Artigo

Subjetividade do racismo

Precisamos aprender e ensinar nas universidades e, principalmente, precisamos estar nos corações de nossos filhos e também dos nossos amigos brancos

pri-2506-opiniao opinião  -  (crédito: Caio Gomez)
pri-2506-opiniao opinião - (crédito: Caio Gomez)

» CELSO PIARELLI, artista plástico: Ao descobrir o racismo, passei a enxergar um mundo que está, mentalmente, desfigurado e "viralizado". Hoje, combato e reconheço os racismos individual, institucional e estrutural e agrego, aqui, a natureza viral e econômica do racismo. Chamo de viral por ser o racismo como um vírus que, ao adentrar uma célula, é capaz de viciá-la, reprogramá-la, desfigurá-la e até destruí-la. Da mesma forma atua a pessoa racista que também é capaz de viciar, um balcão de atendimento, uma seção, uma repartição inteira, determinando, assim, como a instituição atenderá seus usuários. Tudo isso, na maioria das vezes, sem a resistência ou o combate dos demais integrantes do setor.

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Já o racismo de natureza econômica nos leva à economia, a qual, de fato, formatou seu "DNA", sem o qual não existiria o racismo violento e predador que hoje estamos a combater. Um racismo escondido nas subjetividades, possuindo e modificando indivíduos, que mudam repartições, instituições e estruturas sociais. Portanto, é daí que devemos partir para compreender essa outra natureza do racismo e como ela, subjetivamente, foi estruturada. Certamente, vamos chegar à economia e vamos compreender que o processo ainda está em andamento, e vem se estruturando desde os pequenos avanços tecnológicos alcançados no passado como a roda, o fogo, a alavanca e catapultas de Arquimedes, a espada, o escudo e tantos outros avanços e, alguns deles empregados em batalha.

Assim, todos esses pequenos avanços contribuíram para formação do primeiro gerador de acumulação de riqueza, o espólio de guerra, que mais tarde se transfigurou, por força econômica, na escravidão, a qual, foi fundamental para a economia, quando se inicia a colonização em grande escala, tempo em que as máquinas marítimas começaram a cruzar os mares, culminando, esse processo, na primeira Revolução Industrial lá no século 18. E depois, no pós-escravidão, produziu os proletários/operários e, hoje, na sequência das revoluções industriais começa a costurar e proliferar a nova formatação econômica, o uberismo, enquanto articulam-se os caminhos para a totalidade maquinária, sem proletariado, operários e patrões. Pois são elas, as máquinas, que estão, em verdade, evoluindo todo este tempo, e seus possuidores, por meio delas, vêm aumentando, a cada dia, seu poder de dominação e geração de riqueza.

Subjetivamente, como adendo, convém aqui observar que o abolicionismo tinha como urgência acabar com a escravidão. Assim, o racismo, não combatido à época, banalizou a escravidão e operou como elemento contra abolicionista nos diversos espaços de luta e contestação. Sim, combater a escravidão não foi e não é combater o racismo. 

Retornando à economia, podemos inferir, com base na natureza "viral" e econômica, que, em 1888, os escravizados não foram libertados, e sim, lançados num calabouço  invisível, pois não entraram para a sociedade como classe social, como ocorreu com os proletários e os eventuais operários da indústria embrionária brasileira, que formaram a chamada classe social baixa. Ou seja, os ex-escravizados, dos quais 54% de nós, brasileiros, descendemos, ficaram desde 1888 fora dessa categorização, a classe baixa, por uma influência econômica "burra" (aspas para não ofender os burros) e doentia, justificada apenas pela presença do racismo viral presente nas pessoas portadoras, dentro e fora, dos diversos polos de comando como os Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo da República em parceria com o privado — a alta burguesia. Leis foram criadas e sancionadas com a intenção de eliminar pessoas negras, como se deu, por exemplo, também na Argentina (1861), com o fim da escravidão.

Assim, com as subjetividades aqui apresentadas, podemos afirmar que pessoas de pele preta precisamos resgatar perdas financeiras, sociais e emocionais advindas da escravidão e do isolamento social ao qual fomos submetidos, em nosso ponto de partida, enquanto pessoas ditas livres. Portanto, precisamos aprender e ensinar nas universidades e, principalmente, precisamos estar nos corações de nossos filhos e também dos nossos amigos brancos. Falo daqueles que permanecem na ignorância acreditando ainda em algum tipo de superioridade racial denominada racismo, essa anomalia "econômico-viral" que precisa ser percebida como instrumento econômico prestes a ser desnecessário, dado o avanço tecnológico que descartará a mão de obra em grande escala em que pretos e brancos, não burgueses, estarão no mesmo calabouço, abaixo da classe social, mantidos como gado.

 


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postado em 03/01/2026 06:01
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