
Desde que assumiu as funções, em março, o novo embaixador de Cuba tem mantido uma rotina intensa de visitas pelo país, parte do empenho do governo de Havana para contrapor a diplomacia ao cerco energético imposto pelo governo Donald Trump depois de capturar em Caracas o presidente Nicolás Maduro e assumir o controle sobre o petróleo da Venezuela, que abastecia a ilha. "O momento que atravessamos é um dos mais complexos que o nosso povo viveu nos últimos 70 anos", disse Victor Cairo em entrevista ao Correio. Foi nessas condições que os cubanos celebraram, em meados de agosto, o centenário de nascimento de Fidel Castro, líder histórico da revolução de 1959.
Formado em direito e desde 2006 na carreira diplomática, o embaixador analisa nesse contexto o recente pacote de reformas econômicas. Admite uma dose de inspiração nas experiências da China e do Vietnã, mas frisa: "Nosso socialismo terá de construir o próprio modelo".
Grato pelo apoio do governo e dos movimentos sociais, brasileiros, Victor Cairo proclama: "Cuba não está sozinha".
Cuba celebrou o centenário de Fidel Castro no momento mais difícil em quase sete décadas da Revolução. Isso marcou as comemorações?
A celebração foi um sucesso. A obra e o pensamento de Fidel foram reconhecidos em Cuba e em várias partes do mundo. O momento atual é um dos mais complexos que o nosso povo viveu nos últimos 70 anos, sob impacto da política de asfixia do governo dos EUA. Mas essa complexidade não é vivida apenas pelo povo cubano. Nessas circunstâncias, tem sido importante refletir sobre Fidel e procurar nas suas ideias respostas para este momento difícil que a humanidade enfrenta.
A Assembleia Nacional aprovou recentemente um ambicioso pacote de reformas econômicas. Em que medida elas impactam o futuro do país?
As medidas que adotamos fazem parte de um processo de modernização do nosso sistema econômico e social, que vem decorrendo há vários anos. Foram tomadas num contexto em que os EUA impuseram um bloqueio ao nosso abastecimento de combustível e concentram seus ataques em enfraquecer nosso sistema energético. No entanto, não ficamos parados à espera de que o governo dos EUA deixe de cometer o genocídio. As medidas visam a criar condições para aumentar a prosperidade do nosso povo, liberar as forças produtivas e estabelecer uma aliança entre todos os agentes econômicos, que potencie a geração de riqueza. Nunca renunciaremos à construção de uma sociedade socialista nem às conquistas da nossa revolução.
A pressão do governo Donald Trump influi nesse processo?
As transformações constituem um processo que se vem realizando no pleno exercício da nossa soberania. Não são o resultado de negociações com nenhuma potência. Abrem oportunidades para que empresários nacionais, estrangeiros e cubanos residentes no exterior ampliem sua presença no país. O futuro de Cuba dependerá dos cubanos, não dos interesses das grandes empresas dos EUA nem dos políticos anticubanos ultrapassados da Flórida.
Quanto têm as reformas de inspiração em processos como os da China e do Vietnã?
A atualização do modelo econômico cubano se arrasta há vários anos. Fidel nos legou um conceito de revolução que continua muito atual: revolução é mudar tudo que deve ser mudado e é o sentido do momento histórico. A Revolução Cubana triunfou a apenas 90 milhas do império. Após o colapso do bloco socialista, pensava-se que o socialismo cubano não resistiria, mas resistiu. Há muitos anos estudamos outras experiências na construção do socialismo. Não existe um modelo único. Tanto a China quanto o Vietnã apresentam processos que avançam com sucesso, cada um com suas particularidades. No entanto, nosso socialismo terá de construir o próprio modelo, tendo em conta essas dinâmicas, mas sem ignorá-las.
Até que ponto pode-se dizer que Cuba estaria "isolada" externamente?
Cuba não está isolada. Cuba não está sozinha. A imensa maioria dos povos está ao lado de Cuba contra o bloqueio genocida. Este governo dos EUA recorreu a todo tipo de chantagem para tentar isolar Cuba, e apenas alguns cederam. Vimos empresas abandonarem Cuba por receio de serem sancionadas. Vimos governos romperem laços para responder aos interesses do secretário de Estado. Mas são manifestações insignificantes face ao poder que a solidariedade com Cuba tem no mundo. O governo dos EUA promulgou decretos executivos que violam o direito internacional. Criminalizou a solidariedade. Mas não se pode matar as ideias, nem a solidariedade pode ser bloqueada.
Como o senhor vê os esforços do governo e da sociedade brasileira para enviar ajuda à ilha?
O Brasil tem apoiado Cuba nesses momentos difíceis. Recebemos recentemente 48 toneladas de leite em pó doadas pelo governo brasileiro. Também recebemos medicamentos. O que os movimentos sociais fazem é impressionante. O Movimento dos Sem-Terra acaba de entregar 7,6 toneladas de medicamentos. É emocionante ver como os viajantes brasileiros que vão a Cuba levam malas com medicamentos, material médico e sementes para a produção de hortaliças e alimentos. Existe um movimento de solidariedade com Cuba, muito difundido por todo o Brasil, que é bastante ativo e que reúne associações profissionais, sindicatos, organizações não governamentais, artistas e intelectuais, bem como a sociedade civil em geral. Estamos certos de que toda essa força solidária a Cuba que existe no Brasil não permitirá que nosso povo fique sozinho.

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