
Antes da internet, as conversas eram diferentes. Em cada canto, havia um círculo de pessoas batendo papo: nos ônibus, nos bares, nas feiras. Isso persiste até hoje, mas em escala muito menor. O contato cara a cara, por vezes constrangedor, quase obrigava a pessoa a se posicionar sobre determinado assunto. O resultado da imposição — mesmo que silenciosa — produzia o chamado " efeito manada". Por medo de destoar, muitos reproduziam o posicionamento do restante do grupo para serem aceitos e bem vistos; outros apenas se calavam.
O advento da internet criou um espaço confortável para disparar opiniões sobre tudo e todos. Dos stories sobre celebridades aos comentários sobre conflitos políticos internacionais, todos parecem ter um pouco de conhecimento. Na prática, são opiniões sem lastro. Ainda assim, há quem confunda falar sobre tudo — mesmo sem saber — com ter personalidade forte.
Há uma controvérsia. Se comentar e criticar virou sinônimo de personalidade, o que dizer do comportamento de quem imita influenciadores por medo de ficar de fora? Do consumo guiado pelas trends, dos desafios repetidos por impulso ou da apropriação de mobilizações legítimas apenas para sinalizar engajamento?
Mais do que nunca, a era digital atual transformou internautas em verdadeiros zumbis. Essa avalanche de informações e modismos pelas telas atinge a todos, mas recai com mais força sobre a chamada geração Z, formada majoritariamente por jovens nascidos a partir da metade dos anos 1990. São os primeiros nativos digitais, que cresceram com a internet e nos smartphones.
A conexão intensa desse público muitas vezes se camufla de autenticidade. É comum que adolescentes, por exemplo, mantenham contas secundárias (daily, close friends) para um público restrito e mais íntimo. A impressão é de menor exposição, mas isso não significa estar off-line. Pelo contrário. Especialistas apontam que a geração Z prefere conteúdos efêmeros, como stories e vídeos curtos. Qualquer promessa de otimização é bem-vinda.
Mesmo com menor exposição nos feeds, essa geração continua orientada por números. Curtidas e seguidores são capazes de determinar o humor do dia. Os textos longos, com escrita complexa e opiniões fundamentadas perdem espaço para posts rápidos, por vezes baseados em desinformação. Fomenta-se, assim, um ambiente fértil para um exército de "personalidades fortes" moldadas pelo algoritmo. As consequências futuras serão devastadoras: crise de saúde mental, pressão por padrões irreais, isolamento social e vulnerabilidade emocional.
Antes, nas rodas de conversa, posicionar-se exigia presença, risco e responsabilidade. Hoje, protegidos por telas, fala-se mais e pensa-se menos. O efeito manada continua o mesmo, só ganhou filtros e algoritmos.

Opinião
Opinião
Opinião