Corrida para salvar operários presos nos túneis do Nepal
Exército do Nepal concentra os esforços no resgate de centenas de trabalhadores presos no subterrâneo das obras de 11 projetos de centrais hidrelétricas, com os acessos obstruídos pela avalanche de lama e rochas da última quarta-feira
Militares mobilizados na operação para localizar e retirar sobreviventes em escavações para a construção de usinas - (crédito: Nepal Army/AFP)
As operações de resgate de possíveis sobreviventes da tragédia da última quarta-feira (26/8), na fronteira entre o Nepal e a região autônoma do Tibete, na China, entraram nesta terça-feira no sétimo dia com os esforços concentrados em abrir caminho para buscar cerca de mil trabalhadores presos em túneis de 11 projetos de construção de usinas hidrelétricas no Rio Trishuli. Equipes militares nepalesas provocaram na véspera uma explosão controlada em um dos possíveis acessos às escavações, entre rochas e detritos. Ao longo dos trabalhos, ar está sendo bombeado para dentro das estruturas bloqueadas, de onde 279 pessoas tinham sido retiradas.
O balanço do governo de Katmandu, até as primeiras horas desta terça-feira, dava conta de 939 corpos retirados da vasta área coberta pela avalanche que resultou do colapso de uma geleira na Cordilheira do Himalaia. Um mar de lama se precipitou no leito de dois rios, provocando enchentes-relâmpago que castigaram também o lado chinês da fronteira. O governo de Pequim informou sobre 16 mortes e 546 desaparecidos. O Nepal registrava cerca de 4.500 desaparecidos, entre eles 600 turistas e peregrinos estrangeiros de 40 nacionalidades.
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É na estrutura das obras que repousa a esperança dos socorristas de encontrar os trabalhadores com vida, apesar de decorrida uma semana desde que ficaram presos nas escavações cujas saídas estão obstruídas. "São túneis construídos para dar acesso às estruturas das usinas e permitir o escoamento de água, que é essencial para a geração de energia", explica o geólogo Jakob Steiner, da Universidade de Graz (Áustria). "Eles são amplos o bastante para que caminhões possam passar por eles. Têm espaço suficiente para que as pessoas possam encontrar abrigo dentro deles", diz o cientista. "Mas é uma corrida contra o tempo, porque elas precisam de água e alimentos."
Fora do mapa
Outro obstáculo enfrentado no salvamento foi descrito pelo professor Arnold Dix, geólogo e engenheiro australiano que se torno conhecido, em 2023, pela participação no resgate de 44 trabalhadores soterrados por uma avalanche no túnel Silkyara, em Uttarakhand, do lado indiano do Himalaia. Falando à emissora pública britânica BBC de Melbourne, de onde ajuda os esforços, Dix observa que as proporções inéditas do acidente no Nepal apagaram qualquer vestígio visível dos túneis e seus acessos. "As marcas visíveis deles simplesmente desapareceram, todas elas", afirma. "Ficou tudo como uma paisagem lunar", compara.
"São rochas maiores que uma casa, eu nunca vi uma coisa assim", admira-se o professor, reconhecido internacionalmente como autoridade na construção de túneis. Dix tem recorrido a imagens de satélite sobrepostas a imagens atuais do terreno e informações de pilotos de helicópteros para tentar determinar a posição das estruturas sob o mar de lama e detritos. Uma vez localizados os alvos, as equipes em terra podem "decidir qual é o caminho mais viável para chegar a eles". Com base na própria experiência de engenheiro, ele sustenta a esperança de sucesso: "Apesar da fúria destruidora das enchentes na superfície, o subterrâneo pode estar protegido dela".
"Determinação"
Colocado diante de um desafio de dimensões inéditas à sua capacidade de liderança, com menos de seis meses no cargo, o primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, postou na rede social Facebook um texto no qual reafirma o empenho de seu governo na busca de sobreviventes e no amparo aos atingidos pela calamidade — cerca de 90 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). "A despeito das condições de tempo adversas, das dificuldades no terreno e dos riscos permanentes, seguimos adiante com a determinação de salvar a vida de nossos cidadãos."
Shah, engenheiro e rapper de 36 anos, que em 2025 liderou um levante juvenil contra "os políticos tradicionais", mobilizou 21 mil militares, policiais, bombeiros e outros funcionários, além de voluntários para enfrentar "um desastre natural de magnitude inimaginável, sem precedentes" na história do país.
Em visita ao Quirguistão, o presidente da China, Xi Jinping, reafirmou que o governo de Pequim está fazendo "todos os esforços possíveis" na busca de sobreviventes no Tibete. Foram enviados à região 2 mil resgatistas.
Tempestade se move ao longo da Borda Norte do Parque Nacional do Grand Canyon
(foto: J. Baird/National Park Service/AFP)
Enchentes causam mortes no Grand Canyon
Duas pessoas morreram e mais de 10 continavam desaparecidas no Grand Canyon, uma das principais atrações turísticas dos Estados Unidos, após as enchentes repentinas que atingiram a região no fim de semana, informou o Serviço Nacional de Parques (NPS, em inglês). Novas tempestades previstas para esse vale escarpado no oeste do território norte-americano ameaçavam os esforços para encontrar o restante dos desaparecidos. "Os esforços de busca e recuperação continuam", informou o NPS pela rede social X. O Serviço Nacional de Meteorologia alertou para o risco representado pelo prognóstico de chuvas e tempestades elétricas. "Podem ocorrer enxurradas fatais em cânions secundários e cânions em fenda. As passagens em áreas baixas podem ficar inundadas", afirmou o órgão, em comunicado.