
Gilberto Lima Junior — presidente do Instituto Illuminante de Inovação Tecnológica e Impacto Social, futurista e humanista digital
Na madrugada de 22 de novembro, um alarme de tentativa de violação soou no Centro Integrado de Monitoração Eletrônica (Cime) em Brasília. O sistema de rastreamento confirmou tratar-se da tentativa de violação da tornozeleira eletrônica do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, que se encontrava em prisão domiciliar, num condomínio nobre da capital.
Cerca de duas horas depois, a pedido da Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal despachou uma ordem de prisão preventiva, que foi cumprida às 6h. O episódio ganhou a mídia nacional e estrangeira, especialmente após a divulgação de um vídeo em que uma agente interage com o ex-presidente. Nas imagens, vê-se a tornozeleira queimada em toda a sua circunferência. Bolsonaro menciona que, por mera "curiosidade", utilizou um ferro de solda no equipamento.
Para que o leitor possa compreender melhor, o dispositivo é composto por um transmissor "GPS" e um modem de comunicação que envia dados de localização via celular para uma central, 24 horas por dia. Ele possui uma série de sensores que monitoram sua integridade, incluindo sensores de abertura, de corte e de violação térmica. Quanto à comunicação, a tornozeleira coleta dados de localização via GPS, bem como o status dos sensores de forma permanente.
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Esses dados são transmitidos em tempo real, utilizando redes celular (como 3G, 4G ou chips M2M). Se um sensor for ativado, um alerta instantâneo é emitido tanto para a central quanto para o usuário da tornozeleira. Na sequência, a Central aciona os protocolos de emergência, que incluem notificar a polícia e o juiz responsável pelo caso. O mesmo se aplica quando os dados do GPS indicam que o usuário saiu do perímetro permitido pela Justiça. Ou seja, é uma cerca virtual ao redor do monitorado. Pode-se concluir que a eficácia desse sistema de monitoramento depende tanto da tecnologia quanto de uma estrutura adequada de pessoal para acompanhar os alertas.
O mercado brasileiro de tornozeleiras eletrônicas, infelizmente, é um dos mais atraentes do mundo. Por aqui, a disputa se dá entre a britânica Buddi e as brasileiras Spacecom (Curitiba), Geocontrol (Espírito Santo) e a EU Brasil Tecnologia (Brasília). Essa última, fabricante da tornozeleira utilizada por Jair Bolsonaro. Estima-se que 122 mil tornozeleiras estavam ativas no Brasil em 2024, vinte vezes a mais que em 2016. O setor de segurança eletrônica em 2024, incluindo monitores, câmeras e sistemas biométricos, naquele mesmo ano teve uma receita estimada em R$14 bilhões.
A epopeia grega Ilíada, que tem como tema central a ira do guerreiro Aquiles, situa-se no contexto do décimo ano do conflito contra Troia. Na narrativa, Aquiles é uma figura emblemática da mitologia, um herói de invulnerabilidade quase absoluta, exceto por uma única e fatal fragilidade: o seu calcanhar. Essa vulnerabilidade pontual, que resultou em seu ocaso, legou ao imaginário popular a expressão "calcanhar de Aquiles", utilizada até os dias atuais para designar o ponto fraco de um indivíduo ou sistema.
O paralelo com o "calcanhar de Bolsonaro" metaforicamente se constrói pela vulnerabilidade imposta pelo monitoramento do dispositivo. Há, porém, uma curiosidade a mais. Segundo o engenheiro Orlan Almeida, que projetou o equipamento, o apelido do hardware que faz a tornozeleira funcionar é "AK", uma referência a "Akiles".
Jair Bolsonaro não faz ideia do quanto sua "curiosidade" o colocou em sério risco de morte. Almeida alerta que, ao submeter o equipamento a um ferro de solda, o ex-presidente poderia ter morrido. "Dentro da tornozeleira há uma bateria de lítio ou de íon, altamente suscetível a altas temperaturas. Poderia ter explodido, pegado fogo em sua perna. Ao perfurar o plástico, ele poderia ter perfurado a bateria com um ferro que chega a 200 ou 300 graus, causando uma explosão", explica.
Estaria mesmo o ex-presidente sob um surto provocado pelo uso de medicamentos como afirmou na sua audiência de custódia? Sua tentativa de violação do equipamento teria sido feita apenas por ele ou contou com o auxílio de mais alguém?
Na Batalha de Troia, a fúria de Aquiles causou a morte de muitos, incluindo o herói troiano Heitor. Seu irmão, Paris, vingou-se atirando uma flecha envenenada, direcionada pelo deus Apolo, ao calcanhar de Aquiles, provocando sua morte.
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