política para isso. O que poderia acontecer, no entanto, é um aumento no apoio em inteligência, treinamento, assistência técnica e uso de helicópteros, entre outras coisas", disse.
A especialista prevê uma estratégia de segurança centrada em uma posta linha-dura. "O novo presidente buscará desmantelar a política de 'Paz Total' de Petro; fortalecer as forças de segurança; intensificar as operações militares contra grupos armados e organizações criminosas; e reformar o sistema prisional. Ele usará a premissa de que 'a verdadeira paz se impõe pela forçã das armas'", observou Sánchez-Garzoli.
Segundo ela, De la Espriella deu a todos os grupos armados um prazo de 30 dias para se renderem à Justiça; caso contrário, lançará uma ofensiva militar. "Ele prevê a criação de uma força-tarefa especial e um bloco de segurança urbana nas principais cidades da Colômbia. Por sua vez, os EUA esperam que De La Espriella seja um sócio ativo no 'Escudo das Américas', que fortaleça os próprios serviços de inteligência e as forças armadas, e que adote medidas enérgicas contra os narcotraficantes, como a captura e extradição aos EUA de membros do Exército de Libertação Nacional e de dissidentes das Farc."
Professor da Faculdade de Finanças, Governo e Relações Internacionais da Universidad Externado de Colombia, Andrés Macías Tolosa considera previsível um fortalecimento significativo da relação bilateral entre Bogotá e Washington, especialmente nos setores da segurança e da defesa. "Tudo aponta para um retorno a uma agenda muito mais próxima daquela que caracterizou as duas primeiras décadas do século 21, depois de um período de tensão política entre a Casa Branca e o governo Petro. Já foram feitos anúncios sobre a entrada da Colômbia na Coalizão contra os Cartéis das Américas, ocorreram reuniões de alto nível entre a equipe do presidente e o Pentágono, e o Departamento de Estado expressou uma explícita disposição para aprofundar a cooperação", disse ao Correio.
EU ACHO...
"Durante os 200 anos anteriores ao governo Petro, todos os governos colombianos foram bastante subservientes aos Estados Unidos. Eles acataram as exigências americanas e fizeram todo o possível para agradá-los. Neste caso, estamos diante do governo Trump e seu corolário da Doutrina Monroe, o 'Escudo das Américas', sua equiparação do terrorismo ao narcotráfico e sua abordagem transacional das relações internacionais — que desconsidera as normas internacionais. Apressão para atender às exigências dos EUA é maior do que antes, visto que os EUA exercem crescente pressão sobre os governos que não as cumprem."
Gimena Sánchez-Garzoli, diretora para os Andes do WOLA (Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos)
"O verdadeiro desafio consiste em que a Colômbia fortaleça a cooperação sem renunciar à autonomia na definição de seus interesses nacionais. A experiência do Plano Colômbia demonstra que a cooperação internacional pode gerar importantes benefícios em capacidades estatal. Mas, também, evidencia a necessidade de que as prioridades nacionais sejam definidas pelo Estado colombiano, e não exclusivamente pelas agendas de política externa de Washington. Odebate deveria se concentrar no equilíbrio entre cooperação e autonomia estratégica. Uma aliança forte é positiva desde que as decisões respondam às necessidades de segurança e desenvolvimento."
Andrés Macías Tolosa, professor da Faculdade de Finanças, Governo e Relações Internacionais da Universidad Externado de Colombia

Diversão e Arte