Igreja Católica

Papa Leão XIV aguarda exames de tumor e inicia recuperação

Leão XIV espera resultado da análise dos linfonodos, após o diagnóstico de adenocarcinoma e a retirada de parte do pulmão direito. Vaticanista destaca transparência da Santa Sé sobre a saúde. Médicos oncologistas falam ao Correio

Mulher reza diante da estátua do papa João Paulo II, do lado de fora do Hospital Gemelli, em Roma, onde Leão XIV foi operado  -  (crédito: Tiziana Fabi/AFP)
Mulher reza diante da estátua do papa João Paulo II, do lado de fora do Hospital Gemelli, em Roma, onde Leão XIV foi operado - (crédito: Tiziana Fabi/AFP)

Depois de ser submetido a uma cirurgia para a retirada de um adenocarcinoma — o tipo mais comum de câncer pulmonar — e do lobo direito inferior do pulmão, o papa Leão XIV aguarda os resultados do exame dos linfonodos (estruturas que filtram a linfa e fazem parte do sistema imunológico). A análise será capaz de apontar se houve espalhamento do tumor, além de determinar o estágio exato da doença e os possíveis tratamentos a seguir, como a radioterapia. A forma com que o Vaticano tem lidado com a saúde do pontífice indica transparência. A evolução do quadro clínico é considerada "normal". Por meio de um comunicado, Luigi Carbone e Stefano Margaritora, os médicos que operaram Leão XIV, anunciaram que os testes sanguíneos e uma radiografia torácica foram "conformes à norma". 

A Santa Sé divulgou a primeira mensagem do pontífice depois da cirurgia. "Como sabem, não pude estar entre vocês nestes dias. Agradeço sinceramente pelas suas orações e pelo trabalho que realizaram juntos. A partilha de experiências e a escuta atenta são, de fato, um dom para toda a Igreja. (...) Ao confiar cada um de vocês à proteção da Sagrada Família de Nazaré, peço-lhes, por favor, que rezem por mim, assim como eu rezo por vocês", escreveu. O sumo pontífice, de 71 anos, tomou café da manhã, almoçou, caminhou pelo quarto e foi submetido a uma fisioterapia respiratória. Também ajudou a celebrar uma missa no décimo andar do Hospital Gemelli, em Roma, onde deverá ficar internado por pelo menos uma semana.  

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Especialista em Vaticano e doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana (em Roma), Filipe Domingues vê continuidade da transparência na Santa Sé. "Durante o pontificado de Francisco, havia uma explicação até detalhada demais sobre a saúde dele. Teve um momento que citaram uma broncoaspiração e uma parada cardíaca. Isso é um nível de detalhe que, em um passado remoto, inexistia no Vaticano. A saúde do papa, do ponto de vista institucional, é tratada como um tema pessoal. Ele decide o que deseja expor ou não", explicou ao Correio. 

Domingues lembrou que o papa João Paulo II enfrentou vários problemas de saúde e pouco foi revelado pela Santa Sé. "Nós sabíamos quando havia uma complicação. Francisco, que apareceu de cadeira de rodas, mostrando uma fragilidade, passou a delegar funções. Na parte médica, Francisco pediu que tudo fosse muito claro. Um detalhe importante, no pontificado de Leão XIV, é a ação de deixar com os médicos essa comunicação", observou. 

Espalhamento 

Médico oncologista da Califórnia e professor da Universidade da Califórnia, Irvine, Sai-Hong Ignatius Ou explicou ao Correio que o Vaticano deverá ter em mãos os resultados da análise dos linfonodos de Leão XIV até amanhã. "Não se sabe se o Vaticano divulgará a eventual extensão da propagação. A notícia pode indicar que o tumor se espalhou para os linfonodos, mas não sabemos se a doença é de estágio N1 ou N2; sendo que o N2 representa uma disseminação a maior distância", explicou ao Correio. "Será importante identificar a alteração genômica acionável (AGA) subjacente no tumor. A probabilidade de haver uma AGA é muito alta, visto que o Papa Leão XIV não é fumante e, pelo que sei, seus parentes em Chicago não têm histórico de câncer de pulmão", acrescentou. 

Sai-Hong considera que o prognóstico do líder católico "parece excelente". "A presença de uma AGA passível de tratamento direcionado ao tumor permitiria que o paciente se beneficiasse de uma terapia adjuvante com inibidores de tirosina-quinase", afirmou. "O fato de os cirurgiões terem optado por uma lobectomia do lobo inferior direito, em vez de uma biópsia por agulha, sugere que a lesão é grande o suficiente para que eles quisessem removê-la." Segundo ele, cânceres de pulmão nos lobos superiores têm menor chance de disseminação do que os situados nos lobos inferiores, visto que os sistemas de drenagem linfática são mais extensos nos lobos inferiores.

Chefe da Unidade de Cirurgia do Tórax e da Cabeça da Universidade de Roma Sapienza, Federico Venuta foi cauteloso. "Precisamos aguardar o laudo anatomopatológico final e o perfil biomolecular. Do ponto de vista físico, a recuperação é relativamente rápida", disse ao Correio. Segundo ele, em casos como o de Leão XIV, a alta ocorre entre três e sete dias depois da cirurgia. Venuta explicou que não existe um único tipo de adenocarcinoma. Por isso, ele reforçou que a remoção de todos os linfonodos é fundamental para permitir o tratamento adequado da lesão.

EU ACHO...

Filipe Domingues, especialista em Vaticano, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana (em Roma)
Filipe Domingues, especialista em Vaticano, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana (em Roma) (foto: Arquivo pessoal )

"Existe uma transparência no Vaticano em relação à saúde do papa. O próprio Leão XIV quis falar sobre sua doença, durante a Oração do Ãngelus. Foi uma decisão muito importante, pois ele demonstrou tranquilidade. Leão XIV foi ao hospital, entrou andando e cumprimentando as pessoas. Tudo isso passa uma sensação de tranquilidade. A forma de se comunicar tem sido muito direta e muito simples, além de uma linguagem bastante orientada pelos médicos." 

FILIPE DOMINGUES, especialista em Vaticano e doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana (em Roma) 

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postado em 15/10/2026 05:00
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