Entrevista | Musa Hadid | vice-presidente do Conselho Nacional Palestino

'Silêncio é cumplicidade', diz vice do Conselho Nacional Palestino

Em recente visita a Brasília, ex-prefeito de Ramallah e número dois do Parlamento palestino denuncia limpeza étnica na Cisjordânia, ataca plano de Israel para expulsar moradores da Faixa de Gaza e cobra ações concretas do governo brasileiro

Vice-presidente do Conselho Nacional Palestino (o Parlamento palestino), Musa Hadid, 61 anos, ocupou o cargo de prefeito de Ramallah (Cisjordânia) entre 2012 e 2022. Em recente passagem por Brasília, ele visitou membros da comunidade palestina e convidou as autoridades brasileiras para acompanharem as eleições legislativas, em 28 de novembro de 2026. Também se reuniu com o embaixador Carlos Duarte, secretário de África e Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores, e com o embaixador Clélio Nivaldo Crippa Filho, chefe do Departamento de Oriente Médio do Itamaraty. Durante a agenda, Hadid falou ao Correio sobre a expansão de assentamentos judaicos na Cisjordânia, a ameaça de membros do governo israelense de expulsar a população da Faixa de Gaza e o papel do Brasil na defesa da causa palestina. De acordo com Hadid, a construção de colônias na Cisjordânia visa inviabilizar a criação de um Estado palestino territorialmente contíguo. O vice-presidente do Conselho Nacional Palestino também denunciou o plano de expulsão de moradores da Faixa de Gaza e cobrou sanções a colonos judeus, além de responsabilização de Israel. Hadid advertiu que o povo palestino não aceitará uma nova Nakba — termo usado para designar o deslocamento forçado, a expulsão e a desapropriação de centenas de milhares de palestinos durante a criação do Estado de Israel em 1948. Ele fez um alerta à comunidade internacional ante as últimas políticas israelenses em Gaza e na Cisjordânia: "Quando as intenções (de Israel) já foram explicitadas, o silêncio passa a assumir uma forma de cumplicidade".

Parte da comunidade internacional denuncia uma limpeza étnica na Cisjordânia. O que de fato acontece lá?

O que ocorre na Cisjordânia não é diferente do que acontece na Faixa de Gaza. O que está ocorrendo em Jerusalém e na Cisjordânia não pode ser tratado como uma série de incidentes isolados ou excessos individuais, mas como parte de uma política integrada destinada a alterar a natureza da terra e de sua população. Os assassinatos, a expansão dos assentamentos, a apropriação de terras, a demolição de casas, o deslocamento e o isolamento de comunidades palestinas, bem como o terrorismo de colonos, sob a proteção do exército de ocupação, são instrumentos que pressionam os palestinos a abandonar suas terras. Tambémimpedem a criação de um Estado palestino territorialmente contíguo e viável.Quando as pessoas são sistematicamente obrigadas a deixar suas terras em razão da violência, do medo, do cerco e da privação das condições básicas de vida, é preciso chamar as coisas pelo seu nome: trata-se de deslocamento forçado e de limpeza étnica. Ambos são conduzidos de forma gradual e estão inseridos em um plano que a potência ocupante busca implementar progressivamente.

Como o senhor avalia a proposta feita pelos ministros Itamar Ben-Gvir (Segurança Nacional) e Israel Katz (Defesa) de uma expulsão progressiva de palestinos da Faixa de Gaza?

Tais declarações devem ser tratadas com a máxima seriedade. Elas não partem de figuras marginais, mas de ministros que integram o governo israelense, dispõem de instrumentos executivos e exercem influência direta sobre a formulação de decisões políticas, de segurança e militares. Não é possível considerar suas declarações apenas como retórica eleitoral ou disputa política interna. Até o momento, Israel matou 75 mil palestinos e deslocou cerca de dois milhões de pessoas. Depois de destruir amplas áreas da Faixa de Gaza; de enfraquecer suas condições básicas de vida; de cercar sua população e privá-la de alimentos, de água, de medicamentos e de abrigo.Transformaramo território em um lugar praticamente inabitável. Então, surgem aqueles que propõem que essas pessoas deixem sua pátria, e chamam isso de "migração voluntária".

O que há de "voluntário" nesse plano?

Uma pessoa colocada diante da escolha entre partir ou enfrentar a morte, a fome ou uma vida em meio à destruição não está fazendo uma escolha livre. Isso não é migração voluntária, mas deslocamento forçado, sob pressão da catástrofe humanitária.Isso representa uma extensão direta da lógica da Nakba sofrida pelo povo palestino em 1948, embora agora seja apresentada por meio de novos instrumentos e denominações. O povo palestino não aceitará uma segunda Nakba, seja ela executada de uma só vez ou de forma gradual, seja chamada de deslocamento, migração ou reassentamento.

Como os países devem reagir a isso?

A responsabilidade não recai apenas sobre Israel. A comunidade internacional tem conhecimento dessas intenções declaradas e, se esperar até que sua implementação comece, não poderá alegar que desconhecia o que estava sendo planejado. É necessária uma ação política e jurídica clara, a fim de impedir que o governo de ocupação implemente seus planos destinados a esvaziar a terra palestina de sua população nativa, proteger a presença palestina e responsabilizar aqueles que planejam ou promovem esse crime. Quando as intenções já foram explicitadas, o silêncio passa a assumir uma forma de cumplicidade.

Ed Alves/CB/D.A Press - Mundo. Entrevista. Musa Hadid, vice-presidente do Conselho Nacional Palestino.

A causa palestina é negligenciada?

É importante distinguir entre os povos do mundo e as posições adotadas por determinados governos. A questão palestina não desapareceu da consciência dos povos. Nos últimos anos, testemunhamos uma expansão significativa da solidariedade à Palestina em universidades, sindicatos, parlamentos e movimentos da sociedade civil, bem como entre amplos setores da juventude em diferentes continentes. Há uma transformação real na opinião pública mundial, inclusive em sociedades nas quais a narrativa israelense permaneceu dominante por décadas. O problema é que essa mudança na opinião pública não se refletiu, de forma suficiente, nas políticas dos governos. Muitos países falam em direito internacional, em solução de dois Estados e em direitos humanos, mas hesitam em adotar medidas concretas quando a potência ocupante viola esses mesmos princípios. Alguns chegam a oferecer cobertura política ou apoio militar e econômico a Israel e, posteriormente, limitam-se a expressar preocupação diante das consequências.Essa contradição é o que encorajou Israel a continuar suas políticas. Quando não há custos para a ocupação, a expansão dos assentamentos ou a morte de civis, o direito internacional corre o risco de se transformar em um simples texto de caráter moral, sem força efetiva.

Então, o que o senhor espera?

Não pedimos tratamento excepcional, nem que o mundo adote a narrativa palestina por motivos emocionais. Pedimos apenas que as mesmas regras aplicadas aos demais Estados sejam aplicadas também a Israel. Não é mais aceitável que Israel permaneça fora do alcance da responsabilização e da prestação de contas. Tampouco é suficiente emitir declarações de condenação. O que se exige são medidas concretas que garantam a responsabilização, interrompam o fornecimento dos instrumentos utilizados pela ocupação contra o nosso povo, imponham sanções aos colonos e às entidades que os apoiam, protejam os civis e transformem o reconhecimento do Estado da Palestina em uma posição que produza efeitos concretos no terreno.

E  quais as expectativas do senhor em relação ao Brasil?

O Brasil ocupa lugar especial para o povo palestino. É um país de grande relevância, com uma história de defesa do direito internacional e dos direitos dos povos, além de exercer influência importante na América Latina, entre os países do Sul Global e no âmbito do Brics. Valorizamos as posições brasileiras em apoio ao direito do povo palestino à liberdade e à independência, assim como o reconhecimento do Estado da Palestina e a defesa de uma solução política justa.Acreditamos, porém, que o momento atual exige mais do que posições de princípio, por mais importantes que sejam. Os assentamentos deixaram de ser apenas um obstáculo à paz e passaram a constituir um instrumento para a anexação de fato da Cisjordânia e para impedir a criação de um Estado palestino. Por isso, esperamos que o Brasil desempenhe um papel capaz de transformar a condenação política em medidas concretas.O Brasil pode apoiar os mecanismos de responsabilização no âmbito daONU e das instituições judiciais internacionais, rejeitar a importação de produtos provenientes dos assentamentos ou as relações com empresas que contribuam para sua construção e financiamento, bem como apoiar a imposição de sanções aos colonos e às entidades que os protegem e apoiam. Também pode utilizar sua presença no Brics para construir uma posição coletiva mais efetiva diante das políticas de anexação e deslocamento forçado. Esperamos ainda que o Brasil contribua para a proteção da solução de dois Estados, não apenas como um lema diplomático, mas por meio da proteção da própria terra sobre a qual o Estado palestino deverá ser estabelecido. Não faz sentido falar em um Estado palestino no futuro, enquanto, diariamente, se apropriam das terras destinadas à sua existência.

É possível estabelecer um governo na Palestina sem papel do Hamas?

A questão fundamental não é saber se o governo será composto por esta ou aquela facção, mas de que tipo de governo o povo palestino necessita, nessa etapa, para enfrentar os desafios impostos pela ocupação e sobre quais bases ele deve ser formado. Precisamos de um governo nacional, competente e eficiente, que trabalhe em benefício do cidadão, unifique as instituições da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, conduza o processo de reconstrução da Faixa de Gaza, enfrente as consequências da guerra e da divisão e garanta segurança e proteção à população.Não acredito que o próximo governo deva ser formado com base em uma divisão de cargos entre as diferentes facções. O governo não é um prêmio a ser distribuído entre as forças políticas, mas um instrumento para servir à população e implementar um programa nacional claro, sujeito à prestação de contas perante instituições eleitas.

Quais as exigências para que facções palestinas se insiram na vida política?

A participação de qualquer facção palestina na vida política deve ocorrer dentro de regras claras, às quais todos estejam comprometidos: recorrer às eleições, aceitar seus resultados, respeitar o pluralismo político e comprometer-se com o programa da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), como representante legítima e única do nosso povo. Isso deve ser feito com base na unidade da autoridade, da lei e da decisão em matéria de segurança, e na inexistência de armas ou instituições paralelas fora do marco da legitimidade nacional.O princípio fundamental é que nenhuma facção, independentemente de seu tamanho, tem o direito de decidir sozinha o futuro do povo palestino. Esse direito pertence exclusivamente ao povo, por meio das forças e representantes que emergirem das urnas.

Em 2027, a Palestina realizará eleições gerais. Quem são os principais candidatos a suceder o presidente Mahmud Abbas?

É natural que diversos nomes sejam cogitados pela imprensa e nos meios políticos, mas considero prematuro apontar candidatos ou avaliar suas chances antes do início do processo eleitoral. Isso poderia reduzir uma questão nacional de grande importância a uma simples disputa entre indivíduos. A Palestina não precisa apenas de uma transição de um presidente para outro, mas de uma renovação abrangente da legitimidade política e institucional. Nosso povo foi privado de eleições gerais por um longo período e, por isso, as próximas eleições devem representar uma oportunidade para recuperar a confiança dos cidadãos em suas instituições, unificar o sistema político, pôr fim à divisão e abrir espaço para uma nova geração de lideranças.As eleições também devem incluir todos os palestinos da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, e da Faixa de Gaza. A comunidade internacional deve garantir que Israel não possa obstruir o processo eleitoral, prender candidatos ou impedir campanhas políticas e eleitorais. Quanto ao próximo presidente, ele deverá contar com uma verdadeira legitimidade popular, experiência política e capacidade de unir o povo palestino. Precisamos de um presidente que proteja a independência da decisão nacional, reconstrua as instituições com base no Estado de Direito e combine firmeza na defesa dos direitos nacionais e a capacidade de dialogar com o mundo em uma linguagem política realista e influente.Por isso, a questão mais importante não é quem sucederá o presidente Mahmoud Abbas, mas como garantir que o povo palestino possa escolher livremente seu presidente e sua liderança e que essa escolha seja respeitada, tanto interna quanto internacionalmente. Os nomes devem ser decididos pelos eleitores; nossa responsabilidade é garantir eleições verdadeiras.

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