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Artigo: Reunião de pauta 2026

O que vamos contar ao longo dos próximos 12 meses? A reunião de pauta de janeiro carrega sempre um traço de ritual, quase uma superstição coletiva. Antes que a realidade se imponha com sua urgência, há espaço para o desejo.

É o primeiro dia do ano. Nas redações de imprensa, a equipe de jornalistas, editores, repórteres e produtores se reúne em torno da velha pergunta que nunca muda: o que vamos contar ao longo dos próximos 12 meses? A reunião de pauta de janeiro carrega sempre um traço de ritual, quase uma superstição coletiva. Antes que a realidade se imponha com sua urgência, há espaço para o desejo.

O desejo, neste começo simbólico, é simples e quase infantil: que todas as notícias sejam boas. Que, desta vez, o jornal não precise abrir com tragédias, conflitos ou números alarmantes. Sonha-se, mesmo sabendo da improbabilidade, com manchetes que falem de paz mundial, do fim dos conflitos geopolíticos e das guerras que insistem em transformar o sofrimento humano em estatística. Sonha-se com um mundo em que a erradicação de doenças deixe de ser promessa distante e passe a ser fato consumado, com a cura da aids e do câncer finalmente anunciada sem ressalvas ou letras miúdas.

Na pauta ideal, também entram menos desastres naturais, menos imagens de cidades submersas, florestas em chamas ou famílias desabrigadas. Entra o fim da violência de gênero, e o combate definitivo ao preconceito racial e à violência contra pessoas LGBTQIAPN+. A lista é longa, quase infinita, porque são muitos os assuntos em evidência que precisam, urgentemente, ser resolvidos.

É ano de Copa do Mundo, e há um desejo coletivo que atravessa redações, bares, salas de estar e ruas: ver o Brasil hexacampeão. Mesmo os mais céticos admitem que, durante o torneio, o país parece suspender por alguns dias suas próprias tensões, unindo-se em torno de uma camisa, de um gol, de um grito compartilhado. Ainda que não resolva nada estruturalmente, o futebol oferece uma trégua emocional, um raro sentimento de pertencimento comum.

É também ano de eleições gerais. E aqui o desejo da pauta é mais sério, mais urgente. Que a cobertura não seja refém da polarização tóxica, das fake news fabricadas em série, das divisões ideológicas transformadas em violência verbal — e, por vezes, física. Que não seja necessário, novamente, gastar energia explicando o óbvio: que democracia se constrói com debate, respeito às diferenças e compromisso com a verdade. Que ataques às instituições não sejam tratados como estratégia política aceitável, mas como o que, de fato, são: ameaças ao pacto coletivo.

A reunião de pauta do primeiro dia do ano é, no fundo, um exercício de esperança. Nós, jornalistas, sabemos que não controlamos os fatos, apenas os registramos, contextualizamos e questionamos. Ainda assim, ao listar os temas que gostaríamos de cobrir, revelamos mais do que uma linha editorial, mas um desejo de mundo menos violento, menos desigual, menos adoecido e, quem sabe, um pouco mais justo. Antes de narrar o mundo como ele é, a imprensa também se permite, por alguns minutos, imaginar o mundo como ele deveria ser.

 

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