Papa na França

Leão XIV pede paz na Europa e alerta contra "ilusão do rearmamento"

No encerramento da visita de quatro dias, Leão XIV faz um chamado pela paz e adverte para a "ilusão do rearmamento", no momento em que a Europa aumenta os gastos militares em nome de combater o que enxerga como a ameaça da Rússia

O pontífice celebra missa na catedral de Metz, última escala na França: alerta contra os gastos militares em escalada -  (crédito: Simone Risoluti/Vatican Media/AFP)
O pontífice celebra missa na catedral de Metz, última escala na França: alerta contra os gastos militares em escalada - (crédito: Simone Risoluti/Vatican Media/AFP)

Primeiro papa a visitar a França em duas décadas, Leão XIV despediu-se de um dos países mais firmemente ancorados no Estado laico com considerações com um tema bem menos espiritual ou ético do que os abordados nas primeiras escalas da viagem. Depois de falar sobre inteligência artificial, morte assistida e inclusive sobre os abusos sexuais no âmbito da Igreja, em Paris e no santuário de Lourdes, o pontífice despediu-se, em Metz, com um apelo à paz na Europa e uma advertência contra o que chamou de "a ilusão do rearmamento" — no momento em que os países do Velho Mundo, em nome dos compromissos com os Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), anunciam em série a elevação dos próprios orçamentos para a pasta da Defesa.

"Infelizmente, também na Europa, a guerra reapareceu nesta época: um novo 'massacre inútil' que a cada dia causa inúmeras vítimas civis", afirmou o papa americano-peruano, retomando uma expressão cunhada por Bento XVI. No caso, Leão XIV referia-se à guerra na Ucrânia, que se aproxima de completar cinco anos. "É preciso nos comprometermos com um diálogo paciente, mostrarmos audácia na negociação e estarmos dispostos a sacrificar algumas posições pelo bem maior da paz", acrescentou o pontífice, cujo pai, como militar norte-americano, participou do desembarque aliado na Normandia francesa, em junho de 1944, episódio capital da Segunda Guerra Mundial.

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A escolha de Metz, que França e Alemanha disputaram do final do século 19 até meados do século 20, não foi acaso. Nessa região nasceu Robert Schuman (1886-1963), um dos chamados "pais fundadores" da União Europeia (UE), que o Vaticano pretende beatificar. O projeto de integração continental, que nasceu dos escombros de uma Europa devastada, perdeu força nos últimos anos, em consequência da crise política aberta com a chegada em massa de migrantes, a saída do Reino Unido da UE e as divergências sobre a atitude a ser adotada em relação à Rússia de Vladimir Putin.

"Hoje em dia, as relações humanas e entre os Estados tornam-se cada vez mais bárbaras", observou o pontífice, pedindo que a Europa ponha fim à "espiral" de "mentira e engano", em uma crítica velada a políticos considerados populistas — como o presidente de seu país natal, Donald Trump. Após reafirmar o apoio "ao direito internacional e ao multilateralismo", Leão XIV apelou pela "integração" dos imigrantes e alertou contra "a ilusão do rearmamento", no um momento em que os países europeus aumentam os gastos militares frente a uma Rússia que se apresenta cada vez mais desafiadora.

O presidente francês, Emmanuel Macron, convidou, sem sucesso, outros líderes da UE para o evento: apenas Luxemburgo compareceu. O anfitrião pediu aos parceiros que não cedam ao "retorno dos nacionalismos" que alimentaram as duas grandes guerras do século 20. A França, como outros países de peso político, tem partidos de extrema-direita em ascensão. A sete meses da disputa presidencial francesa, com a líder de extrema-direita Marine Le Pen à frente nas pesquisas, o papa fez um pedido à Virgem de Lourdes: "Conceda à França governantes sábios e generosos, que mantenham o país em paz no concerto das nações".

A mensagem de paz do líder espiritual de 1,4 bilhão de católicos chegou aos 35 mil fiéis que o aclamaram nas ruas de Metz e na catedral, onde o pontífice celebrou uma missa antes de partir para Roma. "Só faz falta que os dirigentes sigam seu exemplo", exclamou Bernard Adam, de 70 anos, à passagem do papamóvel.

 


Fiança para suspeitos de terrorismo

Os cinco suspeitos presos no domingo e acusados de "preparar um ato terrorista" perto de uma base militar britânica usada pelos Estados Unidos em Fairford, no sudoeste da Inglaterra, foram libertados ontem, sob fiança, anunciou a polícia antiterrorista britânica. "Isso não significa que a investigação terminou", disse o chefe da força, Laurence Taylor, especificando que os "movimentos e contatos" dos cinco com outras pessoas estarão "sujeitos a condições rigorosas".

Enquanto isso, o Irã negou categoricamente, na rede social X, qualquer envolvimento em um plano para atacar a base militar, após diversos veículos da imprensa britânica noticiarem que a polícia estava investigando um possível envolvimento do país. Os investigadores do caso "tentam determinar se os suspeitos têm vínculos com o Irã", escreveu o jornal londrino The Times. Segundo o diário The Telegraph, a polícia "suspeita" de que o Irã é "o mais provável responsável" pelo plano de ataque à base da Royal Air Force (RAF) em Fairford, utilizada pelos Estados Unidos na guerra que iniciou em fevereiro contra a República Islâmica.

De acordo com a polícia antiterrorista, os suspeitos são cidadãos britânicos, com idade entre 23 e 25 anos, e residentes em Londres. "Estamos examinando todas as hipóteses possíveis, inclusive a de que eles agiram, consciente ou inconscientemente, em nome de um governo estrangeiro", disse Laurence Taylor. No domingo, questionado sobre os supostos envolvidos, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse "saber tudo" sobre eles.

Em março, o Reino Unido autorizou os EUA a utilizarem Fairford para "operações defensivas específicas dirigidas contra o Irã", com o objetivo de destruir mísseis de Teerã. Em julho, a Guarda Revolucionária iraniana ameaçou atacar a base, advertindo que qualquer instalação utilizada para lançar ataques contra o país constituiria um "objetivo legítimo", segundo o Telegraph.

A polícia foi alertada sobre os detidos por uma agricultora que vive perto da base. A mulher contou à emissora pública BBC que tinha visto "um grupo de homens mascarados" quando voltava para casa. "Ciente de que havia uma ameaça à segurança da base", a mulher, que não quis se identificar, chamou a polícia, explicou uma autoridade.

Fairford é a base britânica da 501ª Ala de Apoio de Combate, uma unidade administrativa da Força Aérea americana. Ela já havia sido utilizada na primeira Guerra do Golfo, em 1991, e na invasão do Iraque, em 2003.

"Não é fake news"

Durante o voo de retorno ao Vaticano, Leão XIV reiterou a advertência que havia feito na sexta-feira, após desembarcar em Paris, sobre os riscos apresentados pelo rápido desenvolvimento da inteligência artificial. Embora não tenha mencionado pelo nome o presidente dos Estados Unidos, rebateu um dos argumentos principais de Donald Trump quando se opõe a qualquer regulação sobre a nova tecnologia. "Os alertas não são fake news", disse o papa aos jornalistas a bordo. "Se alguém me perguntasse: 'Você está em pânico?' Não, não estou. Durmo à noite", disse. "Mas, sim, acredito que as preocupações levantadas por muitos especialistas em IA devem ser levadas a sério." Durante a visita à França, o pontífice norte-americano falou em "não perdermos nossa humanidade em meio ao 'paraíso das máquinas', que invade e condiciona nossa vida cotidiana".

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postado em 29/09/2026 05:00
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