Opinião

Pesadelo anunciado

Circe Cunha
postado em 22/12/2021 06:00

"João amava Teresa/ que amava Raimundo/ que amava Maria/ que amava Joaquim/ que amava Lili/ que não amava ninguém." Transportando o texto de Carlos Drummond de Andrade para a vida árida e sem poesia da política nacional, num exercício de paráfrase teríamos mais ou menos a seguinte sentença: Lula elegeu Bolsonaro, que elegeu Lula, que elegeu os militares, que não mais elegeram ninguém.

Tal é o que parece estar se desenhando no horizonte do país, com as eleições de 2022, para desespero dos brasileiros de bem. Não há poesia possível, capaz de trazer um naco sequer de luz quando o que está em cena é o breu da política nacional e, principalmente, de seus protagonistas. O resultado da radicalização e do nonsense que tomaram conta da política em nosso país desde o final do século passado sinaliza que o final dessa história irá nos conduzir de volta ao beco sem saída da irracionalidade.

Um beco escuro que já conhecemos no passado e para o qual fomos empurrados à força por obra e graça do comportamento arrivista da nossa classe política. O consenso como saída para essa e outras crises não existe por conta, também, do egoísmo que faz com que nossas lideranças políticas sejam incapazes de tirar os olhos do próprio umbigo.

A fórmula do quanto pior, melhor para o adversário é sempre construída com o sacrifício dos cidadãos e do país. A população, que a tudo assiste entre atônita, passiva e temerosa, não tem a quem recorrer. Nem Congresso, nem tribunal algum pode socorrer ou sequer demonstra interesse em acudir o gado marcado a caminho do frigorífico.

A população lúcida espera pelo pior, como quem espera por seu algoz. De algum lado dessa estrada bifurcada, como o chifre de um bode, ele virá. Na verdade, como no poema de Carlos Drummond de Andrade, Quadrilha, nenhum dos personagens que hoje se apresentam para, mais uma vez, pedir a mão da nação em casamento ruma para esse matrimônio levado pelas asas do cupido ou por quaisquer outros nobres sentimentos.

Buscam essa celebração não como quem busca a harmonia e o bem de alguém ou de algo. Estão a caminho do altar da eleição, movidos apenas por propósitos cegos que nem a Deus confessam. As alternativas a essa espera do Godot nefasto são escassas e podendo acontecer, caso tudo isso não passe de um sonho turbulento numa noite de febre alta. A alternativa, então, viria com o despertar uníssono dos eleitores, pondo um fim ao pesadelo anunciado.

 


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