
O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, anunciado com naturalidade por Donald Trump em uma coletiva de imprensa, marca uma ruptura geopolítica sem precedentes na América Latina desde o fim da Guerra Fria. Não se trata apenas de mais um capítulo da longa crise venezuelana, mas de uma inflexão estratégica que recoloca a intervenção militar direta como instrumento explícito da política externa norte-americana no hemisfério.
Ao capturar um chefe de Estado estrangeiro, bombardear alvos estratégicos em Caracas e declarar a intenção de governar a Venezuela até uma transição "criteriosa", Washington ultrapassa limites que vinham sendo, ao menos formalmente, respeitados desde o trauma das intervenções do século 20 na América Latina. O discurso de Trump — reforçado pelo secretário de Estado Marco Rubio e pelo secretário de Defesa Pete Hegseth — deixa pouca margem a interpretações benevolentes. A operação militar, descrita com detalhes técnicos e orgulho bélico, foi apresentada como modelo de eficiência na "caça a terroristas", equiparando um presidente latino-americano, por mais contestado que seja, a um inimigo militar.
Mais grave ainda foi a associação explícita entre a intervenção e o controle do petróleo venezuelano, com a promessa de entrada de grandes empresas americanas para "consertar" a infraestrutura e "gerar lucro". A linguagem é colonialista. Não à toa, Trump estendeu ameaças veladas a outros países da região. O presidente colombiano, Gustavo Petro, foi advertido em público, Cuba foi citada como próximo "assunto" e a ideia de tropas americanas em solo venezuelano foi tratada como algo já consumado.
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Trata-se de uma sinalização inequívoca de que a América Latina volta a ser vista como zona de tutela estratégica, em linha com uma releitura agressiva da velha Doutrina Monroe. O sequestro de Maduro, nesse sentido, sim, encerra um ciclo político venezuelano; porém, inaugura outro, muito mais instável, tanto para a Venezuela quanto para os governos latino-americanos com os quais Trump tem diferenças ideológicas. A experiência de intervenções norte-americanas ao redor do mundo, porém, mostra que os êxitos militares não significaram sucesso político, econômico e social, como vimos no Iraque, na Síria, na Líbia, no Afeganistão, na Nigéria e em outros países.
Nesse contexto, é relevante a posição do Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por uma postura de defesa da não intervenção, da paz e age com cautela institucional, em consonância com a melhor tradição da política externa brasileira. A reunião de emergência no Itamaraty, a preocupação com a segurança da fronteira e a recusa em endossar aventuras militares refletem uma visão de Estado democrática: crises regionais não se resolvem com ocupação estrangeira, mas com diplomacia, mediação e soluções multilaterais.
Essa posição não significa complacência com autoritarismos nem indiferença ao sofrimento do povo venezuelano. Significa, sim, o reconhecimento de que a força bruta tende a produzir colapsos políticos, crises humanitárias e efeitos transbordantes, especialmente para países vizinhos como o Brasil, o Chile, a Guiana e a Colômbia. O próprio governo brasileiro avalia que uma ofensiva desse tipo pode aprofundar o caos social e gerar impactos diretos sobre a estabilidade regional.
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Ao defender a paz e a soberania, o Brasil reafirma um princípio histórico: a América do Sul não pode ser palco de disputas imperiais nem laboratório de soluções armadas. O sequestro de um presidente, a promessa de administrar um país estrangeiro e a apropriação explícita de seus recursos naturais configuram uma ruptura geopolítica que ameaça não apenas a Venezuela, mas todo o equilíbrio regional. Diante desse cenário, devemos insistir no multilateralismo, no direito internacional e na recusa à lógica do "fato consumado". Essa posição pode parecer discreta, porém, é estratégica: quando a força substitui o direito, ninguém está realmente seguro.

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