Oriente Médio

Após a guerra, porta-aviões atraca no paraíso do turismo sexual

O porta-aviões a propulsão nuclear norte-americano USS Abraham Lincoln atraca na Tailândia, enferrujado, depois de nove meses ininterruptos em alto-mar e da ofensiva contra Teerã. Os 5 mil tripulantes se divertem em balneário

Mulheres divulgam descontos de 10% para militares dos EUA no clube privê Sapphire em Pattaya  -  (crédito: Anthony Wallace/AFP)
Mulheres divulgam descontos de 10% para militares dos EUA no clube privê Sapphire em Pattaya - (crédito: Anthony Wallace/AFP)

Depois de 286 dias (ou nove meses e 16 dias) em alto-mar, os 5 mil tripulantes do porta-aviões americano a propulsão nuclear USS Abraham Lincoln desembarcaram em Pattaya, balneário do turismo sexual na Tailândia. A cidade foi enfeitada com painéis de LED e com faixas alusivas à embarcação da Marinha dos Estados Unidos, além de mensagens de boas-vindas aos militares. Nas últimas semanas, surgiram controvérsias sobre as condições de saúde mental dos marinheiros a bordo, com o relato de ao menos um caso de tripulante que se jogou ao mar, durante tentativa de suicídio. O estado do navio causou espanto em especialistas, com várias marcas de ferrugem visíveis.

Em nota, o contra-almirante Robert E. Loughran, comandante do Grupo 3 de Ataque de Porta-Aviões, disse que a chegada a Laem Chabang "fornece uma oportunidade muito merecida para nossos marinheiros e marines descansarem e recarregarem as baterias". "Também sublinha a aliança forte e a parceria duradoura entre Estados Unidos e Tailândia. O que esse grupo de ataque realizou é verdadeiramente histórico. Não poderia estar mais orgulhoso do profissionalismo e da competência excepcionais demonstrados por cada membro desta equipe durante nossas operações na área de responsabilidade do Comando Central dos EUA", afirmou. 

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A viagem do USS Abraham Lincoln começou em novembro de 2025, a partir da Califórnia, rumo a uma missão no Mar do Sul da China. O porta-aviões foi desviado para o Oriente Médio, pouco antes da ofensiva conjunta entre EUA e Israel contra o Irã. A embarcação permaneceu na região por seis meses, em apoio aos bombardeios contra posições americanas.  

O USS Abraham Lincoln atracado no Porto Laem Chabang, perto de Pattaya: ferrugem evidente
O USS Abraham Lincoln atracado no Porto Laem Chabang, perto de Pattaya: ferrugem evidente (foto: Anthony Wallace/AFP)

Ex-oficial superior da Marinha que realizou 150 missões durante a Guerra do Vietnã como comandante e lancha de patrulha costeira, Harlan Ullman explicou ao Correio que "manter um navio em operação por nove meses no calor e na umidade do Golfo Pérsico cobra um preço muito alto da tripulação e, naturalmente, do próprio porta-aviões". "Ao observar fotos do USS Abraham Lincoln, percebe-se que grande parte da pintura cinza-naval foi substituída pela ferrugem. Além disso, sem a manutenção realizada em terra, muitos dos sistemas operacionais do navio precisarão de reparos", disse o veterano, que também comandou um contratorpedeiro dos EUA e hoje é consultor senior do Atlantic Council e presidente do Killowen Group, uma empresa de consultoria estratégica.

De acordo com Ullman, serão necessários pelo menos seis a sete meses em um estaleiro naval para fazer a manutenção e os reparos decorrentes do desgaste causado pela missão prolongada do USS Abraham Lincoln. "De fato, é notável que o Lincoln tenha conseguido realizar a missão dessa maneira, após tantos dias no mar, em um cenário de guerra e com o inimigo atirando contra ele", admitiu. 

Pedestres caminham diante de imenso painel de LED com boas vindas aos marinheiros
Pedestres caminham diante de imenso painel de LED com boas vindas aos marinheiros (foto: Anthony Wallace/AFP)

Em relação à escolha de Pattaya para o descanso, Ullman considera a cidade um "excelente porto de escala". "Para quem esteve lá, há muito mais para fazer além de sexo — algo que, aliás, também se encontra no Rio de Janeiro. A tripulação terá recebido instruções para manter boa conduta e, sem dúvida, será adotado um sistema de duplas para garantir o cumprimento das normas navais em terra. Mas imagine ter passado um tempo no equivalente a uma prisão sem ar-condicionado — os conveses de voo e de hangar de um porta-aviões ficam expostos ao ambiente externo; é assim a vida em alto-mar. Sem dúvida, as condições não são boas, por mais moderno que seja o navio.

Irã

A guerra entre Irã e Estados Unidos recrudesceu nos últimos dias, com ataques americanos contra cidades no sul do território iraniano e com represálias de Teerã a bases dos EUA no Oriente Médio. Vice-diretor do Programa Oriente médio e Norte da África do instituto International Crisis Group, Ali Vaez disse ao Correio que o conflito reacendeu porque ambos os lados acreditam que mais um aperto no cerco pode melhorar a própria posição. "Washington pode punir o Irã sem forçar a sua rendição, e Teerã pode elevar os custos sem derrotar Washington. A única saída duradoura é um equilíbrio negociado, que transforme a vulnerabilidade mútua em contenção mútua", opinou. 

Para Vaez, Trump confunde uma posição tática favorável com um desfecho estratégico inevitável. "Os Estados Unidos podem até ter uma capacidade muito maior de infligir danos ao Irã e maior liberdade de ação nas imediações do Estreito de Ormuz, mas ainda assim não controlam o limiar de tolerância à dor de Teerã — e um regime que acredita que sua sobrevivência está em jogo tem mais probabilidade de escalar o conflito do que de capitular. O perigo é que o desfecho 'inevitável' não seja a rendição, mas outra rodada de guerra."

Ainda segundo o estudioso, a armadilha é uma guerra fácil de intensificar e cada vez mais difícil de ser encerrada. "Cada retaliação iraniana cria a justificativa para um novo ataque dos EUA, e cada ataque dos EUA dá a Teerã mais um motivo para demonstrar que a coerção não funcionará. É assim que uma guerra curta se transforma em uma guerra sem fim — um degrau de retaliação de cada vez", concluiu Vaez.

EU ACHO...

Harlan Ullman, veterano da Guerra do Vietnã, consultor senior do Atlantic Council e presidente do Killowen Group
Harlan Ullman, veterano da Guerra do Vietnã, consultor senior do Atlantic Council e presidente do Killowen Group (foto: Arquivo pessoal )

"Qualquer período prolongado longe de um porto e nas condições ambientais e de combate mais difíceis é muito complicado. Fui informado pela Marinha que, apesar dos relatos de problemas no USS Abraham Lincoln, a taxa de renovação de alistamento dos marinheiros que optavam por permanecer na Marinha era bastante alta. Os marinheiros e fuzileiros navais sabiam que estavam lá para cumprir uma missão: defender o país. O senso de missão e o profissionalismo ajudam a manter o moral elevado e minimizar problemas de saúde mental."

HARLAN ULLMAN, veterano da Guerra do Vietnã, consultor senior do Atlantic Council e presidente do Killowen Group

 

  • Pedestres caminham diante de imenso painel de LED com boas vindas aos marinheiros
    Pedestres caminham diante de imenso painel de LED com boas vindas aos marinheiros Foto: Anthony Wallace/AFP
  • O USS Abraham Lincoln no Porto Laem Chabang, perto da cidade
    O USS Abraham Lincoln atracado no Porto Laem Chabang, perto de Pattaya: ferrugem evidente Foto: Anthony Wallace/AFP
  • Harlan Ullman, veterano da Guerra do Vietnã, consultor senior do Atlantic Council e presidente do Killowen Group
    Harlan Ullman, veterano da Guerra do Vietnã, consultor senior do Atlantic Council e presidente do Killowen Group Foto: Arquivo pessoal
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postado em 04/09/2026 05:00
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