
Mauro Rebelo — biólogo marinho, doutor em biofísica, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fundador da Bio Bureau
O planeta Terra possui 13 bilhões de hectares, dos quais 3 bilhões de florestas naturais, 100 milhões são áreas urbanas, 1,5 bilhão de terras agricultáveis e 3,5 bilhões de hectares de pecuária, incluídos pastos degradados e subutilizados, com ocupação menor que um animal por hectare. Estima-se que 1,5 bilhão de hectares dessas terras poderia ser restaurado como florestas.
A decisão de reverter essas pastagens em floresta já é, em si, um desafio. No Acordo de Paris (2015), o Brasil se comprometeu a restaurar 12 milhões de hectares até 2030. No Acordo de Montreal (2022), diversos países firmaram o compromisso de conservar 30% do planeta até 2030. Mas o progresso em direção a essas metas é limitado. No Brasil, segundo WRI Brasil, MapBiomas e Planaveg, foram restaurados entre 700 mil e 1 milhão de hectares com espécies nativas desde 2000. Em escala global, as estimativas variam entre 10 e 15 milhões de hectares, distribuídos entre iniciativas na África, América Latina e Ásia, em programas como o Desafio de Bonn (The Bonn Challenge) e a Iniciativa de Restauração da Paisagem Florestal Africana (AFR100).
Isso porque a dura verdade é que a tecnologia para o reflorestamento em larga escala, em escala planetária, ainda não existe.
No Brasil, a restauração ativa avança a uma média anual de cerca de 50 mil hectares, e seria necessário aumentar a produtividade em 24 vezes até 2030 para bater a meta. Mesmo em áreas planas e de fácil acesso, o reflorestamento custa cerca de US$ 5 mil por hectare, sem incluir as mudas — produzidas artesanalmente, limitadas a poucas espécies e difíceis de escalar. Restaurar 1,5 bilhão de hectares nessas condições exigiria cerca de US$ 7,5 trilhões.
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As iniciativas atuais de restauração em massa, com metas de 1 a 2 milhões de hectares, mantêm essas abordagens, priorizando o aumento de esforço sobre a inovação tecnológica. Podem ser eficazes até alguns milhões de hectares, mas dificilmente atingem a escala planetária. Precisamos de novas tecnologias para reduzir custos e superar os desafios operacionais da restauração ativa.
A restauração precisa seguir o exemplo da agricultura, que já mostrou como é possível cultivar áreas com o uso intensivo de tecnologia. Ao invés disso, a conservação adota uma postura refratária à biotecnologia. A tecnologia é isenta. As mesmas ferramentas que permitiram à agricultura alimentar o planeta — como a edição genômica, a transgenia e o melhoramento de espécies nativas — podem ser aplicadas à restauração de ecossistemas, desenvolvendo linhagens adaptadas a condições extremas, com maior eficiência de crescimento e resistência a estresses ambientais.
Em "Chegou a hora da conservação sintética da biodiversidade?", de 2016, Piaggeo chamava atenção para a ineficácia das abordagens tradicionais de conservação que não têm sido suficientes para deter a perda global de biodiversidade, que continua em ritmo alarmante. Esse debate destacava a necessidade de considerar novas ferramentas e tecnologias, como a biologia sintética, para complementar os esforços tradicionais e enfrentar problemas até então considerados insolúveis, como o controle de espécies invasoras ou patógenos.
Por que apenas para a agricultura e não para a conservação da biodiversidade? Quando se trata de conservação, a ideologia importa mais que a eficácia. Caso contrário, já estaríamos usando edição gênica para plantar florestas melhoradas geneticamente em escala global, do mesmo jeito que o reflorestamento comercial com espécies exóticas, como eucalipto e pinus, voltado à produção de celulose, tem feito. Essas plantações ocupam 9,6 milhões de hectares no país e entre 60 e 70 milhões de hectares no mundo.
Historicamente, desenvolver uma linhagem geneticamente modificada para o agro custava cerca de US$ 100 milhões e levava mais de uma década, sendo viável apenas para culturas com mais de 7 milhões de hectares operadas por grandes empresas, como Monsanto, Bayer ou Basf. Com a queda dos custos de sequenciamento e análise genômica, hoje é possível realizar um programa genético por cerca de US$ 10 milhões por espécie. Um projeto de US$ 1 bilhão poderia criar 100 linhagens adaptadas à restauração, permitindo produzir mudas em larga escala e com alta taxa de sobrevivência.
É praticamente impossível encontrar evidências que suportem a narrativa ocidental da precaução em detrimento do progresso. Um estudo publicado na Nature em 2018, com uma revisão sistemática do consumo de OGM (organismos geneticamente modificados) por rebanhos em todo o mundo nos últimos 30 anos, não detectou nenhum caso de morte atribuído ao consumo de OGM. Na verdade, evidências do PubMed Central (2013) mostram que cultivos GM reduziram o uso de pesticidas em 37% e aumentaram a produtividade global em 22%.
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A recente decisão no Congresso Mundial de Conservação da IUCN, em outubro deste ano, de adotar um protocolo para o uso da biologia sintética é um avanço, e é preciso construir em cima dele. É assim que vamos trazer viabilidade econômica para a silvicultura e torná-la compatível com o desafio em nível global.
Conseguiríamos desenvolver tecnologia para reflorestar 1,5 bilhão de hectares. Mas será que conseguimos abrir mão da ideologia?
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