Oriente Médio

Chega de atrocidades!

O silêncio de Israel é ensurdecedor. Querer fazer acreditar que o Hamas fez todas essas vítimas de escudos humanos — e que, portanto, o resultado era previsível — beira o ridículo

 A picture taken in Gaza City shows debris from destroyed buildings and smoke billowing in the background during Israeli bombardment on February 20, 2024, amid continuing battles between Israel and the Palestinian militant group Hamas. (Photo by AFP)
       -  (crédito:  AFP)
A picture taken in Gaza City shows debris from destroyed buildings and smoke billowing in the background during Israeli bombardment on February 20, 2024, amid continuing battles between Israel and the Palestinian militant group Hamas. (Photo by AFP) - (crédito: AFP)
postado em 03/04/2024 06:00

Sincero pesar. Foi o sentimento expressado pelas Forças de Defesa de Israel depois que assassinaram sete trabalhadores humanitários da organização não governamental World Central Kitchen, na Faixa de Gaza. Nenhuma palavra de lamento pelas mortes de 30 mil palestinos — em sua maioria, homens de bem, mães e crianças. O silêncio de Israel é ensurdecedor. Querer fazer acreditar que o Hamas fez todas essas vítimas de escudos humanos — e que, portanto, o resultado era previsível — beira o ridículo. A comunidade internacional tem o dever moral de intensificar a pressão por um cessar-fogo e de exigir a responsabilização do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e de seus comandantes. O atentado horrível de 7 de outubro, um verdadeiro massacre no sul de Israel, foi produto de uma falha gritante de inteligência. No topo do poder, Netanyahu tem que ser o primeiro investigado e cobrado. Aliás, ele argumentou que o bombardeio aos voluntários da World Central Kitchen "não foi intencional" e que coisas assim "acontecem " na guerra.

Como escrevi nesta coluna, o ataque do Hamas, seis meses atrás, foi uma atrocidade injustificável e indefensável. Terrorismo. Ponto final. Mas a retaliação desmedida de Israel tem alvejado inocentes, assim como o Hamas fez. O argumento de que o Exército judeu atua na mera defesa de seu território e de seu povo, ao despejar milhares de bombas sobre a Faixa de Gaza, é incoerente e nefasto. Na era tecnológica, tanto o Hamas quanto as Forças de Defesa de Israel usam o massacre como propaganda de guerra. Um vídeo divulgado recentemente mostra palestinos caminhando em uma rua. Pouco depois, são atingidos em cheio por um míssil. Tudo o que se vê nas imagens são pedaços de corpos voando. Em outro vídeo, um grupo de palestinos tenta alcançar o norte de Gaza andando pela praia. De repente, os civis são atingidos por tiros e tombam, mortos. Uma retroescavadeira do Exército israelense os sepulta ali mesmo.

Nenhum povo civilizado deveria defender a ofensiva israelense como uma licença para matar. O que ocorre em Gaza, que sempre foi uma prisão a céu aberto, não é mais uma legítima retaliação a uma agressão covarde e monstruosa. Tornou-se vingança. E atos de vingança, em uma região tão volátil quanto o Oriente Médio, apenas fomentam mais ódio, mais sede de vingança e mais horror. Estive em Israel por duas vezes. Conheci um povo cordial e hospitaleiro. Também mantive contato com palestinos, ao longo desses 19 anos como profissional do Correio, completados amanhã. Eles anseiam por um Estado independente, soberano e livre, sem ameaça das armas.

A comunidade internacional tem a obrigação moral de exigir um basta nessa loucura e impulsionar um plano de paz definitivo, que leve à imediata criação de um Estado palestino. Somente quando os palestinos tiverem uma nação soberana e independente haverá paz. É preciso que judeus e árabes façam concessões históricas, se desejam ter um futuro sem horror. É preciso que façam sacrifícios em nome da segurança de seus próprios filhos. 

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