
Entre os moradores da Faixa de Gaza, o medo converge a uma palavra: expulsão. O receio encontra fundamento em um anúncio feito, em 3 de setembro passado, pelo ultradireitista Itamar Ben-Gvir. O ministro da Segurança Nacional de Israel revelou as bases do que chamou "Desengajamento 710" — uma alusão ao massacre de 7 de outubro de 2023. O plano do assessor do premiê Benjamin Netanyahu envolve a remoção de 250 mil cidadãos palestinos do enclave no primeiro ano; com mais 1,86 milhão até 2033. Israel Katz, titular da Defesa israelense, também renovou os apelos para que os Estados Unidos apoiem a remoção em massa dos palestinos de Gaza. O chanceler Gideon Sa'ar destoou de Ben-Gvir e de Katz e garantiu que a população do enclave não será forçada a sair. No entanto, sublinhou que o Estado judeu não colocará oposição a uma retirada voluntária de palestinos em direção a países vizinhos.
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O jornalista freelance Hassan Marwan Ayesh, 27 anos, reconhece um de seus maiores temores: uma expulsão da Faixa de Gaza. "Isso não é uma discussão política abstrata para mim, mas uma ameaça à minha casa, à minha família, à minha identidade e à minha vida inteira", desabafou ao Correio o morador da Cidade de Gaza. A história de Ayesh se confunde com a de tantos palestinos. Ele os familiares foram deslocados muitas vezes entre o norte de Gaza e a capital. "Nossa casa foi destruída. Nós permanecemos aqui porque Gaza é nossa pátria, não um lugar que podemos simplesmente abandonar. Não queremos ser forçados a um outro Nakba ou a nos tornar refugiados uma vez mais", acrescentou.
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Nour Al-Huda fugiu da Cidade de Gaza e hoje divide uma tenda com o marido e a família dele em Al-Mawasi, no sul do território palestino, próximo a Rafah. Assim como Ayesh, Al-Huda disse que a possibilidade de uma saída forçada de Gaza a assusta "profundamente". "Estamos exaustos do deslocamento, da migração, de perder nossas casas e nossas vidas normais e de não termos lugar nenhum para ir", afirmou ao Correio. "Não quero deixar Gaza, não quero viver com o pensamento de ser obrigada a abandonar minha terra e meu país. Quero viver em segurança na minha casa, entre minha família, e levar uma vida normal, como qualquer outro ser humano."
Segundo Al-Huda, as condições de vida dos moradores de Gaza — medo, destruição, forme e deslocamento — podem fazer com que qualquer pessoa sinta-se compelida a abandonar o local onde vive. "Espero que o mundo não trate isso como apenas outro item de notícia política. Atrás de cada pessoa em Gaza há um lar, memórias, uma família, uma vida e uma terra que não peremos perder novamente. O que mais temo é ser forçada a deixar Gaza e nunca mais ser capaz de retornar."
Porta-voz da Defesa Civil de Gaza, Mahmoud Basal disse que "Israel não tem o direito" de expulsá-lo de sua terra. "Eu defenderei esse direito usando todos os meios legítimos para impedir que isso ocorra", assegurou ao Correio.
"Genocídio"
Para Richard Falk, relator especial da ONU sobre a Palestina Ocupada (2008-2014) e professor emérito de direito e relações internacionais da Universidade de Princeton (em Nova Jersey), a situação da população de Gaza é "deplorável". "Há um genocídio em curso e evidente. Apesar da aceitação do plano de diplomacia de paz de 20 pontos de Trump e da imposição de um cessar-fogo em 10 de outubro de 2025, as mortes de palestinos continuam diariamente — inclusive com crianças sendo alvo de ataques, totalizando mais de mil mortes confirmadas. Com o passar do tempo, os palestinos têm enfrentado condições desesperadoras e adversas, incluindo a escassez crítica — com risco de vida — de alimentos, suprimentos médicos e água potável, além de viverem em tendas precárias, que oferecem pouca proteção contra tempestades e variações de temperatura, resultando em uma devastação ecológica total em Gaza."
Também presidente do Tribunal de Gaza (tribunal de consciência e de opinião pública que investiga e documenta crimes de guerra de Israel), Falk explicou que o plano do presidente dos EUA, Donald Trump, busca excluir os palestinos da administração política de Gaza, durante um período de transição, no qual o território seria ocupado por uma Força Internacional de Estabilização. "O plano evita endossar diretamente a expulsão dos palestinos de Gaza, oferecendo-lhes a opção de partir com direito de retorno. Vários fatores sugerem que Israel buscará ir além das ambiguidades do Plano Trump no que diz respeito à presença palestina em Gaza. Em primeiro lugar, as condições ecológicas existentes em Gaza tornam esse território praticamente inabitável para os palestinos — especialmente para aqueles que estão criando filhos e se encontram em uma fração de Gaza que era, anteriormente, perigosamente superlotada", comentou.
"Em segundo lugar, os líderes israelenses apontam a expulsão dos palestinos ou a ocupação permanente de Gaza como as únicas políticas aceitáveis na busca por um futuro pacífico para Israel. Em terceiro, uma expulsão ajudaria a neutralizar o que os israelenses chamam de 'bomba demográfica' — a qual, devido às altas taxas de fertilidade palestinas, ameaça a maioria judaica, em declínio na Palestina como um todo", acrescentou. Por fim, Falk admitiu que a migração forçada daria maior estabilidade à busca sionista por um Estado de supremacia judaica — conforme preconizado na Lei Básica de Israel de 2018 — e tornaria o estabelecimento de uma "Grande Israel", incorporando a Cisjordânia, mais solidamente judaico ao longo do tempo.
Vozes palestinas
Hassan Marwan Ayesh, 27 anos, jornalista palestino, morador da Cidade de Gaza
"É claro que sinto medo e incerteza, especialmente em relação à minha família, mas também sinto a responsabilidade de permanecer conectado à min
Três perguntas para
Richard A. Falk, ex-relator especial da ONU sobre a Palestina, presidente do Tribunal de Gaza e professor emérito de direito e relações internacionais da Universidade de Princeton (Nova Jersey)
Como o senhor vê o plano de migração voluntária de moradores de Gaza defendido por Itamar Ben-Gvir?
Se eu fosse palestino, não depositaria nenhuma confiança no "plano de migração voluntária" proposto por Ben-Gvir. Isso significaria aceitar um exílio permanente da terra natal, que é direito de nascimento dos palestinos, e a supremacia de Israel, mesmo que acompanhada de incentivos financeiros. Além disso, uma leitura atenta do plano, divulgado com grande alarde no início de setembro, sugere que sua implementação não é "voluntária" em nenhum sentido relevante. O plano divulgado sob o nome "Desengajamento 710" exige que países estrangeiros estejam preparados para acolher um determinado número de palestinos e conceder-lhes certo grau de reconhecimento jurídico ao chegarem. Segundo Ben-Gvir, vários países estão dispostos a participar do acolhimento de palestinos e receberão pagamentos de Israel por isso.
Quantos palestinos de Gaza migrariam, segundo o plano?
A emigração seria incentivada por meio de subsídios e, onde necessário, pela coerção. A ideia de Ben Gvir é que ela seja feita em sete anos. No primeiro ano, 250 mil palestinos emigrarão; em três anos, 1,1 milhão; e, ao fim de sete anos, projeta-se que 1,86 milhão de palestinos terão emigrado, enquanto o pequeno contingente não abrangido pelo programa partirá por meios próprios.
Na sua opinião, quais são as intenções reais de Israel?
Ao longo de sua história, o movimento sionista esperou por boas oportunidades para perseguir suas ambições expansionistas. Aceitou a Declaração Balfour após a Primeira Guerra Mundial, a qual continha uma promessa britânica de um lar nacional judaico. Após a Segunda Guerra Mundial, a liderança sionista aceitou a proposta de partilha da ONU, que dividia a Palestina — então sob domínio otomano e, posteriormente, sob mandato — em Estados separados, com Jerusalém como cidade internacional. Mais tarde, após a Guerra de 1967, o país não apenas incorporou unilateralmente toda a Jerusalém a Israel, mas também apresentou reivindicações territoriais para exercer controle soberano sobre as Colinas de Golã, que anteriormente faziam parte da Síria. Mais recentemente, Israel deixou claro que busca incorporar a Cisjordânia por meio da anexação e repudiar formalmente qualquer intenção de permitir o surgimento de um Estado palestino viável. Semanas antes do ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro, Benjamin Netanyahu havia exibido um mapa do que chamou de "Novo Oriente Médio", no qual a realidade palestina estava completamente apagada. Não há indícios de que ele tenha abandonado esse objetivo. (RC)
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