
No perfil do Facebook do nepalês Rajendra Dawadi, diretor da Escola Secundária Superior Tribhuwan Trishuli, em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, as mensagems se multiplicam. "Eu tenho orgulho de dizer que somos amigos e ex-colegas", escreveu Kafle Prakash. "Você é o verdadeiro herói que salva a vida de muitas pessoas", reagiu Pascal Vanryckel. "Imenso respeito, grande trabalho", comentou Bisham Acharya. Em entrevista ao Correio, Dawadi contou que tudo aconteceu às 9h10 daquela quarta-feira (26/8) (pelo horário local). "Eu lecionava, na sala de aula, quando meu secretário veio e gritou que uma enchente estava vindo. Outro professor disse que houve uma grande inundação em Rasuwa. Alguns pais vieram buscar seus filhos. Esses três incidentes me fizeram tomar a decisão rápida de enviar cerca de 900 alunos, entre 11 e 18 anos, a um local seguro. Muitos foram para um ponto mais alto, outros para suas casas. Estavam aterrorizados", relatou.
Perguntado como vê o fato de ser considerado um herói, Dawadi respondeu: "Apenas cumpri com meu dever e minhas responsabilidades; eu estava liderando o movimento". O diretor da escola afirmou que, desde o dia da catástrofe, tem se sentido emotivo. "Eu passei 23 anos de minha vida, ali, como professor. Foi lá que também aprendi. Agora, nada restou", disse. Segundo Dawadi, dois funcionários da escola estão desaparecidos.
Enquanto as equipes de resgate avançam com extrema dificuldade pela grossa camada de lama que cobriu vilarejos no vale do Rio Trishuli, as chances de encontrar sobreviventes da catástrofe da última quarta-feira diminuem com o passar das horas. Muitos corpos, em estado de decomposição, foram acondicionados de forma precária em escritórios climatizados da associação de comerciantes do distrito de Nuwakot. Murais com fotografias dos corpos estão dispostos no município nepalês de Bharatpur, 160km rio abaixo do epicentro do desastre, e na capital Katmandu. Nos dois pontos, familiares de desaparecidos observavam as imagens, na tentativa de localizar entes queridos.
Até o fechamento desta edição, a inundação tinha deixado pelo menos 781 mortos e 2.502 desaparecidos, incluindo 592 estrangeiros. O Ministério da Educação do Nepal anunciou que 19 escolas foram afetadas pela torrente de lama — nove delas estão destruídas. Pelo menos 200 estudantes estão na lista dos desaparecidos e 20 morreram na inundação. As autoridades nepaleses intensificaram os esforços para resgatar cerca de 900 operários de usinas hidrelétricas que ficaram presos dentro de túneis à margem do Rio Trishuli.
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Mudança climática
A tragédia da última quarta-feira acendeu o alerta sobre o potencial catastrófico do aquecimento global. Consultor principal para o processo multilateral de mudanças climáticas dos Países Menos Desenvolvidos e Diretor da Climate Analytics no Sul da Ásia, o nepalês Manjeet Dhakal publicou recentemente um estudo revelando que eventos extremos estão se tornando até três vezes mais prováveis devido a mudanças climáticas de origem humana. "As temperaturas em ascensão têm derretido e desestabilizado as geleiras, alterando as condições de congelamento e descongelamento, além de modificar os padrões de chuva e neve em toda a região do Himalaia. Esses fatores podem aumentar a instabilidade das montanhas", explicou à reportagem. "As mudanças climáticas estão cada vez mais inclinando a balança para a ocorrência de perigos em cascata nas montanhas."
Dhakal crê na possibilidade de reduzir os riscos. Ele defende que o Nepal realize um monitoramento robusto das geleiras e das encostas, e invista em redes hidrometeorológicas, sistemas de alerta para múltiplos riscos e infraestrutura resiliente ao clima. "Países montanhosos vulneráveis não conseguem financiar e implementar sistemas sozinhos. A adaptação não pode substituir a mitigação: a continuidade das emissões de combustíveis fósseis e do aquecimento global levará, cada vez mais, os sistemas montanhosos para além dos limites de adaptação."
Basanta Raj Adhikari, diretor do Centro para Estudos de Desastres da Universidade Tribhuvan e presidente da Rede de Preparação para Desastres do Nepal, admitiu ao Correio que há "sinais credíveis" de influência do aquecimento global na tragédia de 26 de agosto. "O aumento de temperatura acelerao afinamento das geleiras, a degradação da permafrost (solo permanente congelado), a instabilidade do gelo e da neve, e a produção de água de degelo, Tudo isso aumenta a chance de colapso das geleiras, deslizamentos e avalanches."
Alpinistas veem mudanças na Cordilheira do Himalaia
Kami Rita Sherpa chegou 32 vezes ao cume do Everest — a montanha mais alta do mundo, com 8.848m. Único homem a conseguir essa façanha, o alpinista nepalês de 56 anos admite que a cordilheira do Himalaia está sofrendo alterações. "Com base na minha experiência de escalada do Himalaia por mais de três décadas, desde a primeira subida ao Everest, em 1994, testemunhei mudanças importantes nas montanhas. Uma das maiores transformações que percebu foi a quantidade de neve e gelo sobre o Everest e em outros picos do Himalaia. Em muitas áreas, parece haver gelo e neve menos permanentes do que antes, e as geleiras estão recuando", afirmou, em entrevista exclusiva ao Correio. "Locais antes cobertos de neve espessa ou de gelo estão mostrando mais rochas expostas. Também percebi mudanças em geleiras e em cascatas de gelo, assim como nas condições de escalada."
Kami admitiu que as montanhas mudam naturalmente. "Mas, em comparação com meus primeiros anos de alpinismo, as mudanças vistas agora parecem mais visíveis e rápidas. Temperaturas mais amenas podem afetar a estabilidade na neve e do gelo, tornando as rotas de escalada mais difíceis e imprevisiveis", explicou. "Enquanto guias de montanha e alpinistas, devemos respeitar essas mudanças, proteger o meio ambiente e continuar a aprender sobre como escalar de forma segura em um mundo de montanhas em metamorfose."
O australiano Oliver Foran também colocou seu nome no Guiness, depois de quebrar o recorde de escalada mais rápida do Everest a partir do nível do mar. Aos 27 anos, ele chegou ao cume da montanha em 27 de maio, depois de 50 dias. Ao Correio, Foran garantiu que as mudanças climáticas são um grande problema no Himalaia. "Também presenciei isso. Durante um subida ao Everest, meses atrás, vi que a massa de gelo estava o mais sólido possível. Quando descemos, ela ainda se encontrava firme. Em meu retorno ao Everest, no verão, aquilo parecia um rio. O gelo estava derretendo, era algo impressionante. Vimos alguns seracs (blocos de gelo) enormes, que tinham acabado de desabar. É um problema grave o que enfrentamos nas grandes montanhas", afirmou, por meio do WhatsApp.
Em 21 de maio passado, River Ahmad, 31, tornou-se a primeira afegã a superar os 8.848m do Everest. Ela contou ao Correio que, durante a escalada, percebeu modificações nas geleiras, com gelo exposto e menos neves em algumas áreas. "O que aconteceu no Nepal é de partir o coração. Nã podemos dizer que o desastre foi causado pela mudança climática, mas um Himalaia em aquecimento torna as geleiras e as encostas das montanhas menos estáveis, aumentando o risco de avalanches, deslizamentos de terra e inundações", disse Ahmad. (RC)
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