
Depois de negociações diplomáticas que terminaram em fracasso, a guerra no Oriente Médio se intensificou nas últimas horas. Em retaliação ao bombardeio de cinco petroleiros iranianos, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou um ataque contra uma base dos Estados Unidos na Jordânia, além de disparos contra cerca de 20 navios no Golfo Pérsico. O recrudescimento do conflito entre Teerã e Washington teve efeito imediato nos mercados internacionais: o barril do petróleo tipo Brent do Mar do Norte disparou e passou de US$ 100.
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O presidente dos EUA sinalizou que as ações militares deverão se estender por pelo menos 56 dias. "Acredito que a guerra terminará imediatamente após as eleições (legislativas), pois o Irã não consegue resistir mais", declarou Donald Trump a jornalistas. A votação de 3 de novembro pode determinar a perda do controle do Partido Republicano sobre o Senado e a Câmara dos Representantes dos EUA.
"Foram atacadas as instalações de manutenção e reparo, áreas de preparação e locais dos caças F-35, F-16 e F-15, infligindo danos graves ao inimigo", afirmou a Guarda Revolucionária, em comunicado divulgado pela agência estatal de notícias IRNA. Segundo a agência de notícias France-Presse, o Exército jordaniano derrubou 18 dos 20 mísseis iranianos disparados contra o seu território — os outros dois teriam atingido "áreas desabitadas".
O ataque de Teerã não teria ficado restrito à Jordânia. A Guarda Revolucionária, o exército ideológico do regime teocrático islâmico, enviou um recado a Trump e, horas depois, o Irã bombardeou 20 embarcações que tentavam uma travessia do Estreito de Ormuz: dois navios americanos, oito petroleiros e outros 10 barcos.
Regionalização
Gunther Rudzit — professor de relações internacionais da ESPM — explicou ao Correio que o recrudescimento da guerra mostra que o conflito está cada vez mais regionalizado, envolvendo o Estreito de Ormuz, o Golfo Pérsico e outros atores da região. "Para Trump, o problema é transformar superioridade militar em resultado político: quanto mais a guerra se prolonga, maiores os custos econômicos e o risco de ele ficar preso a um conflito que consegue escalar, mas não consegue encerrar", avaliou. Ainda segundo Rudzit, a declaração de Trump sobre o fim do conflito depois de 3 de novembro mostra que a guerra está totalmente incorporada à disputa eleitoral americana. "Trump procura atribuir ao Irã a responsabilidade pelo prolongamento do conflito e pelos seus efeitos sobre o petróleo e o custo de vida. Mas a fala também cria uma contradição: se a guerra pode terminar imediatamente depois das eleições, a pergunta inevitável é: 'por que ela não poderia terminar antes?'."
Para Monique Sochaczewski, professora do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), a resposta iraniana a uma guerra deflagrada pelos Estados Unidos e por Israel foi adotar a linguagem de Trump — econômica —, com ataques ao Estreito de Ormuz e aos países árabes do Golfo Pérsico. Ela admitiu a existência de muita desinformação, ao advertir que não se sabe quantas nações da região foram atingidas de fato. "Trump é o responsável por essa guerra e está cada vez mais sem munição, sem interceptadores. Ele passa uma mensagem ao mundo, e em particular para a China, de que as Forças Armadas dos Estados Unidos, apesar de impressionantes, estão sem estratégia e sem liderança, gastando interceptadores, munição e armamentos", disse ao Correio, ao lembrar que esse material poderia ser útil em um cenário de invasão chinesa a Taiwan, por exemplo. "O Acordo de Meca, iniciativa de Turquia, Paquistão e Arábia Saudita, é um sinal claro de que, em função do desdobramento da guerra, aliados históricos da Casa Branca não se sentem mais protegidos."
Sochaczewski acrescentou que Trump está em uma situação muito delicada. "A guerra traz um custo econômico e de imagem. Mesmo entre aliados, é vista como uma guerra de escolha, como uma opção de Trump de ter se deixado levar por argumentos questionáveis de Israel. O conflito evidencia que será caro para Trump, em termos da política doméstica. Outro ponto tem a ver com Israel, que passará por eleições em 27 de outubro. O premiê Benjamin Netayahu precisa de guerras, pois, assim, desvia a atenção do atoleiro do 7 de outubro", avaliou, ao citar o massacre perpetrado pelo movimento islâmico Hamas.
Operações sauditas no Iêmen
Os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, informaram que mais de 50 ataques sauditas foram registrados em várias regiões do país, um dia após o grupo bombardear o reino petrolífero. A guerra no Iêmen entre os houthis e as forças pró-governo, suspensa por uma trégua desde 2022, também se intensificou nas últimas semanas. Desde o começo, em 2014, o conflito provocou centenas de milhares de mortes e deixou o país mais pobre da Península Arábica em uma grave crise humanitária. O cessar-fogo entre as partes, estabelecido em 2022, foi rompido em julho, quando o Iêmen entrou na guerra regional desencadeada pela ofensiva do fim de fevereiro dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Drone no caminho de Zelensky
Desde o início da guerra contra a Rússia, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, escapou de ser assassinado dezenas de vezes, segundo o governo de Kiev. A última delas ocorreu na terça-feira passada (8/9), quando o avião que levava Zelensky e a primeira-dama, Olena Zelenska, quase foi atingido por um drone no trajeto entre Moldávia e Oslo. Zelensky e a esposa viajavam à Noruega para o funeral do rei Harald. "O voo dele quase foi atingido por um drone quando decolava da Moldávia. Essa é a realidade em que ele vive", declarou Jonas Gahr Støre, primeiro-ministro norueguês, à emissora pública NRK.
Apesar da versão norueguesa, uma fonte da Presidência da Ucrânia classificou como "exageradas" as informações de que Zelensky teria sofrido perigo. "Foi um alerta na Moldávia, quando um drone russo entrou no espaço aéreo da Moldávia e da Romênia", explicou, sob condição de anonimato. Olexiy Haran, professor de política comparada da Universidade Kyiv-Mohyla (em Kiev), disse ao Correio não saber de onde o premiê Jonas Gahr Støre retirou a informação sobre a suposta tentativa de assassinato. "Não sabemos se foi um drone ou um ataque deliberado. Sabemos que houve tentativas anteriores de matar Zelensky no início da guerra", afirmou.
Ao ser questionado sobre o impacto para a Ucrânia de uma eventual morte de Zelensky, Haran reconheceu que "isso complicaria muito as coisas". No entanto, destacou que o presidente ucraniano está longe de ser uma unanimidade. "Os ucranianos estão lutando não por causa de Zelensky. Na verdade, Zelensky está lutando porque conta com o apoio dos ucranianos."
Acordo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o homólogo russo, Vladimir Putin, quer chegar a um acordo para pôr fim à guerra contra a Ucrânia. "Putin quer chegar a um acordo e, se Zelensky quiser chegar a um acordo, isso seria muito bom", disse Trump a jornalistas. "Eu entendo de acordos, e essas são duas pessoas que estão cansadas de lutar." As declarações foram feitas um dia depois de o Kremlin informar que Putin e titular da Casa Branca conversaram por uma hora sobre conflito na Ucrânia, por telefone. (RC)

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