
A pouco mais de dois anos do fim do mandato, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta um dos principais testes políticos de sua segunda passagem pela Casa Branca. As eleições de meio de mandato, marcadas para esta terça-feira (3/11), podem alterar o equilíbrio de forças no Congresso dos Estados Unidos e comprometer a capacidade do presidente de avançar com sua agenda. Se os democratas conquistarem a maioria em uma ou nas duas Casas legislativas, Trump terá de lidar com uma oposição mais forte justamente na reta final do governo.
Conhecidas como midterms, as eleições ocorrem a cada quatro anos, no meio do mandato presidencial. Embora não definam quem ocupa a Casa Branca, funcionam como um termômetro da avaliação do governo e costumam favorecer o partido de oposição. Em 2026, os republicanos tentam preservar as maiorias que conquistaram no Congresso, enquanto os democratas apostam no desgaste do presidente para retomar o controle do Legislativo.
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Para o cientista político, pesquisador e professor Carlos Gustavo Poggio, as eleições devem refletir a insatisfação dos norte-americanos com o governo. “As eleições de meio de mandato tradicionalmente são um referendo sobre o presidente e, historicamente, o partido do presidente costuma perder cadeiras”, afirma ao Correio. Segundo ele, o cenário deste ano reúne esse padrão histórico e a baixa aprovação de Trump, combinação que pode resultar em uma perda expressiva de assentos republicanos.
Entenda como funcionam as midterms
Os estadunidendes não votam diretamente para presidente nas eleições de meio de mandato. A disputa define a composição do Congresso, formado pela Câmara dos Representantes e pelo Senado, responsáveis por aprovar leis, orçamento e fiscalizar o Poder Executivo.
Na Câmara, os 435 assentos são disputados a cada dois anos. Os representantes têm mandatos de dois anos e são eleitos por distritos distribuídos entre os estados, conforme a população. No Senado, a renovação é escalonada: os senadores cumprem mandatos de seis anos, e cerca de um terço das cadeiras entra em disputa a cada eleição. Neste ano, 35 vagas estão em jogo, entre eleições regulares e especiais.
O resultado pode mudar o partido que controla cada Casa e, com isso, a condução dos trabalhos legislativos. Uma maioria democrata na Câmara, por exemplo, permitiria à oposição comandar comissões, pautar debates e ampliar a fiscalização sobre a administração Trump. No Senado, o controle influencia a tramitação de projetos e a confirmação de indicações presidenciais para cargos importantes.
Economia pesa na insatisfação dos eleitores
A economia aparece como um dos principais fatores da disputa. O aumento do custo de vida, a inflação e os preços dos combustíveis pressionam a avaliação do governo. Uma pesquisa Reuters/Ipsos concluída em 26 de outubro apontou que 73% dos entrevistados consideravam que o custo de vida caminhava na direção errada. O levantamento também registrou aprovação de apenas 32% a Trump, próximo do menor índice de sua gestão.
Poggio avalia que a insatisfação é especialmente significativa entre eleitores que apoiaram Trump com a expectativa de melhora econômica. “O eleitor está insatisfeito com o custo de vida. O eleitor que votou no Donald Trump pensando que ele ia consertar o custo de vida, na verdade, o Trump apenas tomou ações que aumentaram o custo de vida”, diz.
O especialista cita as tarifas comerciais impostas pelo presidente e a guerra no Irã como fatores que, na avaliação dele, contribuíram para pressionar a inflação norte-americana. “São duas questões que elevaram a inflação nos Estados Unidos. Hoje, a inflação está maior do que quando o Donald Trump assumiu”, afirma.
A insatisfação econômica pode ampliar o desgaste republicano, mas o resultado depende também das disputas locais. A vantagem democrata nas pesquisas nacionais não se traduz automaticamente em maioria no Senado, onde a distribuição das cadeiras e o desempenho em estados específicos pesam mais.
Congresso pode impor limites a Trump
Uma eventual vitória democrata na Câmara teria efeitos imediatos sobre a agenda doméstica do presidente. Projetos de lei, medidas orçamentárias e prioridades legislativas da Casa Branca enfrentariam maior resistência. Além disso, a oposição poderia intensificar investigações sobre a atuação do governo.
Poggio destaca que o Congresso não se limita à elaboração de leis. “Uma das funções do Congresso não é apenas legislar, mas também monitorar o Poder Executivo e o presidente”, afirma. Para ele, a mudança de maioria abriria espaço para apurações que, segundo sua avaliação, foram impedidas pela atual composição republicana.
O cientista político menciona suspeitas de corrupção, irregularidades e possíveis violações constitucionais na administração Trump. “Essas coisas não foram investigadas porque a maioria republicana no Congresso se negou a fazer a investigação. Com a maioria democrata, isso deve mudar”, diz.
O alcance da oposição, porém, dependerá de quantas cadeiras conseguir. Se os democratas conquistarem apenas a Câmara, poderão ampliar a fiscalização e dificultar a aprovação de projetos, mas Trump continuará com poderes próprios do Executivo. Caso também assumam o Senado, o presidente enfrentará um Congresso controlado pelos adversários, cenário que tornaria a negociação política ainda mais difícil.
Mesmo com uma eventual derrota legislativa, Trump permanecerá na Casa Branca até janeiro de 2029. O resultado das midterms não encerra o mandato nem retira automaticamente poderes presidenciais, mas pode reduzir a margem de ação do governo e aumentar o custo político de suas decisões.
Resultado pode redesenhar a disputa de 2028
As eleições também devem influenciar a corrida presidencial de 2028. Uma derrota republicana pode enfraquecer aliados de Trump e abrir espaço para disputas internas sobre o futuro do partido. No campo democrata, uma vitória expressiva serviria como impulso, mas não resolveria a falta de um nome consolidado para suceder o presidente.
Poggio considera que o desempenho da oposição no Congresso será decisivo para definir os próximos passos. “A trajetória do Partido Republicano vai depender muito do desempenho do Partido Democrata e de como os democratas vão se articular para 2028”, afirma.
Segundo o especialista, o partido ainda apresenta uma liderança fragmentada e não tem uma identidade eleitoral claramente definida para a próxima disputa presidencial. Ele aponta que o resultado de corridas específicas, como a do Senado em Michigan, pode indicar a força de setores mais à esquerda da legenda. O avanço dessa ala, avalia, pode mobilizar parte da base democrata, mas também provocar reação entre republicanos.
No Partido Republicano, por outro lado, Poggio identifica dois nomes que despontam para a sucessão: o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Ambos são apontados como possíveis candidatos, embora a disputa ainda esteja distante.
O cientista político ressalta, contudo, que os democratas também terão de lidar com a própria rejeição. “A aprovação do Partido Democrata é ainda mais baixa que a do próprio Donald Trump”, afirma. Uma eventual conquista das duas Casas, portanto, não significaria apenas uma vitória eleitoral: colocaria a oposição sob pressão para demonstrar capacidade de governar e apresentar alternativas.
O resultado desta terça-feira (3) deve definir, assim, mais do que a composição do Congresso. A votação pode determinar o grau de liberdade de Trump para conduzir os dois últimos anos de mandato e dar início à disputa pelo futuro político dos Estados Unidos.
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