
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, invocou os protestos das últimas semanas na França, em especial os incidentes de violência do sábado, para mobilizar os eleitores do Partido Republicano para irem às urnas e derrotarem a oposição democrata — cotada para conquistar a maioria, possivelmente, em ambas as casas do Congresso. As eleições legislativas de meio mandato estão marcadas para 3 de novembro, e podem deixar Trump na posição que o jargão político dos EUA chama de "pato manco", um presidente sem condições para definir a agenda política ou pautar o debate no Congresso.
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"Quando vocês virem campanários (torres com sinos) em chamas e incêndios violentos na França, lembrem-se de que é isso que os democratas radicais querem fazer com os EUA", afirmou, em referência ao incêndio que destruiu a torre da prefeitura de Limoges, na França. "Eles (a oposição nos EUA) pretendem fazer isso. Não vão nem chegar perto disso", prometeu. O presidente não apresentou nenhuma evidência para sustentar a acusação, mas disse que isso "não ocorrerá" caso os republicanos (governistas) vençam as eleições e mantenham a maioria que detêm, atualmente, em ambas as casas legislativas.
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Trump relacionou os protestos na França, que têm pautas educacionais e de custo de vida, com a imigração na Europa. E afirmou que o Velho Mundo "foi fraco" no controle de suas fronteiras e, por isso, "fracassou". O que está acontecendo na França é o que eles (os democratas) querem que aconteça em nosso país", discursou, mirando diretamente na imigração. "A Europa fechou as fronteiras, mas fracassou porque foi fraca, permitiu que as fronteiras fossem reabertas imediatamente", criticou. "Nós fechamos nossas fronteiras, que são as mais fortes da história do nosso país", completou.
Polarização
"A polarização política nos EUA inclui grupos radicais, inclusive à direita, mas não há evidências de que a extrema esquerda represente uma ameaça organizada ao sistema democrático, nos termos apresentados por Trump", disse ao Correio Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM. "O que ele faz é utilizar os acontecimentos franceses para reforçar uma narrativa que já emprega internamente, associando imigração, radicalismo de esquerda e violência política."
Nas últimas semanas, Trump tem viajado pelos estados dos EUA para apoiar os candidatos de seu partido que disputarão cadeiras na Câmara e no Senado, acossados pela impopularidade do presidente e pela inflação — puxada, em boa parte, pela alta dos combustíveis, desdobramento da guerra no Irã. Nos últimos dias, a França tem vivido alguns dos piores distúrbios dos últimos anos, à medida que enormes protestos contra o custo de vida e os serviços públicos subfinanciados.
Defensores dos direitos humanos têm criticado repetidamente Trump por sua retórica, ao longo dos anos. O presidente tem atacado e ridicularizado imigrantes e grupos étnicos minoritários, frequentemente com retórica antimuçulmana e xenofóbica. Organizações pró-direitos civis afirmam que tal retórica normaliza "atitudes discriminatórias" em relação a essas comunidades.
"O objetivo imediato é eleitoral, pensando nas eleições legislativas americanas de novembro", analisa o estudioso da ESPM. "Trump procura mobilizar sua base eleitoral em torno de dois temas que sempre foram centrais para seu movimento: imigração e combate à esquerda". É nesse contexto, segundo Rudzit, que o presidente dos EUA invoca a presente turbulência social e política na Europa. "Ao apresentar a Europa como exemplo das consequências de políticas migratórias equivocadas, procura justificar as próprias medidas e reforçar a ideia de que somente um controle rigoroso das fronteiras pode preservar a segurança e a identidade nacional", sustentas.
Inflação
Rudzit aponta, ainda uma "tentativa de deslocar o debate eleitoral das dificuldades econômicas enfrentadas pelos americanos para temas nos quais acredita ter maior capacidade de mobilização". O professor da ESPM aponta também as limitações dessa estratégia. "O custo de vida continua sendo uma preocupação importante dos eleitores. Portanto, a ofensiva contra a Europa deve ser entendida menos como uma discussão sobre os problemas europeus e mais como parte da campanha política doméstica de Trump."
O estudioso acredita que Trump não critica apenas as políticas europeias de imigração, mas "o próprio modelo político representado pelos governos tradicionais do continente". Ao responsabilizar a entrada de estrangeiros pela instabilidade social na França, Itália e outros países, "aproxima-se do discurso dos partidos nacionalistas europeus, que disputam o poder justamente com essas lideranças". O presidente dos EUA, avalia Rudzit, "acaba interferindo no debate político interno europeu, enfraquecendo seus interlocutores tradicionais e fortalecendo forças políticas ideologicamente mais próximos" de seu discurso para os EUA. "Isso também pode dificultar a cooperação transatlântica em questões estratégicas", observa.
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