Os protestos que se espalharam por Paris e por outras cidades levaram a França a cercear uma das palavras de ordem da Revolução Francesa: a liberdade. As autoridades impuseram toque de recolher parcial em partes da capital e em outras cidades do norte do país, entre 20h desta segunda-feira (19/10) e 6h desta terça-feira (20/10) pelo horário local (das 15h de segunda-feira à 1h desta terça no horário de Brasília). Em Lyon, Lille e Nice, a medida vigorou em áreas específicas das regiões metropolitanas. Nas duas últimas cidades, apenas menores desacompanhados foram proibidos de circular.
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De forma independente, a Prefeitura de Marselha proibiu reuniões e manifestações, ontem. Os protestos começaram com os estudantes, que tomaram as ruas para exigir uma melhoria da educação, mas acabaram incluindo os chamados "coletes amarelos" e outros movimentos sociais, que denunciam o aumento do custo de vida.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, esteve na segunda maior cidade da França e se reuniu com o prefeito, Benoit Payan. "Não entendo como, em total impunidade, pessoas puderam massacrar a minha cidade durante horas (...) diante dos olhos de indivíduos que deveriam ter intervindo", declarou, ao exigir que o Estado "pague a conta" pelos prejuízos estimados em 28 milhões de euros (ou R$ 140,8 milhões). Nuñez admitiu que a polícia "perdeu o controle". Durante os protestos, mais de mil policiais ficaram feridos, 2.500 manifestantes foram detidos e 67 estão presos.
Sem intimidação
Por sua vez, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou que, na sexta-feira, visitará Limoges, município que se tornou uma espécie de ícone dos distúrbios depois que a prefeitura foi incendiada e a imagem do desabamento da torre ganhou as redes sociais. "Ela é o símbolo de uma nação que não se deixa abater nem se intimidar", declarou o premiê, que prometeu reconstruir o prédio. Lecornu também culpou a extrema-esquerda pelos levantes sociais do fim de semana. "Há um movimento liderado por grupos radicais de extrema-esquerda que, de fato, querem desestabilizar, que querem criar o caos em nosso país até as eleições presidenciais", assegurou. "Não nos deixaremos ditar nem governar pelos infratores, pelos ladrões, pelos criminosos." Na manhã de ontem, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escreveu em sua rede social que "os migrantes tomaram a França". "Eles devem fechar as fronteiras rapidamente", cobrou.
Cientista político da Fundação Jean Jaurès (em Paris), Jean-Yves Camus admitiu ao Correio que ativistas da extrema-esquerda estão interessados em buscar um confronto direto com as forças de segurança. "Isso não ocorrerá durante o toque de recolher", destacou. "Os manifestantes genuínos estão nas ruas devido ao alto custo de vida e ao aumento dos preços da energia. Os estudantes, por sua vez, pedem mais investimentos no sistema educacional."
De acordo com Camus, aqueles que confrontam a polícia são, em sua maioria, anarquistas que desejam derrubar o capitalismo e a democracia liberal. "Eles alegam lutar contra o 'fascismo' — conceito que, segundo eles, abrange todo o espectro de opiniões democráticas, desde os conservadores até a social-democracia — e, naturalmente, opõem-se a Marine Le Pen (líder do partido ultraconservador Reagrupamento Nacional, RN). Contudo, seu comportamento acaba por ajudá-la a conquistar o voto de muitos eleitores que defendem 'a lei e a ordem'", explicou. "Havia, ainda, saqueadores que atacavam lojas e levavam tudo o que podiam. O número deles era impressionante. Uma grande parte, pelo que pude observar, vinha dos subúrbios de Paris. Eles não tinham qualquer agenda política."
Os franceses irão às urnas em 18 de abril de 2027 para escolher o próximo presidente. Jordan Bardella, presidente do RN, aproveitou para criticar o governo Macron. "O poder desertou completamente", disse. "Quem vai se beneficiar desse caos, senão Le Pen?", advertiu o seu rival social-democrata, Raphaël Glucksmann, ao defender uma "reação contundente" do Executivo.
EU ACHO...
"Faltam seis meses para o dia da eleição. A única decisão que o presidente Emmanuel Macron poderia tomar seria decretar estado de emergência, mas isso equivaleria a uma declaração de guerra contra os manifestantes e resultaria em um caos total. Ele não renunciará. O melhor que pode fazer é ajustar a resposta policial aos distúrbios, colocando mais agentes nas ruas durante os próximos protestos, e solicitar à comunidade de inteligência que atualize as informações sobre os manifestantes."
JEAN-YVES CAMUS, cientista político da Fundação Jean Jaurès (em Paris)
