VENEZUELA

Desconfiança cerca acordo com Trump

Chavistas e opositores se dividem sobre acerto que dará a empresas americanas preferêcia para explorar 20% das reservas de petróleo do país – as maiores do mundo. Nos EUA, o setor aguarda detalhes sobre os termos

A presidente interna Delcy Rodrigues cedeu prioridade para empresas americanas: mais rachas entre chavistas e opositores  -  (crédito: Federico Parra/AFP)
A presidente interna Delcy Rodrigues cedeu prioridade para empresas americanas: mais rachas entre chavistas e opositores  - (crédito: Federico Parra/AFP)

 A Casa Branca anunciou com alarde, no fim de agosto, um acordo pelo qual a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, cede a empresas norte-americanas prioridade na exploração de campos petrolíferos com reservas da ordem de 65 bilhões de barris. O montante corresponde a cerca de 20% das reservas comprovadas do país, que são as maiores do planeta.

"Estamos dobrando nossas reservas", comemorou o presidente Donald Trump, pressionado pela disparada nas cotações internacionais da commodity - e, por tabela, no preço da gasolina. Efeito inflacionário colateral da guerra iniciada por EUA e Israel contra o Irã, há seis meses, a alta pressiona o Partido Republicano a menos de dois meses das cruciais eleições legislativas.

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Trump apressou-se a festejar um rápido refluxo nos preços, mas a ausência de detalhes sobre os termos inibe os potenciais interessados. O anúncio oficial menciona investimentos da ordem de US$ 100 bilhões e o dobro em receitas de impostos para a Venezuela. Mas a vigência prolongada das concessões, de até 100 anos, não apenas intriga o setor petroleiro dos EUA.

Na Venezuela, setores do chavismo temem pela perda da soberania. Entre os opositores, fermenta a desconfianca de que o acordo dê sobrevida ao regime, após o baque sofrido com a captura, pelos EUA, do presidente Nicolás Maduro, nos primeiros dias do ano.

Sob tutela

A cientista politica venezuelana María Isabel Puerta, professora na Universidade do Colorado (EUA), compara a relação estabelecida desde então com um regime de protetorado. "Considero uma descrição adequada", disse ao Correio. "Mas acrescentaria que se trata de um protetorado sobre Delcy Rodríguez", observa. "O que esse acordo deixa claro é que, para Trump, o governo dela serve para facilitar negociações econômicas que beneficiem Washington, mais do que para estabilizar a Venezuela."

Roberto Uebel, professor de relações na ESPM, faz reservas ao termo "protetorado", pelas implicações jurídicas embutidas. "Penso que tutela faz mais sentido, no momento, algo que o próprio secretário de Estado (dos EUA), Marco Rubio, tem enfatizado desde a captura de Maduro", afirmou à reportagem. Ele lembra o grau elevado de ingerência dos EUA sobre o setor petroleiro do país, bem como sobre ativos e fluxos financeiros. "Temos uma soberania venezuelana preservada formalmente, mas bastante limitada, na prática, pela assimetria de poder com Washington."

Dilemas

Ambos os estudiosos veem no acordo, saudado por Trump como "o maior da história da indústria petroleira", uma encruzilhada para os herdeiros políticos de Maduro e do chavismo. A professora venezuelana lembra que o partido governista votou para aprovar o acordo na Assembleia Nacional. Mas, pondera, "essa aliança entre Trump e Delcy é insustentável, ideologicamente, e pode comprometer o chavismo como força política crível": a presidente interina e a cúpula partidária "não teriam como justificar essa virada".

"Existe uma contradição evidente entre décadas de discurso anti-imperialista e um acordo dessa magnitude com Washington", reforça o estudioso da ESPM. Uebel avalia que o comando militar e o líder chavista Diosdado Cabello, homem de confiança de Maduro e de Hugo Chávez, vêm dando apoio e aval a Delcy, até aqui. "Mas isso pode provocar, no futuro, fissuras e desgastes eleitorais" aponta.

Uma expressão desse risco está na condenação manifestada por Rafael Ramírez, que foi presidente da estatal petroleira PDVSA e ministro do setor no governo de Chávez. Para ele, o acordo assinado pela presidente interina "entrará para a história por ser entreguista e abrir as portas para o novo colonialismo" dos EUA.

No extremo oposto do espectro político, o economista venezuelano Ricardo Haussmann, professor da Escola de Governo da Universidade Harvard e antichavista declarado, dirigiu mensagem publica — e indignada — ao secretário de Estado Marco Rubio. "Você decidiu usar o poder dos EUA não para libertar os venezuelanos, mas para se aliar aos nossos opressores", acusou, em postagem na rede social X. "Optou por promover uma apropriação de ativos e um acordo inconstitucional com um governo ilegítimo e opressivo, em vez de usar sua liderança para, primeiro, restabelecer a ordem constitucional e a democracia", protestou.

EU ACHO...

Professor de relações internacionais da ESPM
Professor de relações internacionais da ESPM (foto: Arquivo pessoal)

Roberto Uebel, professor de relações internacionais da ESPM

É uma oportunidade econômica acompanhada de elevado risco político e jurídico.  Contratos de 25 ou até 100 anos atravessarão vários governos nos dois países. Investimentos bilionários dependerão de garantias jurídicas e estabilidade institucional.

Cientista política da Universidade do Colorado (EUA)
Cientista política da Universidade do Colorado (EUA) (foto: Arquivo pessoal)

María Isabel Puerta, cientista política da Universidade do Colorado (EUA)

Nos EUA, há muita desconfiança sobre o acordo, porque não se sabe como o Departamento de Defesa vai operar. Além disso, segundo as leis venezuelanas, os termos e as condições são inaceitáveis. Na minha opinião, ele é insustentável.

  • Professor de relações internacionais da ESPM
    Professor de relações internacionais da ESPM Foto: Arquivo pessoal
  • Cientista política da Universidade do Colorado (EUA)
    Cientista política da Universidade do Colorado (EUA) Foto: Arquivo pessoal
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postado em 14/09/2026 05:02
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