
A primeira semana da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, sob a liderança de Donald Trump, revelou que não se trata apenas de uma operação militar ou diplomática, mas de uma reconfiguração estratégica do mercado global de energia, com fortes implicações geopolíticas, econômicas e eleitorais. Desde o início, a intervenção foi enquadrada pela Casa Branca como uma ação de "segurança energética" e "estabilização regional", mas seus movimentos concretos indicam um processo de tutela internacional do Estado venezuelano, centrado no controle do petróleo.
O encontro fechado de Trump com cerca de duas dezenas de executivos das maiores petroleiras do mundo simbolizou essa nova fase. Ao exigir investimentos privados da ordem de US$ 100 bilhões, em troca de garantias políticas, jurídicas e militares, o presidente deixou explícito o modelo: o Estado norte-americano oferece proteção e previsibilidade; o capital privado reconstrói e explora. Trata-se de uma lógica clássica de projeção de poder, na qual o risco político é socializado via hegemonia militar, enquanto os lucros permanecem privados.
Essa abordagem responde diretamente ao trauma das nacionalizações promovidas por Hugo Chávez nos anos 2000, que ainda assombram o setor. As exigências por segurança jurídica feitas por empresas como Chevron, ExxonMobil e Repsol mostram que o capital internacional só retornará à Venezuela se houver ruptura definitiva com o modelo chavista e com a antiga PDVSA, hoje associada à ineficiência, corrupção e colapso operacional. Essa ruptura, porém, passa pelas novas relações da Casa Branca com o governo bolivariano da presidente em exercício Delcy Rodriguez, surpreendentemente chancelada por Trump.
No plano operacional, a prioridade imediata foi esvaziar os tanques de petróleo acumulados em razão das sanções, estimados em cerca de 30 milhões de barris. A apreensão de navios e o controle centralizado das vendas indicam que Washington busca não apenas retomar a produção, mas disciplinar a comercialização, interrompendo fluxos paralelos que abasteciam China, Rússia e Cuba a preços descontados. Esse movimento insere a Venezuela diretamente na estratégia global de contenção da influência chinesa e russa no Hemisfério Ocidental.
Ao mesmo tempo, Trump deixou claro o objetivo doméstico da operação. Ao ampliar o acesso dos EUA ao petróleo pesado venezuelano — crucial para o parque de refino norte-americano —, a Casa Branca aposta na redução dos preços dos combustíveis como instrumento de política econômica e eleitoral. Em um contexto de inflação persistente e eleições de meio de mandato no horizonte, gasolina mais barata pode funcionar como um amortecedor social e um ativo político decisivo. Ou seja, a Venezuela financiará a redução da inflação nos Estados Unidos.
A presença ativa do secretário de Estado Marco Rubio reforça o caráter da intervenção: diplomacia, energia e segurança fundidos numa única estratégia. Não se trata de uma reconstrução humanitária, mas de uma reengenharia do Estado venezuelano sob supervisão externa, com o petróleo como eixo estruturante.
Em síntese, ao controlar o petróleo venezuelano, os Estados Unidos reforçam sua capacidade de influenciar o mercado global de energia, conter adversários geopolíticos e intervir diretamente na dinâmica de sua economia interna. O custo político e institucional dessa tutela ainda incerto é a ruptura com os conceitos de soberania e integridade territorial dos países da América Latina, Canadá e Groenlândia. Essa ambição está plenamente exposta e é muito ameaçadora.

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