A consultora de comunicações Mila Kniazka-Khanova, 43 anos, teve uma noite difícil e insone, assim como todos os moradores de Kiev. "Consegui chegar ao abrigo antibombas mais próximo de casa, onde fiquei até o fim do alarme, escutando várias explosões ecoando pela capital. Foi assustador", contou ao Correio. "Em tempos assim, manter contato com a família e com amigos me ajuda a lidar com a situação."
- Vídeo: drone russo persegue e explode em homem no meio de rua na Ucrânia
- Três mortos e 15 feridos em explosão em uma cafeteria em Moscou
Por sua vez, Olexiy Haran, professor de política comparativa da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla, disse à reportagem que explosões atingiram um armazém do serviço postal a três quadras de sua casa. "Foi uma noite muito complicada. Não existe lugar seguro em Kiev." Durante a madrugada, mísseis balísticos e drones suicidas mataram ao menos 17 pessoa na capital e no entorno. A ofensiva da Rússia tirou proveito da escassez de interceptadores de mísseis balísticos e expôs a fragilidade da defesa antiaérea. A Força Aérea da Ucrânia chegou a lançar uma alerta sobre uma onda de mísseis balísticos a caminho de Kiev.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, confirmou que a Rússia tinha disparado 24 mísseis e 115 drones com propulsão a jato, na madrugada desta quarta-feira (5/8). O sistema de defesa antiaérea neutralizou 98 aeronaves não tripuladas, mas todos os mísseis impactaram o solo. "Estamos trabalhando ao máximo com todos os parceiros que possam nos ajudar com o fornecimento de mísseis interceptadores, para proteger contra esses ataques russos totalmente injustificados contra vidas e infraestrutura civil", declarou Zelensky. Ele conversou com Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). "Mark está bem informado sobre as ameaças, e temos coordenado nossos esforços em relação aos países que possuem os mísseis necessários e a capacidade de ajudar", escreveu.
Para o presidente, é "crucial" eliminar a burocracia e tomar decisões políticas. "Literalmente todos os dias, a determinação de nossos parceiros na Europa e na América define a vida das pessoas aqui na Ucrânia. Agradeço a disposição em explorar oportunidades e trabalhar com a Ucrânia no fornecimento dos itens de que precisamos."
Diretor da ONG Eurasia Democracy Initiative (em Kiev), Peter Zalmayev reconheceu uma situação "preocupante". "A aritmética é ruim. Dos 24 mísseis russos lançados hoje (ontem), nenhum foi interceptado. O fato é que mesmo se houver vontade política nos EUA para suprir a Ucrânia com mísseis Patriot, isso custa muito. Em média, são necessários dois Patriot para derrubar um míssil balístico. Os EUA podem fabricar apenas 1.500 deles por ano. Mesmo se Donald Trump concedesse licença a Kiev para produzir o armamento, levaria anos. A Ucrânia precisa começar a fabricar os próprios mísseis de interceptação balística o quanto antes", disse ao Correio.
Compromisso
Olexiy Haran admitiu que o país não tem mísseis antibalísticos suficientes. "A comunidade internacional não está engajada o bastante. Parte do motivo é que os mísseis Patriot foram deslocados para o Oriente Médio. Não recebemos interceptadores, temos alguns, mas são insuficentes contra mísseis balísticos. O que a Rússia tem feito é impor um terror aos civis."
Por sua vez, Mila externou o medo de conhecer alguma das vítimas dos bombardeios. "Um dos mísseis caiu perto da casa da minha mãe e atingiu um prédio. É muito importante que o Ocidente nos ajude com interceptadores. Centenas de milhares de vidas ucranianas dependem disso", desabafou.
EU ACHO...
"Ao longo destes anos vivendo em Kiev, cidade constantemente sob fogo russo, aprendi a distinguir os sons de mísseis, drones Shahed e interceptadores. As explosões de impactos e de interceptações são diferentes. Recentemente, tem havido muito menos interceptações do que antes. Isso significa que cada novo bombardeio russo pode ser o último para qualquer um de nós em Kiev."
Mila Kniazka-Khanova, 43 anos, consultora de comunicações, moradora de Kiev
"Putin tem alvejado estações de abastecimento de água que suprem Kiev e outras grandes cidades ucranianas. Isso pode resultar em uma grande catástrofe envolvendo milhões de pessoas, o que exigiria a remoção da população em larga escala. O presidente russo quer fazer da Ucrânia um lugar inabitável. Se não podemos proteger nossos céus, haverá mais milhões de pessoas saindo do país."
Peter Zalmayev, diretor da ONG Eurasia Democracy Initiative (em Kiev)
Drone com explosivo afeta aeroporto da Alemanha
Um incidente que envolveu pelo menos um drone com um dispositivo explosivo levou à suspensão temporária do tráfego aéreo no Aeroporto de Leipzig, na Alemanha, um importante centro logístico para a Organização do Tratado do Atlântico do Norte (Otan) e para o envio de equipamentos militares e civis para a Ucrânia. Na Alemanha, país que tem apoiado ativamente a Ucrânia desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022, o embaixador ucraniano acusou Moscou desde o início do incidente, em entrevista à Welt TV. "Quem mais poderia ser senão a Rússia?", questionou Oleksii Makeiev.
Na noite de terça-feira (4/8), o tráfego aéreo foi interrompido por duas horas no aeroporto no leste da Alemanha após a descoberta de um drone que, segundo investigadores alemães, carregava um "dispositivo explosivo não identificado", que foi posteriormente desativado. Um avião teve que abortar seu pouso no aeroporto e, em seguida, colidiu no ar com um objeto desconhecido, mas depois aterrissou em outro terminal em segurança, informou o governo.
O incidente ocorre em um momento em que a Alemanha vem alertando há meses sobre tentativas de sabotagem, desinformação e ataques cibernéticos originados de potências estrangeiras hostis, particularmente a Rússia.
Uma aeronave "aparentemente colidiu" com outro objeto enquanto recuperava altitude após não conseguir pousar no Aeroporto de Leipzig/Halle, que foi temporariamente fechado antes da descoberta do drone, confirmou o Ministério do Interior alemão.
Um avião de passageiros vindo de Maiorca, assim como vários aviões de carga com destino à cidade, tiveram que ser desviados para outros aeroportos. Apesar do impacto, o avião conseguiu aterrissar no aeroporto de Hanôver, também utilizado pelas Forças Armadas da Alemanha, pela Otan e para o transporte de carga com destino à Ucrânia, informou o porta-voz do ministério, Leonard Kaminski, em entrevista coletiva em Berlim. A Alemanha e outros países europeus têm observado drones sobrevoando locais sensíveis, como aeroportos, bases militares e instalações industriais.
