
Na última quarta-feira (26/8), o guia turístico nepalês Abhishek Adhikari, 31 anos, chegou à margem do Rio Trishuli duas horas depois que a onda de lama varreu tudo pela frente. "Muitos centros comerciais foram totalmente destruídos, como Dhunge, Trishuli, Devighat e Betrawati. Isso tudo somente no distrito de Nuwakot. Não consegui chegar ao distrito de Rasuwa, a rodovia foi levada pela enchente. Não sabemos quantos são os mortos, pode haver milhares. Há corpos espalhados, muitos deles sem os pés e os braços. A maioria foi despedaçada", relatou ao Correio.
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Até o fechamento desta edição, 586 corpos tinham sido resgatados — 579 no Nepal e nove na China. Com o passar dos dias, a catástrofe ganha proporções históricas: pelo menos 2.400 pessoas estavam desaparecidas. Quem teve a sorte de escapar da avalanche de lama e detritos que desceu os Rios Trishuli e Bhote Koshi enfrenta condições humanitárias críticas.
Segundo Adhikari, os moradores da região estão sem fornecimento de energia elétrica. Também não há água potável nem abrigos disponíveis para acomodar tantas pessoas que perderam suas casas. "Tenho visto o Rio Trishuli por toda a minha vida. Jamais poderia imaginar que o nível da água subiria a tal ponto. Isso foi o mais chocante para mim", desabafou. Ante a previsão de fortes chuvas para o fim de semana, as buscas a sobreviventes e aos corpos tornam-se um desafio à parte. O governo do Nepal deslocou mais 1.200 soldados para a margem do Rio Trishuli, em uma área entre Rasuwa e Chitwan, para reforçar as operações de salvamento.
A massa de gelo e lama acumulou-se em alguns pontos do vale fronteiriço. Uma das chamadas "lagoas de formação" rompeu-se nesta sexta-feira (28/8), no Tibete, forçando a interrupção temporária das ações de resgate. Outras duas áreas de acúmulo de água são monitoradas a todo o momento; uma delas teria começado a transbordar, segundo a emissora de televisão chinesa estatal CCTV.
Aquecimento global
Jakob Steiner, geólogo da Universidade de Graz (Áustria) e membro da Aliança Acadêmica de Montanhas da Ásia, explicou ao Correio que o recuo das geleiras causado pelo aquecimento global aumenta a probabilidade de catástrofes semelhantes às de quarta-feira. "Tenho certeza de que isso ocorrerá novamente. Não há como impedir que uma montanha dessas desmorone. Podemos estar mais bem preparados para 'limpar' o caminho, mas as enchentes tornarão a ocorrer", disse. "Precisamos de sistemas de alerta precoce que avisem as pessoas para abandonarem as áreas mais baixas quando uma enchente estiver a caminho. Isso pode ser feito por meio de sensores ou da análise de fotos de satélite."
Relatos de sobreviventes oferecem uma ideia do horror vivido naquela manhã de quarta-feira. O engenheiro indiano Ananay Sharma, 29 anos, trabalhava na central hidrelétrica quando houve a tragédia. "Eu ouvi um barulho ensurdecedor. Quando saí, tudo tinha desaparecido, à exceção do rio", afirmou. De acordo com a agência de notícias France-Presse, o Exército nepalês encontrou cem pessoas presas no túnel de um projeto hidrelétrico. Algumas delas foram puxadas ou carregadas nas costas de socorristas, em meio à lama, antes de içadas por um helicóptero. "Não tenho notícias desde que falei com ele naquele dia às 7h", declarou à imprensa Sita Adhikari, cujo marido está entre os bloqueados. "Também não sabemos em que ponto estão os esforços para resgatá-los."
Outra indiana se unia a um grupo de 57 peregrinos que subiriam o Monte Kailash, no lado chinês da fronteira com o Nepal. Dois dos três ônibus foram colhidos pela lama. "De repente, nos vimos envolvidos em uma espécie de neblina, de fumaça, que cobriu tudo", contou Sivaranjani Muthunathan, 46 anos. "Conseguimos sair do ônibus, um depois do outro, pela porta do motorista." Ela e outros passageiros correram até uma área mais elevada.
Por trás dos 2.400 desaparecidos, surgem histórias de desespero misturado à esperança. Morador de Londres, Vikram Kolagatla, 50, tentava a todo custo obter notícias da esposa, Geetha Reddy, 43, que participava de uma peregrinação no Nepal e pretendia retornar ao Reino Unido em 4 de setembro. Vikram disse à emissora britânica BBC que pediu que os filhos, de 12 e de 14 anos, se preparem para o pior. "As crianças não acreditam. Acham que a mãe possa estar presa na enchente e que retornará. Não há rede de celular no momento."
EU ACHO...
"A situação é crítica, e as condições humanitárias são absolutamente terríveis. Essa por ter sido a pior enchente da história do Nepal. Pretendo chegar ao meu vilarejo. Ele está isolado e não há mais pontes para chegar lá. Além disso, a comunidade está sem internet."
ONU pede atenção às mulheres
As enchentes na fronteira sino-nepalesa colocam 160 mil mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade extrema, sujeitas a violência e diferentes tipos de exploração, alertou o organismo das Nações Unidas voltado para a população feminina. "O que sabemos é que, quando acontece um desastre desse tipo, os riscos existentes para elas disparam", afirmou a representante da ONU Mulheres no Nepal, Patricia Fernandez-Pacheco. A entidade lançou um apelo pela rápida liberação de US$ 2 milhões para atender às necessidades imediatas no enfrentamento da calamidade, como assistência e proteção.
"Precisamos urgentemente de recursos para chegar até as mulheres e meninas que estão isoladas, em risco e lutando para suprir as necessidades mais básicas", afirmou a funcionária da ONU Mulheres. "Trata-se de uma resposta que ajude a preservá-las de danos adicionais e permita que se recuperem com segurança e dignidade."
Em situações como as vividas desde a catástrofe da última quarta-feira, reforça Fernandez-Pacheco, "mais e mais mulheres e meninas são exploradas e abusadas, sofrem com a fome, a falta de medicamentos e a escassez de recursos". Ela observa, com base na experiência da ONU Mulheres, que "existem evidências de que de desastres anteriores que sugerem que as mulheres têm risco maior de morrer do que os homens". A agência das Nações Unidas lista ainda, como peso adicional para a população feminina em cenários de calamidade, as tarefas domésticas, como a busca de água.
Desabrigados
O chamado da ONU Mulheres coincidiu com outro, da Cruz Vermelha, sobre a atenção necessária para ao menos 93 mil moradores das regiões atingidas no Nepal. Muitos sobreviventes perderam suas casas e estão alojados em condições precárias, em escolas e edifícios públicos, afirmou em Genebra (Suíça) David Fisher, que chefia no Nepal a delegação da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC, na sigla em inglês).
"Essas pessoas foram diretamente afetadas, viveram esse desastre terrível", disse Fisher à imprensa. "Nessas primeiras horas, muitas ficaram sem contato com a própria família enquanto trabalhavam para ajudar a outras vítima", relatou. O representante da Cruz Vermelha no Nepal lembrou ainda o "trauma psicológico dobrado" para os socorristas que exercem os deveres profissionais em meio ao medo que sentem pela situação das próprias famílias".
Fisher lembrou às agências humanitária internacionais a necessidade de "planejar as ações além da sobrevivência imediata e garantir que essas pessoas continuem vivendo por meses e meses em barracas ou debaixo de coberturas de lona".

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